Lisboa Africana #7: Virgínia Quaresma, uma vida feita de camadas, silêncios, cedências e jornalismo

27 de Abril de 2026
Lisboa Africana 7 Virginia quaresma
Imagem baseada num recorte do jornal A Capital, publicado em fevereiro de 1971, cedido no início do século pela jornalista Maria Augusta Seixas e posteriormente melhorado com recurso a IA.

Partilhar

Na esquina da Rua do Norte com a Praça de Camões, num primeiro andar de onde se avistava a entrada do jornal A Capital, Virgínia Quaresma tinha alugado um apartamento. Era 1910 e ela tinha trinta anos. Um gesto logístico, calculado, de alguém que percebia que a proximidade à redação era uma vantagem profissional que não podia desperdiçar. Ao lado dos melhores repórteres da sua geração - Hermano Neves, Mayer Garção, Avelino de Almeida - Virgínia assinava as peças de maior impacto: as reportagens de rua, os crimes, as entrevistas que outros não conseguiam. O Bairro Alto era então o centro nervoso do jornalismo português, e ela estava no coração dele, com a janela virada para a porta que entrava todos os dias.


O que é preciso ver nessa imagem é a arquitetura de uma tomada. Virgínia Quaresma não pediu licença para estar ali. Entrou porque encontrou a fresta certa, pelo convite de Manuel Guimarães, que a chamara primeiro para O Século em 1908. Passou por outros jornais, mas voltava sempre ao Século, onde chegou a chefe das Informações Gerais e Reportagens Especiais. Depois seguiu para Guimarães, para A Capital. A cada movimento, consolidava terreno. A revista ABC chamava-lhe “a repórter das vibrações” - intensa, disse, e isso espelhava-se no que escrevia. Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal, soube em primeira mão, antes do Presidente Bernardino Machado e do chefe de governo.


Numa entrevista ao jornal A Capital, em 1911, declarou: “A mulher que queira enveredar por este caminho tem que ter uma educação especial, tem de ser despida de certos preconceitos para poder suportar os preconceitos dos homens.” A frase foi lida durante décadas como uma advertência sobre os obstáculos, e era isso também. Mas era igualmente um diagnóstico de método. Virgínia não falava de suportar a discriminação: falava de uma preparação específica para navegar um espaço hostil sem abandoná-lo. Era a gramática de quem não esperava que a porta abrisse por si.


O que a jornalista carregava ao cruzar essa porta era mais antigo e mais fundo do que o Bairro Alto conseguia imaginar. A sua mãe, Ana de Conceição Guerra, nascera em Elvas, filha e neta de africanos traficados para Portugal pelo comércio de escravizados. Essa linhagem não não era invocada em nenhum artigo publicado. Virgínia não a mencionava. E, no entanto, ela estava lá, na cor da pele que os contemporâneos notavam sem nomear, na trajetória improvável de uma mulher que havia chegado de Elvas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciara em 1903 entre as primeiras mulheres a fazê-lo, até às redações mais importantes do país.

PUBLICIDADE

Morabeza
Lisboa Africana 7 Virginia quaresma

Imagem baseada num recorte do jornal A Capital, publicado em fevereiro de 1971, cedido no início do século pela jornalista Maria Augusta Seixas, melhorado com recurso a IA.

É por isso que o livro Tribuna Negra - o estudo de Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela sobre as origens do movimento negro em Portugal entre 1911 e 1933 - a inclui, mas com uma precisão importante. “A Virgínia Quaresma era uma mulher negra feminista, a primeira jornalista, mas não era do 'movimento negro’", escreve Cristina Roldão. A distinção não é menor. Na Lisboa da segunda década do século XX, existia simultaneamente a ela uma geração extraordinária: o médico angolano José de Magalhães, o jornalista Mário Domingues da ilha do Príncipe, a pianista angolana Georgina Ribas, os estudantes são-tomenses Ayres de Menezes e Artur de Castro, organizados em torno de jornais como O Negro, A Voz D'África, o Correio de África - uma imprensa negra que exigia direitos para as populações colonizadas e dialogava com o pan-africanismo internacional. Virgínia conhecia este mundo, movia-se na mesma cidade, nos mesmos saraus, nos mesmos círculos intelectuais. Mas não estava nessa luta. Estava noutra.


A luta de Virgínia era o feminismo. Em 1907, ao assumir a direção da recém-criada revista Alma Feminina, determinou que todo o trabalho jornalístico da publicação exercido por mulheres fosse remunerado. Num campo onde as mulheres que escreviam eram chamadas “publicistas” e trabalhavam sem vínculo nem pagamento, o gesto era fundador. Bateu-se pelo direito ao divórcio, pelo sufrágio feminino, pela igualdade salarial, pelo ensino misto - à época um tema radical. Organizou a Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz. Discursou à campa de Carolina Beatriz Ângelo. Promoveu na sede da Agência Americana de Notícias saraus para pianistas, fadistas e poetisas que davam os primeiros passos. Usava a sua posição para criar posições para outras.


E havia algo mais que Virgínia não dizia em público, mas que também era ela. As suas relações com mulheres - Maria da Cunha, Maria Torres, Maria Luiza Vallat da Silva Passos - eram conhecidas nos círculos íntimos, mas circunscritas ao foro privado, borradas pela névoa do preconceito de uma sociedade que criminalizava os homossexuais e punia os que os rodeavam. A homossexualidade de Virgínia não aparecia na sua escrita, não era reivindicada politicamente, não se tornava argumento. Era vivida em silêncio estratégico, o mesmo silêncio com que não reivindicava a herança africana. Eram os termos em que o acesso era possível.


A questão é o que isso custou - e se custou. Uma investigadora da Universidade Lusófona observou que, no trabalho jornalístico de Virgínia, do que se conhece, não há sinais do que hoje se chamaria interseccionalidade. Ela não escreveu sobre o racismo que atravessava a sua própria condição. Não escreveu sobre o que significava ser uma mulher negra numa redação de homens brancos. O acesso foi construído, em parte, pelo silêncio sobre dimensões da sua identidade que o espaço não teria sabido receber. Navegar era possível mas tinha preço.


E acabaria por chegar tempos depois. A partir dos anos 1930, o vento que Virgínia sempre soubera ler mudou de direção e ela mudou com ele. Admiradora confessa de Salazar, a antiga feminista republicana passou a advogar os interesses do Estado Novo. No Brasil, para onde emigrou novamente em 1933 com a companheira Maria Luiza Vallat da Silva Passos, passou a trabalhar como redatora do Diário Português, periódico explicitamente voltado para os interesses da colónia portuguesa e empenhado na propaganda salazarista. A mulher que em 1907 tinha escrito sobre “o vírus do racismo” na corrente sanguínea da sociedade portuguesa colaborava agora com um regime que assentava a sua legitimidade no colonialismo e na hierarquia racial. Não há forma de suavizar esta contradição. Ela é parte do retrato. E é talvez a parte mais difícil de ler, não porque invalide o que veio antes, mas porque revela que a inteligência tática que permitiu a Virgínia tomar o Bairro Alto era a mesma que a levou a fazer a escolha errada quando as apostas eram mais altas. Soube sempre em que navio embarcar. O problema é que um dos navios ia para o lugar errado.


Quando morreu, a 26 de outubro de 1973, aos 90 anos, na sua casa da Rua do Salitre, ao velório apareceram apenas a irmã e a criada. Não presenciou o 25 de Abril. Quinze anos depois da sua morte, a cidade deu o seu nome a uma rua em Belém, no Bairro de Caselas. Em 2010, o seu rosto surgiu num selo postal. É a forma que Lisboa tem de administrar os seus mortos incómodos: uma rua, um selo, a biografia que cabe numa placa. O que não cabe em nenhuma dessas insígnias é a complexidade do que Virgínia Quaresma realmente foi: uma mulher com genealogia africana que entrou nos espaços mais fechados da Lisboa do início do século XX e os reconfigurou por dentro, sem jamais nomear o que carregava; uma feminista que criou condições para outras mulheres trabalharem, enquanto ela própria calava dimensões de si que o mundo não teria sabido receber; uma jornalista que soube antes de todos quando a guerra começava, e que, quando a sua própria guerra mais importante chegou, ficou do lado errado. Tudo isso ao mesmo tempo. Sem hierarquia entre as partes.


Em 2024, a Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu contribuiu para perpetuar a memória de Virgínia Quaresma com a instalação de uma placa toponímica na Praça do Príncipe Real, junto ao cruzamento com a Rua do Século.


A “mesa” que ela conquistou na Rua do Norte existiu. As reportagens que assinou existiram. As mulheres a quem abriu caminho existiram. O que não existiu foi quem guardasse essa mesa depois, quem contasse a história inteira, com todas as suas camadas, sem precisar de transformá-la num ícone ou num aviso. Virgínia Quaresma não precisa de nenhuma das duas coisas. Precisa de ser lida.


Esta web-série é produzida pela BANTUMEN e conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.

REFERÊNCIAS E FONTES:

ROLDÃO, Cristina; PEREIRA, José Augusto; VARELA, Pedro. Tribuna Negra — Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China, 2023.

SEIXAS, Maria Augusta Anselmo. Virgínia Quaresma (1882-1973) — A primeira jornalista portuguesa. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2004.

CRUZ, Eduardo da; CASTRO, Andreia. «O primeiro ‘repórter’ feminino do Rio de Janeiro: Virgínia Quaresma no Brasil». Convergência Lusíada, v.32, n.46, pp. 386-432, 2021.

CERQUEIRA, Carla. Comunicação em mesa redonda sobre Virgínia Quaresma. Revista Faces de Eva, n.47. Auditório do Público, Lisboa, 2023.

Centro de Documentação Elina Guimarães. «Virgínia Quaresma (1882-1973)». cdocfeminista.org.

«Quem foi Virgínia Quaresma, invisibilizada na história do jornalismo?». Público, 2 de março de 2023.

«Virgínia Quaresma, a primeira jornalista todo-o-terreno». Observador, março de 2026.

Entrevista com autores de Tribuna Negra. Buala.org, 2023.


Europeana. «Virgínia Quaresma, Portugal's first female reporter». europeana.eu.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile