Lisboa Africana #6: Andresa, o nome antes de todos os outros. Preta Fernanda, a figura que Lisboa viria a conhecer

20 de Abril de 2026
Lisboa africana 6 preta Fernanda Andresa nascimento
Retrato de Andresa do Nascimento, colorida com recurso a Inteligência Artificial

Partilhar

A ilha de Santiago, em Cabo Verde, tem uma história densa e violenta. Foi durante séculos um entreposto do tráfico atlântico de pessoas escravizadas, um ponto de passagem obrigatório entre a costa ocidental de África e o Novo Mundo. A escravatura foi abolida ali de forma parcial em 1857 e só completamente em 1878, pouco mais de uma década antes de Andresa do Nascimento decidir partir. É um detalhe que importa porque ajuda a enquadrar a protagonista deste novo episódio no seu tempo e no seu devido contexto político e social. Há dúvidas quanto à data oficial do seu nascimento, sobre os pais sabe-se que, dado o contexto, poderiam ter nascido ou vivido sob escravatura. Andresa cresceu numa aldeia pequena perto de Ribeira da Barca, filha de gente pobre e tinha cerca de 18 ou 19 anos quando subiu para bordo do lugre-patacho Margarida 2.ª [uma embarcação portuguesa de madeira, ativa no início do século XX], na companhia do capitão Jerónimo Antunes Martins, que lhe havia prometido casamento. Não se despediu dos pais. A decisão de partir - e a forma como partiu - é o primeiro traço que a distingue: não foi levada, não foi vendida, não foi recrutada. Decidiu e foi.


O capitão abandonou-a em Dakar. Andresa encontrou Frederick Wilhelm von Kremps, um negociante de cervejas alemão, casou com ele e chegou a Lisboa já como mulher casada, com o marido vivo e dois filhos em comum. O que aconteceu a Kremps depois não é claro, as fontes divergem entre a morte e o desaparecimento. O que é certo é que Andresa ficou em Lisboa, sozinha, com os filhos, e sem rendimento garantido.


Foi então que pousou para o escultor Giovanni Ciniselli. O italiano tinha ganho o concurso internacional para o monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, financiado por subscrição pública. Entre os contribuintes contavam-se alforriados, afrodescendentes e membros da família real portuguesa e o projeto previa, na base do pedestal, uma alegoria de África: uma mulher com correntes quebradas no tornozelo, uma criança ao colo, a mão a apontar para o estadista que tinha posto fim ao tráfico negreiro nas colónias portuguesas. Andresa pousou oficialmente para essa figura, com portaria assinada no paço real e um subsídio de 560 réis por dia, durante não mais de sete sessões. O escultor acabou por prescindir dela: acusou-a de possuir joanetes demasiado salientes, de “não passar d'um modelo sem pés.” Ciniselli morreu em Maio de 1883 sem acabar a obra. O monumento foi inaugurado a 31 de Julho de 1884, com o Rei D. Luís I e a Rainha D. Maria Pia presentes na Praça D. Luís I, junto ao Mercado da Ribeira. A mulher de bronze que aponta para o Marquês ficou para a história associada ao nome de Andresa do Nascimento, seja porque ela deixou uma impressão na memória de quem a conheceu, seja porque a história de que posou para aquela figura era demasiado boa para não circular.

PUBLICIDADE

Universal/ Yasmine Ritmos
Lisboa africana 6 preta Fernanda Andresa nascimento

Fernanda do Vale retratada na estátua de Marquês de Sá da Bandeira | DR

Em 1889, Andresa encontrou trabalho estável como dama de companhia de D. Ernestina Cavalcanti, uma socialite de origem piemontesa cuja casa, na Rua do Poço dos Negros, era palco regular de festas que reuniam escritores, jornalistas, diplomatas e figuras da aristocracia lisboeta. Durante dezoito anos, Andresa viveu nesse interior privilegiado, servindo, observando, aprendendo os ritmos de uma Lisboa que não estava habituada a deixar entrar quem chegava de fora. Quando saiu do serviço de D. Ernestina, em finais da primeira década do século XX, saiu com poupanças, com contatos e com um conhecimento preciso de como funcionava a cidade.


Abriu casa própria no Bairro Alto, na antiga Rua do Mundo - hoje Rua da Misericórdia - e as festas que organizava tornaram-se rapidamente uma extensão da vida boémia que se vivia entre o Chiado e as ruas adjacentes. O poeta e político Guerra Junqueiro dizia que “para ver o Mundo, só há dois píncaros: o Himalaia e o Chiado.” Era por ali que Andresa circulava agora, não como serviçal mas como anfitriã. O cartão de visita que distribuía identificava-a com precisão e com algum humor: “Fernanda do Vale, artista de baile”.


Apesar disso, o nome pelo qual toda a gente a conhecia era outro. "Preta Fernanda" era o nome que a cidade lhe tinha dado, e ela não o recusou, pelo contrário, usou-o como se fosse seu, porque de certa forma o era. Privou com a chamada Geração dos Vencidos da Vida, o círculo de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós. Acompanhou este último ao seu camarote no Teatro da Trindade. Frequentou as estreias das principais salas da cidade. Uma portaria régia de 1880 tinha-a registado como “indígena”; anos depois, a sua figura era representada no palco do Teatro do Príncipe Real. Lisboa conhecia-a, falava dela, e ela deixava que falassem.


Em 1912, José Segurado, empresário da Praça de Touros de Algés e amigo íntimo de Fernanda, concordou com um espetáculo sem precedente: uma mulher a tourear a cavalo. A Praça de Algés fora inaugurada em 1895, construída pelo Real Clube Tauromáquico com capacidade para sete mil e quinhentos espetadores, a que se chegava de comboio ou de elétrico a partir do Cais do Sodré. Naquele domingo de 1912, os transportes não chegaram para o público que quis vir. Fernanda tinha cinquenta e três anos. Entrou na arena a cavalo. Teve cólicas nervosas durante a corrida. O touro derrubou o cavalo. Acabou a tarde na enfermaria, com algumas nódoas negras. As crónicas registam que terá tentado repetir a proeza no Campo Pequeno, também sem êxito técnico. O que ficou na memória da cidade não foi o resultado, mas o espetáculo de a ver tentar.

Lisboa africana 6 preta Fernanda Andresa nascimento

Retrato de Andresa do Nascimento, colorida com recurso a Inteligência Artificial 

No mesmo ano de 1912 foi publicado o livro que levava o seu nome no título: Recordações d'uma Colonial - Memórias da Preta Fernanda, com a coautoria de A. Totta e F. Machado, dois escritores que a conheciam e que redigiram com ela, ou à volta dela, uma autobiografia ficcional com elementos de romance de formação satírico. O livro narrava o percurso desde Santiago até Lisboa, passando por Dakar, e incluía, no capítulo final, comentários francos sobre os homens com quem partilhara a cama, sem nomeá-los, mas com detalhe suficiente para que quem os conhecesse os reconhecesse. A obra foi reeditada em 1994 e novamente em 2022, e continua a suscitar debate académico sobre a fiabilidade do relato, sobre a mediação masculina na escrita, sobre o que o texto preserva e o que distorce.


Cinco anos depois da publicação, em Abril de 1917, Almada Negreiros leu no Teatro da República o Manifesto Futurista da Luxúria, de Valentine de Saint-Point. O choque foi suficiente para esvaziar a sala das mulheres presentes - redefinia a luxúria como uma força vital, criativa e energética e dizia que a mesma deve ser vivida conscientemente como arte, rejeitando o sentimentalismo. Fernanda ficou. Tinha cinquenta e oito anos e não havia razão para sair: era, ela própria, a personificação daquilo que Saint-Point defendia.


Morreu em Lisboa a 27 de Agosto de 1927. Tinha entre 67 e 68, consoante a data de nascimento que se adote. A cidade onde chegara como mulher de um alemão, onde posara sete dias para um escultor italiano, onde servira 18 anos numa casa piemontesa, onde abrira a sua própria casa e enchera os transportes de Algés, foi o único lugar onde viveu como ela própria quis.


A Associação Batoto Yetu Portugal, fundada em 1996 e sediada em Oeiras, instalou uma das suas vinte placas toponímicas com o nome de Fernanda do Vale no Campo de Santana. A estátua de bronze na Praça D. Luís I continua ali, junto ao Mercado da Ribeira, com a mulher de correntes quebradas a apontar para o Marquês que aboliu a escravatura. Andresa do Nascimento pode até não estar nessa figura, mas também não está completamente ausente dela.


Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.

Referências bibliográficas

Totta, A. e Machado, F. (1912). Recordações d'uma Colonial (Memórias da Preta Fernanda). Lisboa: Oficina de Ilustração Portuguesa. [Reedições: Teorema, 1994; Sistema Solar, 2022]

Simões, Diana Gomes (2018). «Recordações d'uma Colonial: autobiografia credível ou sátira racista?». Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade, vol. 4, n.º especial (jan./jun.): 97–110.

Duque Baracho, Danielle (2024). Recensão crítica de Recordações d'uma Colonial. Compendium: Journal of Comparative Studies, n.º 5. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Hatton, Barry (2018). Queen of the Sea: A History of Lisbon. Oxford: Oxford University Press. pp. 108–109.

ReMapping Memories Lisboa. «Lugar de Memória: Monumento ao Marquês de Sá da Bandeira / Praça D. Luís I». Disponível em: www.re-mapping.eu [Consultado em Abril de 2026].

Associação Batoto Yetu Portugal. Projeto das vinte placas toponímicas. Oeiras, 2018–2020. Disponível em: www.batotoyetu.pt.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile