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"Estamos fartos de pagar, estamos fartos de tutores, de Salvadores e Senhores"
O Negro, n.º 1, 9 de março de 1911
A 9 de março de 1911, numa tipografia da Rua Maria, 47, perto da Avenida Almirante Reis, saiu do prelo o primeiro número de um jornal chamado O Negro. Era uma quinta-feira. A República tinha sido proclamada há cinco meses. O editor era a Associação dos Estudantes Negros, coligada com a Liga Académica Internacional dos Negros - organizações de estudantes africanos que estudavam em Lisboa e que tinham decidido, naquele momento de abertura política, que era tempo de tomar a palavra em público. O jornal durou três números. Mas o gesto fundador de nomear e de ocupar a esfera pública com uma voz coletiva negra não se extinguiu com ele.
O Negro foi o primeiro de onze títulos que, entre 1911 e 1933, constituíram uma imprensa negra em Lisboa: A Voz D'Africa (1912–1913 e 1926–1930), Tribuna D'Africa (1913 e 1931–1932), O Eco D'Africa (1914–1915), Portugal Novo (1915), A Nova Pátria (1916–1918), O Protesto Indígena (1921), Correio de África (1921–1923 e 1924), A Mocidade Africana (1930–1932), África Magazine (1932) e África (1931–1933). Onze títulos em pouco mais de duas décadas. Uma instituição sem sede estável, sem capital garantido, sem o amparo do Estado, mas a existir no sentido mais exato do termo: uma prática organizada, continuada, socialmente enraizada, que produzia conhecimento, debatia ideias e formava opinião.
Cada jornal tinha o seu caráter. O Negro era radical na dicção e nas suas páginas, os estudantes africanos exigiam que África fosse propriedade social dos africanos, invocavam o socialismo e o anticlericalismo, e citavam as lutas negras que emergiam noutros pontos do mundo. A Voz D'Africa, dirigida por João de Castro, tinha um tom mais jurídico - Castro era homem de Direito - mas não menos combativo. Em 1913 evocou a história da Comuna de Paris; em 1932, o jornal África, herdeiro da mesma linha editorial, escreveu contra o racismo de Hitler, num momento em que a Europa ainda fingia não ver o que estava a construir. O Correio de África foi o veículo de um panafricanismo atlanticamente conectado; A Mocidade Africana representou uma tentativa de reagrupamento numa conjuntura política que se fechava. Cada título era uma resposta à circunstância, mas a circunstância era sempre a mesma: a necessidade de uma voz que não dependesse da boa vontade de outros.
As figuras que sustentaram este ecossistema eram, elas próprias, uma demonstração da diversidade interna do movimento. José de Magalhães, nascido em Angola em 1867, formado em medicina, dirigiu o Instituto de Medicina Tropical em Lisboa e foi deputado ao Parlamento eleito por São Tomé e Príncipe na década de 1920. Escreveu para a Seara Nova e para o Diário de Notícias, presidiu à Liga Africana e ao Movimento Nacionalista Africano. Era, por qualquer critério, um homem do establishment e foi precisamente esse lugar que usou para trazer W.E.B. Du Bois a Lisboa em dezembro de 1923. João de Castro, são-tomense, filho de proprietários de roças, estudou em Coimbra, voltou a Lisboa e fundou a Junta de Defesa dos Direitos D'Africa e o Partido Nacional Africano. Dirigiu os jornais com uma persistência que ultrapassava o insucesso financeiro de cada publicação: quando um jornal fechava, abria-se outro.
Mário Domingues era diferente de ambos. Nasceu em 1899 na ilha do Príncipe: a mãe era negra, natural de Angola, levada para a ilha com quinze anos para trabalhar na roça Infante D. Henrique; o pai era português branco, funcionário dessa roça, que o trouxe para Lisboa com dezoito meses. Cresceu numa cidade que o tratava como estrangeiro, trabalhou como jornalista no diário anarquista A Batalha - onde publicou o seu primeiro texto sobre a condição negra em 1919, com 20 anos -; chefiou a redação de A Voz D'Africa e do Tribuna D'Africa e dirigiu a África Magazine. Era igualmente ficcionista: publicou O Preto do Charleston em 1930, romance sobre a Lisboa boémia dos anos vinte com um bailarino angolano como protagonista, e Má Raça em 1932, peça de teatro censurada e apreendida sete dias após a publicação. Antes disso, o jornalismo de causa levara-o ainda mais longe e com o seu parceiro Reinaldo Ferreira, disfarçou-se de mendigo e de vagabundo para ser preso, e reportou de dentro das prisões o que nelas acontecia. Nele, o jornalismo e a literatura eram inseparáveis, ambos instrumentos de uma mesma recusa em aceitar os termos que o mundo lhe propunha. Mais recentemente, em 2022, a Tinta da China editou A Afirmação Negra e a Questão Colonial: Textos, 1919-1928, uma antologia organizada pelo sociólogo José Luís Garcia, que recupera textos fundamentais de Mário Domingues.
Georgina Ribas, nascida em Angola em 1882, viveu em Lisboa desde os três anos. Diplomou-se no Conservatório Nacional como pianista e foi professora de música. Em 1929, esteve envolvida na direção da Liga das Mulheres Africanas, organização ligada ao Partido Nacional Africano, uma das raras instâncias em que o movimento negro lisboeta produziu uma estrutura especificamente feminina. Ursula Cardoso foi uma das redatoras principais do Tribuna D'Africa. Os seus artigos não chegaram a ser objeto de estudo aprofundado, mas a presença na redação é, por si só, um dado a reter: a imprensa negra de Lisboa não era um clube exclusivamente masculino.
Em dezembro de 1923, W.E.B. Du Bois proferiu duas conferências em Lisboa, a convite de José de Magalhães. O III Congresso Pan-Africano realizara-se nesse ano em Londres e em Lisboa e a cidade portuguesa era, assim, ponto de passagem de uma rede atlântica de pensamento e ativismo negro que ligava Harlem a Lagos, Paris a Luanda. A imprensa negra lisboeta acompanhava sistematicamente esta rede e denunciava os linchamentos nos Estados Unidos, celebrava os líderes afro-americanos, comentava os debates sobre autonomia económica das comunidades negras. Era uma imprensa que sabia que o problema que nomeava era global, e que tratava essa globalidade como dado evidente.
É aqui que se impõe nomear a tensão que percorre este movimento de ponta a ponta: o movimento negro lisboeta de 1911 a 1933 combateu o racismo, denunciou as condições de trabalho nas colónias, exigiu direitos e representação, mas não pediu o fim do colonialismo enquanto sistema. Desengane-se quem pensa que tal aconteceu por conivência com o regime: Mário Pinto de Andrade, ao escrever sobre esta geração décadas mais tarde, chamou-lhes protonacionalistas, sujeitos que prepararam o terreno mas que não deram o passo que os seus sucessores dariam na Casa dos Estudantes do Império, e mais tarde nos movimentos de libertação. Esta geração operava dentro dos limites do possível, e os limites do possível eram definidos pela República portuguesa, pelo direito colonial em vigor, pelas relações de força que existiam. Pedir a independência não era só politicamente ineficaz, era criminalmente perigoso. O que fizeram dentro desses limites - construir organizações, fundar jornais, sentar-se no Parlamento, trazer Du Bois a Lisboa - foi pedra fundamental para o que viria depois, mas os limites existiram, e dizê-lo não diminui o que existiu dentro deles.
Com o golpe de 1926 e a progressiva institucionalização da ditadura, o espaço de liberdade que a República - com todas as suas contradições - tinha aberto foi sendo sistematicamente fechado. A censura instalou-se. As organizações foram dissolvidas ou silenciadas. Em 1933, o jornal África publicou o seu último número. Não houve um decreto específico, o silêncio chegou por acumulação, por pressão, por medo.
O que aconteceu depois às figuras diz tudo sobre a natureza desse silêncio. Mário Domingues sobreviveu ao regime como escritor profissional, escondeu-se sob uma pseudonímia vasta e deliberadamente estrangeira - Henry Dalton, Marcel Durand, Fred Criswell, entre dezenas de outros nomes - e assinou mais de uma centena de romances policiais e de aventuras que se venderam com êxito sem que ninguém soubesse quem os escrevia. O homem que tinha denunciado o colonialismo em voz alta nas páginas de A Batalha transformou-se numa sombra tipográfica multiplicada. Nunca abandonou as suas convicções: em 1975, com o Voz Anarquista a sair pela primeira vez após o 25 de Abril, escreveu ao seu diretor que era preciso proclamar bem alto que o anarquismo não era a desordem e a violência que as forças reacionárias queriam que fosse. Tinha setenta e seis anos.
Entre o encerramento do jornal África, em 1933, e a fundação da Casa dos Estudantes do Império, em 1944 (tema abordado no artigo #4 da série Lisboa Africana), passaram onze anos. A CEI nasceria numa Lisboa diferente, com estudantes vindos das colónias numa configuração política distinta, e levaria o projeto mais longe do que a geração anterior pudera ir: até à exigência explícita de independência, até à formação das elites dos movimentos de libertação. Mas o terreno em que a CEI assentou - o hábito de se organizar, de publicar, de criar redes, de falar em público - fora desbravado décadas antes, numa tipografia da Rua Maria.
Do muito que marcou o período, ficaram os onze títulos, depositados na Biblioteca Nacional de Portugal, consultáveis para quem os procure. Ficou também o fac-símile de O Negro, reeditado em 2021 pela Falas Afrikanas para assinalar os seus 110 anos. Ficou o estudo que Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela publicaram em 2023 pela Tinta da China, sob o título Tribuna Negra, que é simultaneamente um ato de investigação e um ato político: a recuperação de uma memória que não precisava de ser descoberta porque nunca deixou de estar lá, em papel e tinta, à espera de leitores.
O silêncio até pode ter sido imposto de fora. A voz tinha sido, desde o princípio, deles.
Referências
Roldão, Cristina; Pereira, José Augusto; Varela, Pedro. Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal (1911–1933). Lisboa: Tinta da China, 2023.
Varela, Pedro; Pereira, José Augusto. "As origens do movimento negro em Portugal (1911–1933): uma geração pan-africanista e antirracista". Revista de História (USP), 2020.
Domingues, Mário. Afirmação Negra. Org. José Luís Garcia. Lisboa: Tinta da China, 2022.
Domingues, Mário. O Preto do Charleston. Lisboa, 1930.
Domingues, Mário. Má Raça. Lisboa, 1932 [censurado e apreendido sete dias após a publicação].
O Negro, n.º 1–3 [fac-símile]. Lisboa: Falas Afrikanas, 2021.
Arquivos da imprensa negra lisboeta (1911–1933). Biblioteca Nacional de Portugal.
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