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A sul e a norte do Tejo, a menos de 10 km do centro de Lisboa, ficam os bairros que este ensaio percorre: a Cova da Moura na Damaia, os extintos 6 de Maio e as Fontainhas e o Estrela d'África nas imediações das Portas de Benfica, Santa Filomena na Amadora; na margem sul, a Arrentela e o Vale de Chícharos no Seixal. Bairros autoconstruídos, na sua maioria ilegais à luz do planeamento urbano que nunca os contemplou, habitados sobretudo por famílias de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Angola e de São Tomé e Príncipe que chegaram a Portugal depois de 1974 e encontraram o que qualquer cidade encontra quando cresce sem se perguntar onde vão viver os que a constroem: um mercado de habitação inacessível, uma política de alojamento que não os incluía, e terra disponível na periferia que ninguém mais queria.
Construíram-se mercados com produtos dos PALOP impossíveis de encontrar noutro lado, restaurantes onde se servia cachupa ao som de mornas, campos de futebol onde cresceram jogadores de primeira liga, igrejas e associações, redes de solidariedade que substituíam o que o Estado não fornecia. A investigação académica descreve-os como um "continuum social de bairros de maioria negra da Área Metropolitana de Lisboa": um território com a sua coerência própria, a sua língua - o crioulo cabo-verdiano, presente em quase todos estes bairros como língua do convívio diário -, as suas práticas e, ao longo de décadas, a sua produção cultural.
As práticas culturais que estes bairros produziram partem de uma origem comum: foram trazidas das ilhas e reinventadas no novo contexto por uma primeira geração de imigrantes que viu na cultura uma forma de pertencimento e a possibilidade de continuar a ser de algum lado, apesar do desenraizamento.

Couva da Moura | DR
O batuque - prática performativa da ilha de Santiago, em Cabo Verde, com referências documentadas desde o século XVII, que integra percussão sobre o corpo, canto e movimento coletivo - chegou à Amadora com as primeiras vagas de imigrantes e ganhou raízes nos bairros. O grupo Finka Pé existe na Cova da Moura desde os anos oitenta, transmitindo a prática de geração em geração. A Festa de Kola San Jon, que celebra o padroeiro da ilha de Santo Antão com procissão, tambores e dança, existe no bairro desde 1991. Em 2013, ambas as práticas foram inscritas no Inventário Nacional de Património Cultural Imaterial, reconhecimento de que o que chegou do arquipélago e se reinventou num bairro da Amadora tinha adquirido, na diáspora, uma forma nova digna de preservação.
A geração seguinte fez o mesmo com outras ferramentas. Em 1996, Djoek, nascido em Cabo Verde, crescido na Cova da Moura, lançou Nada Mí N'Caten pela Disconorte, considerado o primeiro álbum a solo de rap inteiramente em crioulo publicado em Portugal. Era música feita organicamente nos bairros, transmitida em cassetes e em concertos que podiam durar uma hora mas que raramente chegaram a ser gravados, porque as condições não existiam e a indústria não estava à espera. Na Arrentela, no Seixal, o movimento hip-hop tinha a sua própria cena com implantação tão sólida quanto a da margem norte - Chullage, um dos nomes centrais do rap de intervenção português, era morador da Arrentela; a associação Khapaz ancorava o associativismo jovem ligado ao hip-hop na margem sul. Na Cova da Moura, LBC Souljah cantava que os imigrantes sem documentos são soldados, os jovens que estudam são soldados, toda a gente que sobrevive nesta realidade cruel é soldada. Hezbo MC levava o microfone às manifestações contra a violência policial. Na alegria e na tristeza, “na sabura e na fronta”, aquilo que estas comunidades viviam tinha métrica e tinha língua.
Essa língua era o crioulo, por herança e por escolha deliberada. Uma língua que chegou às ilhas como instrumento de comunicação entre populações subjugadas pelo colonialismo e que essas populações foram transformando, ao longo de gerações, em língua própria de intimidade, de cultura, de resistência. Cantar em crioulo num bairro periférico de Lisboa era afirmar, de forma audível, uma pertença que a cidade oficial não reconhecia e era dizer, em público, que existia aqui uma comunidade com a sua história antes de qualquer programa de integração a vir confirmar.
A prática pode viver na memória e no corpo de quem a conhece, mas sem um lugar onde se ensine, sem recursos para se registar, sem uma instituição que a sustente ao longo do tempo, depende da continuidade das pessoas e dos contextos. Os bairros africanos da Grande Lisboa foram construindo essas estruturas, em geral sem apoio do Estado e por vezes contra a vontade expressa das autarquias.
Em novembro de 1984, a primeira reunião do Moinho da Juventude realizou-se num sótão de uma casa da Cova da Moura. O ponto de partida eram questões práticas - crianças sem acompanhamento depois da escola, jovens que o bairro ia perdendo para as ruas -, mas o que se construiu ao longo de 41 foi uma instituição cultural de pleno direito. Lieve Meersschaert, psicóloga belga que chegara ao bairro dois anos antes, e o seu marido Eduardo Pontes, perceberam que a única maneira de responder aos problemas do bairro era a partir do bairro. O que construíram nos anos seguintes foi uma infraestrutura. A palavra é pouco glamorosa e deliberadamente escolhida: o Moinho tornou-se a estrutura que sustentava e tornava visível o que o bairro já era. O próprio edifício da associação foi construído pelos moradores, principalmente por jovens de 14 e 15 anos que o Moinho ia retirando das ruas. Dentro desse edifício: uma biblioteca, um estúdio de gravação, salas de formação profissional, apoio jurídico para moradores sem documentação e acompanhamento escolar. Na mesma linha, os grupos de batuque e kola san jon, o Festival Kova M desde 2011, tudo cresceu da mesma raiz, e da convicção de que o bairro devia ser sujeito da sua própria transformação.

6 de Maio | ©Jose Ferreira
O Kova M Estúdio nasceu em 2005 de uma pergunta feita aos jovens da Cova da Moura sobre o que queriam fazer. A maioria respondeu música. O estúdio que saiu dessa resposta gravou em crioulo e em português conforme o que era preciso comunicar e para quem, formou DJs, produtores e MCs, e em 2013 lançou o videoclipe "Fronta", que chegou a um milhão de visualizações no YouTube, inédito em Portugal naquele momento. Em 2022, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu desafiaram o Kova M Estúdio a criar um rap sobre a Europa em crioulo, para o Dia Europeu das Línguas - iniciativa que reconhecia o crioulo cabo-verdiano como língua minoritária da União Europeia, presente há décadas em cidades como Lisboa mas ausente das 24 línguas oficiais do bloco. O rap foi apresentado no Festival Iminente, em Marvila. Meses depois, parte do grupo viajou a Bruxelas para visitar as instituições europeias. Nem todos puderam ir: alguns dos músicos que criaram aquela música sobre a Europa vivem sem documentos no país onde nasceram.
Das Fontainhas, onde uma casa se erguia em três dias com as mãos de muitos, restam os azulejos numa parede de fábrica. Do 6 de Maio, demolido aos pedaços até 2021, ficou terra vazia. Do Estrela d'África ficaram as marcas da canalização num muro - e no terreno de um dos três bairros construiu-se um parque canino. No Vale de Chícharos, no Seixal, as últimas famílias saíram em fevereiro de 2024. O Decreto-Lei n.º 163/93 propôs a "erradicação definitiva das barracas" nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e o Programa Especial de Realojamento que criou demoliu, nas décadas seguintes, a maioria dos assentamentos informais da Grande Lisboa. As Fontainhas desapareceram para dar lugar à CRIL. O 6 de Maio foi sendo demolido até 2021. O que desapareceu junto com as casas foi também cultura: as batucadeiras do 6 de Maio, os grupos do Estrela d'África, décadas de práticas transmitidas em contextos que deixaram de existir. A avaliação académica do programa é consistente ao identificar que, em vez de resolver a exclusão, o PER a reproduziu noutras formas, concentrando populações em blocos periféricos e cortando as redes comunitárias que eram a infraestrutura real destes territórios.
A Cova da Moura permanece, ameaçada em 2005 e de novo em agosto de 2025, quando uma candidata à câmara da Amadora prometeu "erradicar aquilo tudo" usando a palavra do decreto de 1993. A comunidade respondeu que o bairro não se apaga, não se vende, não se derruba. A candidata perdeu as eleições de outubro de 2025. A Arrentela tem hoje uma urbanização diferente. O Vale de Chícharos tem um parque. E nas paredes da Cova da Moura, o rosto de Amílcar Cabral continua a olhar para a rua.
O que estes bairros produziram é o resultado de pessoas que chegaram a uma cidade que não as esperava e decidiram existir de forma completa, sem esperar que a cidade as autorizasse. A precariedade da habitação era real e documentada. A plenitude da produção cultural era igualmente real, igualmente documentada, e continua a ser sistematicamente separada da primeira nos discursos que falam destes bairros como problemas a resolver.
Os bairros focados neste ensaio são apenas alguns exemplos de um fenómeno muito mais vasto. A Pedreira dos Húngaros, o maior bairro de barracas da Grande Lisboa, foi outro espaço vital de comunidade afrodescendente até à sua demolição no final dos anos 1990. Mas existiram dezenas de outros núcleos, muitos deles posteriormente demolidos no âmbito do Programa Especial de Realojamento.
De Djoek a gravar em crioulo numa editora da Amadora em 1996 ao Kova M Estúdio no Parlamento Europeu em 2022, o que se passou nestes bairros foi a construção de uma identidade que não cabia nas categorias disponíveis: nem africana no sentido em que os países de origem o definiam, nem portuguesa no sentido em que o Estado português o reconhecia, mas crioula, afro-europeia, nascida na periferia de Lisboa e suficientemente sólida para chegar a Bruxelas. O mural de Amílcar Cabral na Cova da Moura é a afirmação de que a independência que ajudou a construir nas ilhas teve continuação, noutras formas, nestes bairros da Grande Lisboa.
Referências
— "Kova M - Realidade Nua e Crua." Esquerda.net, dezembro de 2011.
— "Onde nascem o rap e hip-hop." Portal Vozes, setembro de 2024. |
— "O rap crioulo chegou ao mainstream." Rimas e Batidas, julho de 2022.
— "Indígenas, imigrantes, pobres: o afropolitanismo no rap crioulo." Alice News, agosto de 2015. - "No bairro: associativismo jovem na periferia de Lisboa." BUALA, agosto de 2011.
— "Cova da Moura: Vibrant portraits from the hip-hop capital of Lisbon." Dazed, janeiro de 2026. - "Noz Storia: uma comunidade na ausência de estado." Fumaça, dezembro de 2024.
— Manifestações Culturais
— Moinho da Juventude. moinhodajuventude.com.
— Decreto-Lei n.º 163/93, de 7 de maio. Diário da República, n.º 106/1993, Série I-A.
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