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Durante décadas, a noite africana em Lisboa teve uma geografia própria: a Rua de São Bento, o Largo do Rato, Santos, Alcântara, a margem sul. Quem conhecia, conhecia. Quem não conhecia passava ao lado. Os espaços não precisavam de publicidade porque funcionavam por dentro, por comunidade, por boca a boca, por saber quem era Bana e o que se tocava no En'Clave às três da manhã.
O que se foi acumulando ao longo dessas décadas não foi uma cena à margem da cidade. Foi uma sequência de instituições - clubes, discotecas, editoras, palcos -, cada uma delas construída por alguém que sabia o que a anterior tinha feito e decidia o que vinha a seguir.
Em finais de 1976, Bana - nome próprio de Adriano Gonçalves, que viria a ser chamado rei da morna - abriu na Rua do Sol ao Rato, com um sócio português, um restaurante baptizado Novo Mundo. Comiam-se pratos cabo-verdianos e ouvia-se música cabo-verdiana. A partir de 1979/80, Bana assumiu sozinho a gerência e rebaptizou o espaço Monte Cara - o nome de um monte da ilha de São Vicente, visível da cidade de Mindelo. O espaço mudaria ainda de nome quatro vezes: Bana's, África's, Pilon 2, En'Clave, mas a cave da Rua do Sol ao Rato foi sempre a mesma, e a filosofia também: música ao vivo, os discos só no intervalo.
A banda residente era a própria Voz de Cabo Verde, o grupo com que Bana tinha gravado em Paris e Rotterdam antes de se fixar em Lisboa. Ao longo de uma década passou por ela uma geração inteira de músicos cabo-verdianos - Paulino Vieira, Armando Tito, Leonel Almeida, e mais tarde Zé António, Toy Vieira e Tito Paris. A editora homónima, Discos Monte Cara, lançou discos de Bulimundo, Luís Morais, Jacqueline Fortes e Celina Pereira, entre outros. “A ideia do Bana era fazer do Monte Cara um laboratório para descobrir grandes músicos que vinham de Cabo Verde. Eu fui um dos que vim”, disse Leonel Almeida. Nos primeiros anos, a clientela era quase exclusivamente cabo-verdiana e africana. Segundo Ademiro Nascimento, filho de Bana e mais tarde gerente do espaço, o Monte Cara era passagem obrigatória para quem vinha das ilhas: havia compatriotas que chegavam de Itália ou Holanda com a mala para passar a noite a ouvir música e seguir viagem de manhã.
O ponto de viragem deu-se nos anos 80, quando Ramalho Eanes foi a uma festa organizada por Joaquim Letria, porta-voz do então Presidente da República. “Onde ia o presidente, iam os jornalistas”, recordou Ademiro Nascimento. Depois dessa noite, os portugueses começaram a frequentar a cave da Rua do Sol ao Rato. Entre eles, Rui Veloso, que passaria a ser presença assídua.

Bana, Leonel Almeida , Paulino Vieira e Jorge Sousa no Monte Cara | DR
No mesmo ano em que o Monte Cara abriu, instalou-se na Rua de São Bento o Lontra. Gestão angolana, pista de dança e música africana da abertura ao fecho. Ficava na rua onde morou Amália Rodrigues, quase em frente à Assembleia da República. Funcionou durante décadas como um dos eixos deste circuito que existia antes de Lisboa ter decidido que era uma boa ideia. Em 2018 transformou-se no Posh; uns anos antes, conta a revista Time Out, Prince tinha alugado o espaço para uma festa privada na sua primeira visita a Lisboa, em 1993.
Em 1985, três anos antes de O Baile abrir no palacete de Santos, Zé da Guiné, Hernâni Miguel e Mário Pilar fizeram outro tipo de aposta: arrendaram o mesmo palacete ao Casa Pia Atlético Clube e abriram as Noites Longas. O espaço abria à 1 ou 2 da manhã, quando os bares do Bairro Alto fechavam, e prolongava-se até depois do sol nascer. “Foi um marco numa geração e em Lisboa, uma viragem na noite da cidade”, disse Hernâni Miguel anos mais tarde. “Até ali nada estava aberto até às 6 ou 7 da manhã.” A programação era eclética e misturava Talking Heads, De La Soul, Prince e sonoridades africanas, tudo dentro do mesmo pátio e do mesmo salão. O espaço enchia-se de artistas, intelectuais, africanos, marialvas e figuras populares. “Contribuímos imenso para uma Lisboa menos racista e mais tolerante”, diria Hernâni. Duraram até ao final da década de 80.
Depois disso, o palacete não ficou vazio. Em 1988, ainda enquanto as Noites Longas decorriam, um grupo de amigos inaugurou ali O Baile - clube de música africana criado por Dany Silva e por José Manuel de Faria Saudade e Silva, advogado, amigo de Tito Paris, bon vivant com ligações à cultura cabo-verdiana. Músicos como Manecas Costa, Costa Neto e Paulino Vieira enchiam o salão nobre do palácio: arcadas, colunas, ventoinhas espalhadas pelo teto, paredes cor de morango. No andar de cima funcionava o restaurante O Patrôlho, explorado por figuras da música como Ana Firmino e Maria Alice. José Manuel morreu em novembro de 1994. As filhas, Madalena e Sofia Saudade e Silva, tinham crescido naquele palácio e não quiseram deixá-lo morrer. “Percebíamos pouco daquilo”, disse Madalena anos depois. “E fomos procurar ajuda junto do Alcides Nascimento, filho do Bana, para a direção musical.”
A 21 de dezembro de 1995 abriu o B.Leza, nome que homenageia o compositor cabo-verdiano Francisco Xavier da Cruz, amigo próximo de Cesária Évora, autor de mornas como Miss Perfumado. Com Alcides Nascimento na direção musical, o B.Leza tornou-se o espaço onde a maior parte dos músicos de Cabo Verde de passagem por Lisboa acabava por atuar: Tito Paris, Nancy Vieira, Celina Pereira, Maria Alice, Dany Silva. Tito Paris gravou ali um duplo álbum ao vivo em 1998, que fixou para sempre o som e o ambiente da casa. Em 2003, Alcides Nascimento produziu uma compilação que reunia portugueses, angolanos, guineenses, brasileiros e cabo-verdianos - retrato sonoro exato do que o espaço era. A Câmara Municipal de Lisboa reconheceu-o como espaço “de interesse cultural relevante.” O palácio foi vendido e o clube fechou em 2007. Depois de cinco anos de itinerância e abaixo-assinados, reabriu em 2012 junto ao Tejo, no Armazém B do Cais da Ribeira Nova.
Enquanto o B.Leza construía a sua reputação em Santos, Alcântara tornava-se o outro polo. Nos anos 90 e 2000, os armazéns frente ao rio eram, por excelência, o território desta cena. O Mussulo ganhou o cognome de “melhor discoteca de Lisboa nas noites de domingo” e era muitas vezes frequentado por jogadores de futebol, figuras da televisão” e quem vinha das docas para acabar a noite. O Kyanda, gerido por Mário Cohen, foi a discoteca africana da moda no início dos anos 2000, um lugar onde o público se misturava ao som de batidas que juntavam Angola, Cabo Verde e Brasil. A Discoteca Luanda, na Travessa de Teixeira Júnior, era outra referência da cena angolana em Lisboa. Ao longo do tempo, o espaço foi abraçando novas sonoridades e, em determinados momentos, passou também a ter atuações de cantores. Sem atividade atualmente, o espaço prepara-se para ser convertido num hotel 4 estrelas. O Docks Club, propriedade de Sing Correia, nos armazéns da Rua da Cintura do Porto de Lisboa, impôs-se como o mais resistente de todos: além da presença construída, o espaço soube reinventar-se e isso acabou por tornar-se a razão pela qual se manteve em funcionamento quando quase tudo à volta tinha fechado.
Do outro lado do Tejo, em Santa Marta de Corroios, no Seixal, o Ondeando construiu ao longo dos anos 2000 uma reputação que ultrapassou em muito a sua localização: considerado por muitos frequentadores habituais a melhor discoteca africana de Portugal, o Ondeando estabeleceu-se como destino para quem levava a sério a kizomba, o funaná, o kuduro e o zouk, uma fórmula que explicava tanto o que tocava como quem percorria quilómetros para lá chegar.
A periferia de Lisboa, entretanto, construía a sua própria cena com os seus próprios termos. Nos bairros sociais da Ameixoeira, Quinta do Mocho, Cacém e Queluz, uma geração de DJs e produtores - filhos e netos da diáspora angolana e são-tomense - desenvolvia uma linguagem que misturava kuduro, kizomba e eletrónica europeia. Através da Príncipe Discos e das noites mensais no Musicbox, e da Enchufada com as Hard Ass Sessions no Lux Frágil, esse som fez o percurso do quarto de bairro social para os palcos internacionais. Lisboa passou a ser descrita pela imprensa especializada como epicentro europeu de uma eletrónica afro com impressão digital própria.
Ao longo dos anos 2000 e 2010, uma geração de promotores foi construindo audiências que os espaços existentes tornaram possíveis. Um dos primeiros percursos a traçar essa linha foi o da 3XU - cofundada em 2003 por Tri Chu (Hélio dos Santos), DJ Calas e Sing, depois de Tri Chu ter passado pelas relações públicas da Discoteca Luanda. As tournées "3XU on Road" tornaram-se referência pela produção de eventos e Hélio acabaria por levar esse trabalho para Angola. Celso da Silva fez esse percurso pelos seus próprios meios: começou a promover eventos em espaços como o Docks, o Ondeando e a Kapital, que depois viria a chamar-se MoMe, e o Tribute of Afrohouse - que esgotou o Coliseu de Lisboa antes de passar para a Altice Arena - foi o culminar disso. A BadCompany, dupla formada por Anyfá e Sanger, percorreu o mesmo caminho de outra forma: festas regulares na Linha de Sintra, em Lisboa e na Margem Sul ao longo de anos, antes de chegar à BadCompany Fest, que ocupou a Sala Tejo do Altice Arena. Rek Montana e Nunex, sob chancela da Black Angels Entertainment, trabalharam uma linha diferente, mais voltada para concertos com noites que passaram por espaços como o Lisboa ao Vivo e o B.Leza. Recentemente, assinaram o primeiro concerto de Hélio Batalha em Lisboa, semanas depois do concerto de celebração dos 50 anos de carreira do Zeca di Nha Reinalda. MC Suxexo e DJ Barata, que começaram o percurso a tocar e animar as noites, juntaram-se e sob a marca Oldschool Music, trataram exatamente disso: guardar e reativar o repertório clássico para quem cresceu com ele.
A cave da Rua do Sol ao Rato, o palacete de Santos, os armazéns de Alcântara, o Ondeando no Seixal, o Docks, o Lisboa ao Vivo mostram que cada geração encontrou o seu sítio e fez ali o que tinha a fazer. "A ideia era fazer daquilo um laboratório para descobrir grandes músicos que vinham de Cabo Verde", disse Leonel Almeida sobre o Monte Cara. Uns quantos anos depois, a lógica é a mesma, mas agora pensada para a cultura como um todo.
Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.y, que escrevemos aqui ser uma viajem musical eclética, entre o passado e o presente, que comporta elementos das suas origens, como o Batuco [batuque] de Cabo Verde, misturando a Kizomba de Angola e os internacionalizados Pop, Zouk, e Worldbeat. Nesta mistura sonora homogeneamente perfeita, o elo de ligação é o afrobeat das terras de Wizkid e Burna Boy.
Fontes e referências
Blitz. “A história do Monte Cara, o clube cabo-verdiano de Lisboa onde os políticos e os artistas dançavam até de manhã.” 3 julho 2021.
Glam Magazine. “Monte Cara regressa aos palcos no B.Leza Clube.”
A Mensagem. “B.Leza: 10 momentos para entender 30 anos de história.” 20 dezembro 2025.
Público. “B.Leza: uma história de amor, resistência e democracia com 30 anos.” 20 dezembro 2025.
Re-Mapping Memories Lisboa / Vitor Belanciano. “Discoteca B.Leza.”
Buala. “O homem que fazia acontecer” (Zé da Guiné); “A África que anda a fazer suar Lisboa.”
Balai.cv / Lusa. “Projecto quer reimaginar o primeiro espaço da cultura cabo-verdiana em Lisboa.” 25 maio 2021.
PPL Crowdfunding. “Re: Imagine Banda Monte Cara.” 2021.
NiT. “The Docks Club.” 2020, 2023.
Lisbon Lux. “Discotecas em Lisboa — Guia 2023.”
All About Portugal. “Bad Company Fest 2019.”
Rimas e Batidas. “20 anos de Enchufada.” 2026.
Rede Angola. “A música africana reinventa-se nos guetos de Lisboa.” 1 abril 2015.
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