450 anos de Luanda, cantados e contados através da música

25 de Janeiro de 2026
 luanda 450 anos cançoes
©Unsplash

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Angola é um país de contrastes, ritmos e histórias, onde a música funciona como registo social, memória coletiva e instrumento de afirmação. De Cabinda ao Cunene, do Atlântico ao Leste, Angola construiu-se entre territórios vastos, identidades múltiplas e uma tradição oral, na qual a canção assumiu um papel central na transmissão de experiências, valores e narrativas.


Essa diversidade territorial e cultural reflete-se também na organização do país, que começou por se estruturar em 18 províncias e foi posteriormente reorganizado em 24, num processo associado a mudanças políticas, demográficas e administrativas. No centro dessa dinâmica Luanda afirmou-se como espaço de concentração e projeção do poder político, económico e cultural, e lugar onde muitas das tensões e continuidades do país se tornam mais visíveis.


Este ano, Luanda completa 450 anos desde a sua fundação, em 1576. De lá para cá, foi ponto de chegada para quem entra em Angola e ponto de partida para quem sai. Parte dessa condição materializa-se hoje na existência de dois aeroportos ativos - o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto (NBJ) e o Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro (LAD) - que sustentam a conetividade nacional e internacional da capital.


No plano terrestre, tem havido um processo contínuo de reabilitação das estradas, depois de anos de desgaste do asfalto. Muitas vias ganharam novo revestimento, melhorando a mobilidade urbana, que se faz de forma cada vez mais diversificada: terrestre, aérea e aquática. O metro continua prometido. Até lá, Luanda anda ao seu próprio ritmo. De manhã cedo, os candongueiros desenham rotas improvisadas; o comércio informal ocupa os passeios; o peixe fresco chega das praias; o funge ferve nas panelas.


Luanda é uma cidade acorda cedo e dorme tarde. Vive do improviso, da conversa de esquina, do humor como mecanismo de defesa. É cidade de trânsito intenso, mas também de encontros rápidos; de dificuldades estruturais, mas de capacidade de adaptação. Nos bairros, o som do kuduro, da kizomba e do semba misturam-se com o pregão das zungueiras, compondo a banda sonora do quotidiano.


Ao longo do tempo, a cidade encontrou na canção uma forma de se explicar a si própria, de se justificar e, muitas vezes, de se denunciar. Alguns títulos tornaram-se referências centrais na construção do imaginário luandense. Do semba ao rap, da kizomba ao afro-house, Luanda foi sendo cantada sob múltiplas linguagens musicais, cada uma refletindo o seu tempo.


Neste artigo, reunimos uma seleção de músicas que fazem referência a Luanda, organizada numa playlist sem ordem temática ou cronológica. A proposta passa por observar como a cidade surge evocada em diferentes momentos, géneros e contextos musicais, permitindo uma leitura plural a partir da escuta.


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Agenda cultural

“Bem Bom” – Toty Sa’Med (2023)

Celebração calorosa do quotidiano luandense. A canção percorre momentos simples e coletivos da vida na cidade, a confraternização entre amigos, a partilha da comida típica como o calulu, os encontros improvisados, as conversas nas ruas e as noites vividas ao ritmo da capital.


Com uma sonoridade leve, Toty Sa’Med canta uma Luanda próxima e humana, onde o prazer está no convívio e na energia da vida urbana. O título "Bem Bom" traduz esse sentimento de alegria e positividade, afirmando a cidade como espaço de encontro, celebração e ritmo próprio, marcado pela proximidade entre as pessoas e pela vivência intensa do dia a dia.

“Luanda” – Tio Edson feat. Sidjay & Addy Buxexa (2023)

Uma faixa de hip-hop/rap que funciona como convite a viver a energia de Luanda, suas festas, encontros e cultura urbana contemporânea, com versos sobre a vida da juventude na capital, editada em 2023.



"Luanda Serena" - Yola Araújo (2022)
Tema no qual Yola Araújo propõe um olhar afetivo, calmo e esperançoso sobre a capital angolana. Ao contrário das narrativas mais duras ou caóticas frequentemente associadas à cidade, a canção evoca uma Luanda íntima e serena, ligada à memória, ao amor e à possibilidade de reencontro com a cidade para além do ruído.

“Luanda” – Kalibrados (2005)

Uma visão mais crítica da cidade, fala de problemas sociais como falta de água e energia, desigualdades e desafios urbanos, mas também da vida que acontece em Luanda com intensidade e persistência. Lançada em 2005, integrada no álbum Negócio Fechado (Edição Especial).



“Luanda” – Aline Frazão (2022)

Uma canção sensível e reflexiva sobre a cidade e a sua identidade, traduzindo sentimentos pessoais, memórias e o encontro entre tradição e modernidade, incluída no álbum Uma Música Angolana.



“Mussulo” – DJ Malvado & DJ Aka-M feat. Doddy (2024)

Nem todas as músicas que celebram Luanda falam diretamente da cidade enquanto espaço urbano. Algumas partem dos seus lugares afetivos e periféricos. É o caso de Mussulo, de DJ Malvado, uma homenagem à ilha que integra o território luandense e que muitos reconhecem como refúgio de fim de semana, palco de festas, encontros e memórias. Ao evocar o Mussulo, a canção amplia a ideia de Luanda, lembrando que a cidade também se constrói a partir das suas margens e dos seus espaços de escape.



“Ilha de Luanda” – Carlos Burity (1996)

É uma canção emblemática de Carlos Burity, um dos nomes marcantes da música angolana urbana das décadas de 1980 e 1990. Conhecido pela sua voz característica e por canções que retratavam o quotidiano, os afetos e os espaços simbólicos de Luanda, Burity construiu uma carreira ligada à memória popular da cidade. Em Ilha de Luanda, o artista presta uma homenagem nostálgica à ilha enquanto lugar de pertença, convivência e identidade, transformando-a num retrato afetivo da capital angolana.




“Luanda Minha Banda” – Eduardo Paím (1995)

Lançado em 1995, num período em que o artista afirmava uma nova linguagem na música angolana contemporânea.


A canção integra o álbum Luanda Minha Banda, um trabalho marcante que consolidou Eduardo Paím como uma das figuras centrais da renovação da música urbana angolana nos anos 1990. Conhecido como um dos pioneiros do kizomba moderno, Paím cruzou semba, zouk e influências urbanas para criar canções profundamente ligadas ao quotidiano, às emoções e à vivência da cidade.


Em Luanda Minha Banda, a capital surge como espaço de afeto, identidade e pertença. A letra constrói um retrato íntimo e cúmplice da cidade, celebrando Luanda não apenas como lugar geográfico, mas como extensão emocional de quem a habita. A música tornou-se, ao longo dos anos, uma verdadeira declaração de amor à cidade e um dos hinos não oficiais da Luanda dos anos 90.



“Som de Luanda” – Ruca Van-Dúnem & Ricardo Abreu (1992)

É uma canção que capta a paisagem sonora e emocional de Luanda, transformando a cidade em música. Conhecido pela sua escrita sensível e pela ligação profunda à identidade angolana, Ruca Van-Dúnem constrói aqui um retrato afetivo da capital, feito de ritmos, vozes, movimentos e quotidianos. "Som de Luanda" evoca a cidade através dos seus sons, da vida nas ruas às cadências musicais que a atravessam, afirmando Luanda como espaço vivo, pulsante e criativo. A canção inscreve-se na tradição da música angolana que olha para a cidade como lugar de memória, pertença e inspiração contínua.




“É Luanda” – André Mingas (2011)

A canção não descreve a cidade de forma idealizada; reconhece-a na sua verdade, com as suas contradições, celebrando a relação emocional de quem a habita com o lugar onde vive.


Em termos sonoros, a música assenta numa fusão de semba com influências pop e urbanas, característica do trabalho de André Mingas nos anos 1990. 


André Mingas foi um dos nomes marcantes da música angolana contemporânea, conhecido pela sua capacidade de cruzar semba, pop e sonoridades urbanas com uma escrita sensível e próxima do dia a dia. Irmão do músico Waldemar Bastos, construiu um percurso próprio, deixando uma marca forte na forma como a música angolana passou a dialogar com a cidade e com as experiências urbanas da Luanda pós-independência. Em É Luanda, Mingas transforma a cidade em personagem central, num retrato musical que permanece atual.


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