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Em 1959, dois homens chegaram a Lisboa com guitarras e um contrato assinado em Luanda. Raul Indipwo tinha 26 anos e trazia consigo Angola inteira como matéria, concreta e plural: os ritmos dos Cuanhama do sul, os cantos dos Côkwe do leste, os idiomas dos Bakongo do norte, tudo recolhido durante uma infância em movimento pelo interior do país onde o pai era enfermeiro militar. Milo MacMahon, filho de um farmacêutico, percorreu os mesmos caminhos por razões semelhantes. Reencontraram-se numa estação de caminhos de ferro algures entre Malange e Carmona (atualmente Uíge), numa festa, pegaram nas guitarras casualmente e o público ficou espantado. Um empresário português chamado Ribeiro Belga assistiu a uma atuação em Luanda e assinou o contrato. Lisboa esperava.
A cidade recebeu-os no Cinema Roma e no Casino Estoril. Foram apresentados como Ouro Negro, nome batizado por Maria Lucília Dias, locutora do Rádio Clube do Congo Português, palavra que naquela zona de Benguela designava tudo o que fosse excecional: o café, o petróleo, um bom jogador de futebol. Lisboa aplaudiu o que ouviu. Ficaria por perceber, durante décadas, a dimensão do que tinha recebido.
O que Raul e Milo traziam de Angola era herdeiro de uma tradição de resistência cultural que começara na década anterior nos musseques de Luanda. Liceu Vieira Dias, funcionário público no Banco de Angola, tinha fundado os N’Gola Ritmos com colegas da mesma geração, cantando em kimbundu e recuperando danças, ritmos e instrumentos que a urbanização colonial tentava silenciar. O modus operandi era partir do musseque para criar e afirmar a especificidade cultural angolana precisamente onde o Estado Novo queria ver assimilação.
Raul Indipwo aprendera a primeira música na escola. Era o “Tiro-liro” em kimbundu. Esse detalhe de infância explica em parte o paradoxo que o Duo Ouro Negro viria a encarnar em Lisboa: inteiramente à vontade no cancionário tradicional português e no cancionário angolano ao mesmo tempo, sem trair nenhum dos dois, sem se dissolver em nenhum. Cantaram “Muxima”, canção tradicional que os N’Gola Ritmos tinham recuperado com intenções explicitamente nacionalistas. Cantaram fados. Cantaram em kimbundu, em cuanhama, em côkwe, em português, em francês... O repertório vastíssimo - dos Beatles a Charles Aznavour, de Chico Buarque ao folclore angolano registado pela empresa Diamang nos anos 1950 - era um projeto coerente: a demonstração de que a música angolana existia e comunicava no mundo, com a autoridade de quem o habita inteiramente.

DR
Os N’Gola Ritmos e o Duo Ouro Negro partilhavam a mesma herança mas ocupavam posições diferentes na cidade colonial. Os N’Gola Ritmos eram vigiados pela PIDE, em 1968, Elias Dia Kimuezo seria preso para responder por que cantava em kimbundu em vez de português. O Duo atuava na televisão portuguesa, concorria ao Festival RTP da Canção, chegou em segundo lugar em 1967 e em 1969. O regime tolerava-os. Os movimentos independentistas, porém, olhavam para eles com desconfiança: tocavam a música dos N’Gola Ritmos sem lhes dar o devido crédito, diziam alguns. A acusação é discutível - o duo sempre reconheceu as suas fontes - mas revela a posição desconfortável que ocupavam: demasiado angolanos para serem absorvidos sem reservas pela metrópole, demasiado visíveis na metrópole para serem aceites sem suspeita pelos círculos da resistência. Foi nesse espaço de tensão, sem pedir conforto a nenhum dos lados, que construíram uma carreira internacional que, segundo a imprensa da época, só era comparável à de Amália Rodrigues.
Lisboa, enquanto isso, tornava-se uma infraestrutura. Em 1963, os Estúdios Valentim de Carvalho em Paço de Arcos abriram após um longo processo de testes acústicos liderado por engenheiros dos Abbey Road Studios de Londres. A sala tornou-se o lugar físico onde a música africana na metrópole se materializava em disco. Por ali, também passaram Amália e os Rolling Stones.
Em 1966, Barceló de Carvalho chegou a Lisboa transferido pelo governo colonial para competir no atletismo pelo Sporting. Usava o nome Bonga Kwenda para a música, identidade separada da identidade desportiva que o regime conhecia. Frequentava os cafés da cidade, as casas de amigos, o restaurante O Pique-Nique - lugares onde a diáspora angolana em Lisboa se encontrava, trocava os discos que os embarcadiços da marinha mercante traziam de Cuba e da América Latina, preservava tradições e combinava ativismo. Estabeleceu laços com Adriano Correia de Oliveira e José Afonso. Nas festas do consulado de Cuba em Lisboa e na casa de Arménio Ferreira - médico do Sporting, membro do Partido Comunista, homem de confiança de Agostinho Neto - a rede cultural e política angolana na metrópole respirava. O Duo Ouro Negro e Bonga circulavam na mesma cidade, frequentavam alguns dos mesmos espaços, conheciam-se. Eram nós de uma rede que a historiografia musical ainda aguarda ver mapeada por inteiro.
Em 1968, Manuel Rosário das Neves, também conhecido por Vum Vum, chegou a Lisboa vindo do Dondo e assinou contrato com a Valentim de Carvalho. No ano seguinte publicou Muzangola, o EP que levaria décadas a receber o reconhecimento que merecia. O título era um programa: muzangola significava música de Angola, e o disco foi concebido para superar as noções de exotismo que o Estado Novo tentava cristalizar nos artistas africanos. Tinha funk de James Brown, tinha o semba dos musseques, tinha “Monami” de Euclides Fontes Pereira, a mesma canção que os N’Gola Ritmos tinham gravado. Vum Vum escreveu originais para o Duo Ouro Negro e “N’Vula”, composta em parceria com Milo MacMahon, entraria em Blackground.
Em Paço de Arcos, no estúdio da Valentim de Carvalho, a dupla gravou Blackground com uma constelação de músicos que representava o que Lisboa tinha construído, silenciosamente, ao longo de uma década. Bonga nas percussões, Vum Vum com “N’Vula”, Luís N’Gambi na guitarra, Zé Nabo no baixo, um baterista belga e um teclista norte-americano. Gravações do folclore angolano recolhidas pela Diamang nos anos 1950, resgatadas por Raul e Milo de arquivos que ninguém consultava. A capa foi pintada pelo angolano Elutério Sanches, cantor, compositor, artista plástico, homem de Angola no coração da metrópole.
O disco tinha sido apresentado antes como espetáculo cénico-musical no I Festival de Vilar de Mouros, em agosto desse ano, ao lado dos Doors e de Elton John. Raul Indipwo explicou Blackground com a economia de quem sabe exatamente o que fez: “Quando atravessa o mar, transforma-se, é jazz.” A frase define o projeto melhor do que qualquer análise: a música angolana atravessava o Atlântico para se transformar, absorvendo o que encontrava, e ganhava densidade, regressando a si mesma com novos meios. Os temas foram cantados em português, inglês, côkwe, kimbundo, umbundo e cuanhama, com músicos de quatro continentes.
No estúdio, o grupo musical português de maior sucesso internacional gravava um colossal grito de insubmissão contra a ordem colonial e contra qualquer condição que exigisse de alguém que se tornasse menos do que era para ser aceite. Blackground foi editado em março de 1972 pela Valentim de Carvalho. Teve distribuição insuficiente e ficou mais citado do que ouvido durante décadas.
A dispersão da rede começou nesse mesmo ano. Quando a PIDE descobriu que Barceló de Carvalho e Bonga Kwenda eram a mesma pessoa, Bonga foi forçado ao exílio em Roterdaão, onde gravou Angola 72, primeiro álbum, primeiro disco de afirmação direta contra a guerra colonial, mandado de detenção emitido em Angola pelas suas letras sediciosas. Passou os anos seguintes a viver entre a Alemanha, a Bélgica e a França. Após o 25 de Abril e a independência de Angola, estabeleceu-se em Lisboa.
O Duo Ouro Negro, depois do 25 de Abril, apostou em abordagens musicais mais vanguardistas e orientou a carreira para os Estados Unidos, a Austrália e Paris. Entretanto, em 1985, Milo MacMahon morreu e Raul Indipwo continuou a solo, com o nome Raul Ouro Negro, até à sua morte em 2006. Em 2000 criara a Fundação Duo Ouro Negro, instituição de solidariedade social que apoiava crianças africanas e promovia artistas do continente.
Vum Vum foi para a Alemanha, onde se estabeleceu. Muzangola circulou durante décadas entre colecionadores de todo o mundo como um dos objetos mais raros e mais cobiçados da música angolana. Os originais chegaram a valer 80 euros no Discogs. A reedição em vinil de 2021 pela Groovie Records esgotou.
Em abril de 2019, sessenta anos depois da chegada a Lisboa, realizou-se uma homenagem no Museu Nacional de Etnologia. Vieram músicos que tinham gravitado em torno da rede: Bonga, Alcina Santos, Carlos Sanches, Eduardo Nascimento, Fernando Girão, Garda, Lavoisier, Luís N’Gambi, Odete Cruz e Vum Vum. A sessão partiu da reedição de Blackground, feita um ano antes pela Armoniz em colaboração com a Valentim de Carvalho: 500 exemplares numerados, edição de colecionador, fiel ao original em som e arte gráfica.
O produtor Ricardo Santos, organizador da homenagem, disse à agência Lusa que o Duo Ouro Negro “nunca foi reconhecido” e que a homenagem era uma tentativa de reparar o que nem Portugal nem Angola tinham feito. A obra da dupla aguarda ainda uma avaliação que mapeie a sua importância no contexto mais amplo da música em língua portuguesa, em parte porque os arquivos de um lado e do outro hesitaram em reclamá-la, o que diz tudo sobre como Lisboa processou o que passou pelos seus estúdios e palcos entre 1959 e 1974.
A cidade funcionou como infraestrutura, forneceu os estúdios, as editoras, os palcos, as rotas para a Europa mas preferiu, durante décadas, ignorar o que essa infraestrutura tornara possível. O que o Duo Ouro Negro, Vum Vum, Bonga e a constelação de Blackground construíram juntos em Lisboa - uma rede de artistas africanos que transformaram a música de língua portuguesa antes de qualquer outra instância cultural o ter feito - ficou por mais de meio século sem nome, sem arquivo, sem reconhecimento proporcional ao que foi.
A reedição de Blackground em 2018, a homenagem de 2019, a reedição de Muzangola em 2021 são sinais de que esse arquivo começa agora a ser construído. O disco continua a soar como soava: como algo que atravessou o mar, se transformou em jazz, e regressou a Angola antes de Angola ser independente. Como se Raul Indipwo soubesse, em 1971, numa sala em Paço de Arcos, o que a cidade à volta da sala só aprenderia a reconhecer 50 anos depois.
Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.
Referências
ENCICLOPÉDIA DA MÚSÉCA EM PORTUGAL NO SÉCULO XX. Coord. Salwa Castelo-Branco. Lisboa: Círculo de Leitores / Temas e Debates, 2010.
INFOPÉDIA. “Duo Ouro Negro”. Porto Editora. Disponível em: www.infopedia.pt/artigos/$duo-ouro-negro.
LOPES, Mário. “Duo Ouro Negro: como Raul e Milo cantaram o mundo inteiro a partir de Angola”. Observador, 20 de abril de 2019.
LOPES, Mário. “1971: o ano em que se ouviu o grito do Duo Ouro Negro e se proclamou a independência da canção africana”. Observador, 24 de julho de 2021.
LOPES, Mário. “A obra-prima Blackground agora e por fim”. Público, 23 de março de 2018.
LOPES, Mário. “Vamos reencontrar o histórico Blackground do Duo Ouro Negro”. Público, 28 de abril de 2017.
MOORMAN, Marissa J. Intonations: A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola, from 1945 to Recent Times. Athens: Ohio University Press, 2008.
N’GANGA, Pepetela; BONGA. Bonga: 30 Anos de Vida Artística. Lisboa: Caminho, 1997.
RIMAS E BATIDAS. “Blackground do Duo Ouro Negro reeditado pela Armoniz”. 22 de março de 2018. Disponível em: www.rimasebatidas.pt.
RIMAS E BATIDAS. “Vum Vum: ‘Sou igual a toda a gente, mas totalmente diferente’”. 24 de março de 2022. Disponível em: www.rimasebatidas.pt.
RTP MEMÓRIA / GRAMOFONE. “Duo Ouro Negro por João Carlos Callixto”. Disponível em: www.rtp.pt/rtpmemoria.
RTP MEMÓRIA / GRAMOFONE. “Vum Vum por João Carlos Callixto”. Disponível em: www.rtp.pt/rtpmemoria.
VIRIATO DA CRUZ. Poemas. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império, 1961. (Reedição: UCCLA, 2014.)
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