Lisandro Cuxi, Djodje e Izilda de Brito explicam por que Cabo Verde no Mundial não é surpresa

2 de Julho de 2026
Lisandro Cuxi, Djodje e Izilda de Brito Cabo Verde no Mundial

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O empate sem golos frente à Arábia Saudita colocou Cabo Verde nos 16 avos de final do Mundial de 2026 e prolongou um percurso que poucos previam fora do arquipélago, mas que muitos cabo-verdianos dizem não os surpreender. Na estreia absoluta numa fase final do Campeonato do Mundo, os Tubarões Azuis terminaram o Grupo H invictos, depois de empates com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, garantindo o segundo lugar e um confronto com a Argentina, campeã em título. É a primeira vez que Cabo Verde participa num Mundial e a primeira vez que chega à fase a eliminar da competição.


Com cerca de meio milhão de habitantes, Cabo Verde tornou-se uma das seleções menos populosas de sempre a alcançar esta fase do torneio. Paralelamente, o país mobiliza uma diáspora espalhada por vários continentes, estimada entre centenas de milhares e perto de um milhão de cabo-verdianos e descendentes, com comunidades particularmente expressivas em Portugal, Estados Unidos, França, Países Baixos e Luxemburgo. Para muitos adeptos, a seleção representa simultaneamente o arquipélago e uma comunidade global.


A transformação do futebol cabo-verdiano começou a tornar-se visível em 2013, quando a seleção se estreou na Taça das Nações Africanas e alcançou os quartos-de-final. Desde então, Cabo Verde consolidou presença regular nas grandes competições africanas, voltou a atingir os quartos da CAN e construiu uma equipa cada vez mais competitiva. A qualificação para o Mundial de 2026 confirmou essa evolução, depois de uma campanha africana em que os Tubarões Azuis terminaram no topo do grupo de qualificação.


Grande parte dessa consistência é atribuída à continuidade do trabalho de Bubista, à organização defensiva da equipa e à capacidade de integrar jogadores formados em diferentes países, muitos deles ligados à diáspora cabo-verdiana. O Mundial ofereceu a demonstração mais visível dessa competitividade: um empate frente à Espanha, conseguido sobretudo através de uma exibição defensiva de grande resistência, e um empate diante do Uruguai, num jogo em que Cabo Verde mostrou capacidade para discutir o resultado com uma seleção habituada aos grandes palcos.


É também neste contexto que surgem as reações de quem acompanhou o percurso da equipa desde dentro e fora do país.


Lisandro Cuxi, cantor e compositor, descreve o apuramento como uma consequência de uma identidade coletiva que associa à história cabo-verdiana. “Quando o apuramento foi confirmado, já nada era uma surpresa. Somos um povo muito guerreiro, muito batalhador. Para mim, é normal nós irmos longe. Estamos a ir bem e estou muito feliz.” O cantor admite, ainda assim, que a dimensão emocional do momento é difícil de traduzir. “Senti uma felicidade e um orgulho que não se explica. Tens mesmo de ser cabo-verdiano para sentires e perceberes o que nós sentimos nesse dia.”


Nas últimas semanas, esse sentimento tornou-se particularmente visível nas comunidades emigrantes. Em Lisboa, Roterdão, Paris, Boston ou Praia, os jogos da seleção transformaram-se em pontos de encontro de várias gerações de cabo-verdianos, algo que Izilda de Brito Robalo, fundadora do projeto Nôs e Kriolas, diz ter sentido de forma muito concreta nos estádios norte-americanos. “Para mim é um momento de união dentro e fora de Cabo Verde. União dos cabo-verdianos espalhados pelo mundo inteiro. É também a solidificação da nossa identidade e o reconhecimento e solidariedade de outros países. Quando fui ver os jogos em Miami ou Houston, nunca tinha visto tanta gente vestida de azul para nos apoiar. Éramos sempre um pequeno grupo de apoiantes, mas pela primeira vez vimos um estádio só de azul. Foi um momento de muito orgulho para nós.”


Izilda acompanha a seleção desde a CAN disputada na Costa do Marfim e considera que o Mundial apenas confirmou um crescimento que já vinha de trás. “Para mim não foi uma surpresa, foi uma confirmação. Eu já acompanhava alguns jogos da seleção, já tinha estado na Costa do Marfim, na altura da CAN, e acompanhei sempre. Vi o valor da nossa seleção. A surpresa para mim foi o foco, a nossa postura.”


Djodje, outro nome conhecido da música feita cabo-verdiana, faz uma leitura semelhante. O artista vê o apuramento como o momento em que o futebol cabo-verdiano chegou ao palco que, na sua opinião, já merecia ocupar há vários anos. “Quando Cabo Verde se apurou, senti acima de tudo um orgulho enorme de ser cabo-verdiano e senti também que finalmente o futebol cabo-verdiano iria estar no palco onde merece estar.” Para o cantor, o percurso da equipa no Mundial reforça essa ideia de maturidade competitiva. “Confirmação, com certeza. Tanto que se está a ver a história que estamos a fazer no Mundial.”


O próximo capítulo será escrito frente à Argentina. De um lado estará a campeã mundial; do outro, uma seleção estreante que se tornou uma das histórias mais acompanhadas desta edição do torneio. Cabo Verde chega ao jogo sem o peso do favoritismo, mas com a confiança de quem já conseguiu discutir resultados com duas potências do futebol mundial.


Lisandro deixa uma mensagem de apoio aos jogadores. “Nós confiamos em vocês. Fé. Nem um por cento de chance, noventa e nove por cento de fé.” Djodje prefere começar pelo agradecimento. “Deixo primeiramente uma mensagem de agradecimento por toda a alegria que nos estão a proporcionar e também a mensagem de que todos acreditamos que é possível chegar ainda mais longe.”


Izilda olha para o encontro com a Argentina a partir de uma certeza anterior ao resultado. “Antes do jogo com a Espanha, eu já tinha dito que a minha mensagem é: já ganhámos. Pelo facto de estarmos num palco internacional a representar o nosso país, a nossa identidade, a nossa cultura, já ganhámos. Tudo o que vem daí é a cereja no topo do bolo. Agora é dar o nosso máximo e aproveitar.”


Independentemente do desfecho, o Mundial de 2026 já garantiu a Cabo Verde um lugar inédito na sua história desportiva. A seleção transformou-se num ponto de encontro para um país distribuído por várias ilhas e por vários continentes, mostrando que a dimensão de um território nem sempre corresponde à dimensão da mobilização que consegue gerar.

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