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"Lisboa Africana” é uma série da BANTUMEN que nasce da urgência de resgatar uma memória muitas vezes apagada da cidade. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, o projeto percorre pessoas, lugares e trajetórias que moldaram - e continuam a moldar - a infraestrutura, a economia e a cultura de Lisboa, revelando uma cartografia invisível feita não apenas de ruas e monumentos, mas de vidas, corpos e presenças que atravessam séculos.
Há edifícios que guardam silêncios mais eloquentes do que qualquer discurso. Na Avenida Duque d’Ávila, n.º 23, na esquina com a Rua Dona Estefânia, no coração das Avenidas Novas de Lisboa, um prédio pintado de amarelo deixa passar os transeuntes sem que estes suspeitem do que ali aconteceu. Uma placa discreta no pavimento é o único vestígio de que aquele lugar foi, durante duas décadas, a Casa dos Estudantes do Império. O edifício foi renovado. A memória, essa, resiste, porque ali, além de uma geração de estudantes, forjou-se também - e contra o que seria expectável - o fim de um império.
Em 1943, começaram a surgir em Lisboa casas de estudantes organizadas por território colonial de origem: Angola, Cabo Verde, Moçambique, Goa, São Tomé. As autoridades ficaram de sobreaviso. Temia-se que, além de providenciarem camaratas e refeições a preços módicos, estas instituições pudessem constituir um berço de sentimentos protonacionalistas. A solução do regime foi, em aparência, elegante: unificar tudo num único espaço, diluir as identidades, apagar as diferenças. Em linhas gerais, ambicionava o Império uma espécie de amplitude da sua base de apoio e uma extensão das relações públicas além-fronteiras, por via da assimilação. Que melhor forma de controlar do que congregar?
Não houve uma ruptura abrupta, um momento zero em que a Casa dos Estudantes do Império, também conhecida pela sigla CEI, se tornou subversiva. Foi um processo lento, orgânico, feito de conversas noturnas, de poemas passados à mão, de livros emprestados e de uma consciência que ia acordando, página a página. Na viragem dos anos 40 para os anos 50, a delegação de Coimbra começou a ser mais um espaço de jovens anti-salazaristas do que um espaço para incentivo à “cultura portuguesa”. Os estudantes começaram a redescobrir as culturas africanas, numa afirmação de identidades próprias e de emergência de uma consciência anticolonial, que o regime tinha financiado sem o saber.
Em julho de 1948, a CEI publicou o primeiro número da sua revista Mensagem. Era um boletim modesto na forma, mas imenso no alcance. Durante dezasseis anos, aquelas páginas tornaram-se o espaço onde uma nova literatura africana de expressão portuguesa encontrou a sua voz e onde alguns dos autores mais importantes do século XX deram os primeiros passos. Viriato Cruz, Luandino Vieira, Pepetela, José Craveirinha ou Rui Knopfli figuram no rol de autores dados à estampa pela imprensa da CEI, que foi ainda responsável por várias antologias de poesia de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. A poesia era, naquele tempo, uma forma de sobrevivência política. A prosa direta era perigosa. A escrita em metáforas era a única liberdade que o regime não sabia bem como censurar.
E aqui, precisamente aqui, é que a história oficial comete a sua maior omissão. Porque entre as vozes que encheram as páginas da Mensagem - e que a historiografia durante décadas silenciou - estavam as mulheres.
As que mais se destacaram neste meio cultural e académico foram Noémia de Sousa (1926–2002), Alda Lara (1930–1962) e Alda do Espírito Santo (1926–2010). A sua investigação reavalia o papel destas três mulheres na frente de intervenção cultural para a formação da consciência política coletiva que desembocou nas lutas de independência das colónias portuguesas. A elas juntam-se nomes como Manuela Margarido e Lília da Fonseca, igualmente presentes nas antologias e no boletim da CEI.
Noémia de Sousa era considerada a mãe dos poetas de Moçambique. O seu único livro publicado, Sangue Negro, reúne poemas dispersos espalhados entre jornais e revistas. Afirmou, certa vez, que não gostaria de vender os seus livros se o seu povo não tivesse dinheiro para os comprar. A sua poesia circulou de forma clandestina desde 1951, perseguida pela PIDE antes ainda de ser publicada. Era uma subversão que começava na própria circulação das palavras.
Alda Lara, angolana, morreu aos trinta e dois anos, deixando uma obra breve e fulminante. No poema Regresso, publicado na Mensagem, demonstrava já a consciência de que regressar a África era um ato político tanto quanto íntimo. A sua poesia, como a de Alda do Espírito Santo, dirigia-se abertamente à pessoa comum, confirmando uma flagrante preocupação em alinhar através da voz poética um discurso solidário, de sensibilização política.
Alda do Espírito Santo foi, porventura, a figura feminina mais completa desta geração: poeta, professora, militante e fundadora de instituições. No início da década de 50, enquanto estudante universitária, estabeleceu contacto com alguns dos importantes escritores e intelectuais que viriam a ser os futuros dirigentes dos movimentos de independência das colónias portuguesas. E foi mais longe do que qualquer outra: foi uma das fundadoras, em Lisboa, da associação cultural Centro de Estudos Africanos, em 1951. A casa da sua família, no número 37 da Rua Actor Vale, tornara-se o espaço físico onde esse projeto tomava forma: os encontros regulares na sua casa davam lugar a palestras sobre temas como Linguística e História, e eram espaços de formação da consciência cultural e política acerca do colonialismo, do «assimilacionismo» e da «defesa do colonizado».

© RTP - Arquivo
É aqui que a história da CEI encontra a sua extensão mais radical. O Centro de Estudos Africanos - fundado em 1951, com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos, Noémia de Sousa, Lúcio Lara e Vasco Cabral - era uma estrutura ligada à Casa por vários elementos comuns, mas sem o verniz institucional do regime por cima. Os mesmos rostos, as mesmas conversas, a mesma urgência. E foi o CEA que cunhou o conceito que Cabral tornaria famoso: a reafricanização dos espíritos, o regresso a si mesma de uma geração que o colonialismo tentara apagar.
Conscientes do poder da palavra, e da palavra poética em especial, Alda do Espírito Santo e Manuela Margarido acabariam por se tornar, através da expressão poética e da militância política, figuras centrais da luta que se travava sem armas, com colóquios, debates sobre literatura, música e arte. Uma luta que o regime tinha, sem o querer, financiado e alojado.
O desfecho era inevitável. Um relatório secreto do Ministério do Ultramar, de março de 1965, defendia que se acabasse “de uma vez para sempre com os agitadores da CEI”. Em agosto desse ano, as autoridades determinaram que a organização ficava impedida de funcionar por não estar associada a uma instituição de Ensino Superior, pretexto burocrático para uma decisão política. Os próprios associados já tinham admitido que preferiam a extinção a sobreviver amordaçados. A 6 de setembro de 1965, a PIDE fechou definitivamente as portas da Casa dos Estudantes do Império. Alda do Espírito Santo seria presa em dezembro desse mesmo ano, por motivar a subversão - ela, que apenas ensinava, escrevia e se recusava a esquecer de onde vinha.
Mas o que ali havia nascido não cabia numa fechadura. Pela CEI passaram os fundadores do PAIGC, do MPLA, da FRELIMO, do MLSTP. Passaram presidentes, ministros, poetas nacionais, professoras presas, mulheres vestidas de preto que em 1974 marcharam sozinhas diante de um palácio de governo.
Como bolseiro da Casa dos Estudantes do Império, Amílcar Cabral participou em várias atividades realizadas pela Casa, registando um percurso de franca ascendência entre 1947 e 1951: desempenhou funções como Secretário da Direção de Secção das Ilhas de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé, e assumiu a vice-presidência da CEI em 1951. Foi também co-fundador da Mensagem, onde publicou os seus primeiros textos de reflexão política sob o pseudónimo de Arlindo António. O mesmo homem que em 1956 fundaria o PAIGC, o movimento que libertaria a Guiné-Bissau e Cabo Verde, aprendera ali, naquele edifício da Avenida Duque d’Ávila, a arte de organizar, escrever e mobilizar.
Agostinho Neto foi, em 1949, secretário da direção da delegação de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império. Marcelino dos Santos, de Moçambique, foi em 1950 e 1951 secretário da secção de Moçambique e delegado à direção geral da CEI. Lúcio Lara, em 1952, foi presidente da delegação de Coimbra da Casa. Cada um deles ocuparia, anos mais tarde, postos de direção nos movimentos que puseram fim ao colonialismo português: Neto como primeiro presidente de Angola, Marcelino como membro fundador da FRELIMO e ministro da Planificação de Moçambique, Lara como um dos pilares do MPLA.
Havia ainda Mário Pinto de Andrade, que colaborou com o boletim Mensagem, publicando ensaios sobre literatura negra e poemas, integrou o Centro de Estudos Africanos com Cabral, Neto e Marcelino dos Santos, e desse círculo resultou o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953). Mudou-se depois para Paris, onde escreveu na prestigiada revista Présence Africaine e se tornaria o primeiro presidente do MPLA. E havia Pedro Pires, que passaria pela CEI antes de se tornar primeiro-ministro e presidente de Cabo Verde; e Joaquim Chissano, que viria a presidir a Moçambique durante dezoito anos.
A partir da Casa, do Centro de Estudos Africanos e do Clube dos Marítimos Africanos, estes jovens intelectuais estabeleceram redes de solidariedade que se estendiam além-fronteiras e que se provariam determinantes para o sucesso das lutas dos movimentos que integravam. Do seu encontro nasceu também, em 1957, o Movimento Anticolonial - MAC -, primeira estrutura política explicitamente dedicada à luta contra o colonialismo português. Muitos dos seus elementos aderiram ao MUD Juvenil logo em 1946, juntando-se às fileiras da oposição democrática e do Partido Comunista Português, e participariam igualmente nas lutas estudantis dos anos seguintes de forma ativa, particularmente durante a Crise de 1962.
Quando finalmente chegou a revolução anticolonial, pôde concluir-se, em banho de ironia, que a semente da revolução e da liberdade havia sido financiada pelo próprio Estado Novo, um verdadeiro exemplo do feitiço que se vira contra o seu próprio feiticeiro.
Em 2015, numa conferência de imprensa na Fundação Calouste Gulbenkian, reuniram-se antigos associados da CEI que exerceram funções de Presidente da República ou Primeiro-Ministro: Fernando França Van Dúnem e Jorge Sampaio por Portugal e Angola, Mário Machungo e Pascoal Mocumbi por Moçambique, e Pedro Pires por Cabo Verde. Sentados à mesma mesa, décadas depois, os herdeiros daquela casa que o regime construiu para os domesticar.
O regime criou a CEI para formar uma elite que defendesse o Império. Formou, em vez disso, os homens e as mulheres que o derrubaram.
Quem passa hoje pela Avenida Duque d’Ávila não vê nada de especial. Mas se souber que Noémia de Sousa ali publicou os seus primeiros poemas perseguidos, que Alda do Espírito Santo fundou na sua própria sala de estar o embrião de uma nação, que Cabral e Neto ali traçaram os contornos de um mundo sem cadeias, então entenderá que há lugares onde a história fica, mesmo que não sendo visível aos olhos de todos.
REFERÊNCIAS
— Passos, J. (2020). A CEI, as poetas africanas da década de 50 e os filmes de Sarah Maldoror. Diacrítica, Universidade do Minho.
— Alfieri, N. (2021). Múltiplas subalternidades, múltiplas resistências: Alda Espírito Santo. Via Atlântica, USP.
— UFRGS (2024). As mulheres na Casa dos Estudantes do Império: poesia feminina de resistência.
— Memória Comum — Alda Neves da Graça do Espírito Santo.
— Queiroz, A.O. — Cantares de São Tomé e Príncipe: Manuela Margarido e Alda Espírito Santo. UFMG.
— Bantumen — Casa dos Estudantes do Império: um feitiço que se virou contra o feiticeiro.
— Política por Elas — Réquiem para Noémia de Sousa.
— Castelo, Cláudia — Síntese histórica da CEI (1944–1965).
— BUALA — Berço de líderes africanos em Lisboa.
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