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Qualquer turista que chegue a Lisboa pela primeira vez recebe, cedo ou tarde, o mesmo roteiro: o elétrico 28, a vista do Miradouro da Graça, os pastéis de nata de Belém, o fado ao fundo de uma ruela de Alfama. É um mapa funcional, esteticamente coerente, reconhecível em qualquer guia das últimas três décadas. O que esse mapa não mostra é outra questão, sobre a qual este artigo se debruça: que outros roteiros existem além daqueles que conhecemos? Que histórias nos contam e o que dizem sobre a cidade?
Lisboa foi, durante mais de um século, a cidade europeia com maior proporção de população africana. No século XVI, estima-se que entre dez a doze por cento dos habitantes da capital eram africanos escravizados, mais do que em qualquer outra cidade do continente. Construíram edifícios, trabalharam nos campos do Tejo, criaram crianças que não eram suas, enterraram-se em cemitérios que não existem. Hoje, nenhum desses factos consta dos roteiros turísticos de referência. A cidade que Lisboa decidiu contar de si própria foi sendo construída com escolhas deliberadas, e uma das mais persistentes foi omitir quem a edificou.
Quem mapeia decide quem pertence, e quem fica de fora do mapa fica também fora da história. O que um punhado de iniciativas tem vindo a fazer, cada uma à sua maneira e com os seus próprios recursos, é reescrever essas regras. Associações, guias independentes, projetos académicos propõem mapas alternativos da cidade, contestando a narrativa dominante com o peso dos lugares que ela apagou.
Naky Gaglo chegou a Lisboa vindo do Togo e viu o que os lisboetas raramente veem. Aficionado de história, notou na cidade uma presença africana densa e antiga sem história contada, pelo menos sem história contada por quem a habitara. Em 2014 fundou a African Lisbon Tour, um percurso de quatro horas que começa na Praça do Comércio, junto à estátua de D. José I, local por onde no século XV passavam os africanos escravizados que chegavam ao reino.
O percurso organiza-se em três momentos: do monopólio português das trocas, entre 1444 e 1620, à abolição total da escravatura no século XIX. Avança pela Baixa e Alfama em vaivém entre o presente e o passado, ao juntar gastronomia, música e figuras concretas da história da cidade, como Bárbara Fernandes, uma mulher negra livre que no século XVI vivia no Bairro Alto, arrendava quartos a quem estava de passagem e entrou nos registos históricos como proprietária com posses. Gaglo quer que estes factos sejam conhecidos e contados por pessoas negras, que a história chegue às comunidades que são, afinal, descendentes dela. Mas no terreno a realidade é outro: ao longo de anos de visitas, foram poucos os portugueses a participar; quem chega é maioritariamente estrangeiro, curioso com uma parte da história europeia que os países de origem também tendem a encobrir.
O traçado de cada percurso é também um argumento. Entre o centro histórico onde Gaglo começa e as margens metropolitanas onde opera o Noz Storia, de Sinho Baessa de Pina, a distância é também de temporalidade e de tipo de memória. A temporalidade do Noz Storia é a do século XX, a da migração pós-independências, dos bairros autoconstruídos ao longo da Estrada Militar, das comunidades vindas de Cabo Verde, de Angola, de São Tomé que ergueram casas à noite, de tijolo, por dentro de paredes de madeira, para que a polícia não as demolisse antes de estarem completas. O Bairro das Fontainhas, o Bairro 6 de Maio, o Estrela d'África foram desmantelados ou transformados para além do reconhecimento nas últimas décadas. O percurso começa nas Portas de Benfica e termina na Cova da Moura, e o que Sinho guia são ausências: o chão onde era uma casa, o muro de fábrica que ainda guarda a marca da canalização, o espaço vazio onde, quando ali morava gente, nunca se fez um jardim. "Contra tudo e contra todos", diz durante o passeio, "aqui houve felicidade." É a insistência na vida que existiu, mais do que a lamentação do que foi demolido, que dá ao Noz Storia o seu caráter particular.
A Associação Batoto Yetu Portugal (ABYP) opera num registo diferente, mais próximo da articulação entre investigação académica e ação cívica, e o seu alcance geográfico estende-se para além de Lisboa. Fundada em 1996 e com sede em Oeiras, a associação começou pelo trabalho artístico sobre as raízes africanas do fado, um percurso de investigação que foi revelando como o fado lisboeta nasceu da mistura de povos nas zonas portuárias da capital, com influências mouras, afro-brasileiras e africanas, antes de ter perdido a percussão e a dança para ficar apenas com o lamento.
Desse trabalho saíram as visitas guiadas "Espaços da Presença Africana em Lisboa", construídas em colaboração com a historiadora Isabel Castro Henriques, uma das principais especialistas portuguesas na história das relações afro-portuguesas. O percurso urbano, realizável a pé ou de tuk-tuk pela zona ribeirinha, passa pela Baixa, pelo Bairro Alto e pelo Mocambo. Mas a ABYP vai mais longe. A "Caminhada Espiritual" à Ilha dos Negros, no Vale do Sado, leva os participantes de autocarro a partir de Lisboa até à reserva natural do Sado, onde a presença africana escravizada foi historicamente maioritária. A caminhada segue os caminhos de peregrinação que essas comunidades faziam até uma igreja com santos negros no altar, sinal do sincretismo religioso que funcionou durante séculos como forma de integração e de resistência.
A ligação ao presente permanece em detalhes que a maioria das pessoas não reconhece como tais: o carácter moreno que dá nome à "Grândola, Vila Morena" de Zeca Afonso ganha outro sentido à luz desta história, tal como o cozido à portuguesa que incorpora as partes dos animais que eram destinadas aos escravizados e que se tornaram, com o tempo, tradição nacional. A Batoto Yetu tem ainda parceria com a Secretaria de Estado da Igualdade e Migrações para a Plataforma Memória Africana Digital em Portugal, uma tentativa de institucionalizar aquilo que, por tanto tempo, dependeu apenas da persistência individual.
O projeto ReMapping Memories Lisboa chega ao mesmo problema por um ângulo diferente. Iniciado pelo Goethe-Institut Portugal e gerido, desde 2023, pelo Museu de Lisboa e pela associação BUALA sob coordenação editorial de Marta Lança, o ReMapping propõe-se a mapear e analisar os lugares de memória da Grande Lisboa que contam histórias de colonialismo, resistência anticolonial e presença africana, passada e presente. O trabalho tomou a forma de um arquivo digital: ensaios, reportagens, entrevistas que tornam o debate da 'descolonização das cidades' menos abstrato, ao ancorá-lo em lugares concretos. A ambição declarada é inscrever Lisboa no debate internacional sobre memória colonial urbana, interrogando o modo como a cidade continua, no seu espaço público, a reproduzir as geometrias do poder colonial.
O que une estas quatro iniciativas não é um programa comum nem uma coordenação formal, é o mesmo diagnóstico: o mapa oficial de Lisboa é insuficiente, e a insuficiência tem consequências políticas concretas, pois define quem é visível, quem tem história, quem pertence à cidade. O que as distingue são os instrumentos, os públicos e as temporalidades com que cada uma trabalha. Gaglo parte do centro e do século XV; Sinho parte da periferia e do século XX; a Batoto Yetu parte da articulação entre memória e sinalética física; o ReMapping parte do arquivo e do debate intelectual. Nenhuma dessas entradas esgota o assunto. Juntas, produzem uma topografia da presença africana em Lisboa que nenhuma delas, sozinha, conseguiria.
É certo que o mapa nunca fica completo. Bairros foram demolidos sem registo; figuras centrais da vida comunitária não aparecem em nenhum arquivo público; há histórias que só existem na memória de quem ainda está vivo, e o tempo faz o seu trabalho. A incompletude tem o seu próprio peso político. Enquanto o mapa não fecha, enquanto há quem continue a caminhar e a apontar o chão onde era uma casa, a narrativa oficial não vence por completo. A pergunta que fica, depois de percorrer estes percursos físicos ou digitais, históricos ou comunitários, é: que Lisboa quer cada um habitar?
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