Lucas Cassule traz "Anastasyia" a Lisboa, um livro de contos sobre guerra, perda e pertença

28 de Setembro de 2026
lucas-cassule-anastasyya-entre-a-patria-e-o-desejo-portugal
Lucas Cassule | DR

Partilhar

Lucas Cassule apresenta a 2 de outubro, em Lisboa, Anastasyia: Entre a pátria e o desejo, livro de contos publicado pela editora angolana ÉSOBRENÓS. A sessão marca a chegada da obra ao público português. Antes disso, a BANTUMEN conversou com o escritor angolano sobre o livro, a ideia de pátria e de desejo, a angolanidade, o que ainda falta escrever e as dificuldades de fazer a literatura angolana circular para lá das fronteiras do país.


Lançado em Angola a 11 de julho, o livro reúne contos escritos ao longo dos últimos três anos. "Tem coisas de Angola, obviamente, mas também acabo, em diferentes situações, por enxergar o mundo como um todo, ensaiando alternativas e modelos do trabalho que se precisa desenvolver em conjunto para que tenhamos cada vez mais espaços acolhedores, onde qualquer vida tenha valor, independentemente do tom de pele, da etnia ou do lugar onde nasceu", explica o autor. Numa entrevista à revista angolana Oku Saka, contou que o conto que dá nome ao livro surgiu de uma fotografia da blogger Emanuela Pinheiro, no contexto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. À BANTUMEN, acrescenta o que o moveu: "Pensei no futuro das pessoas que perderam a casa, a família e se veem completamente sozinhas para enfrentar o mundo. Foi assim que nasceu este conto."


Anastasyia é, para Lucas Cassule, uma personagem que "nasce de várias inquietações que atravessam a nossa sociedade: a relação com a pátria, a liberdade, a pertença, a guerra, a perda e a necessidade de reconstruir a vida depois de uma rutura". No livro, a pátria pode ser literal ou uma metáfora, e o próprio autor deixa a pergunta em aberto: "Até que ponto estamos todos divididos entre os nossos desejos e o desejo da pátria?"

“Sinto que todos vivemos esse dilema infinito entre o nosso e o meu”

Lucas Cassule

lucas-cassule-anastasyya-entre-a-patria-e-o-desejo-portugal

Livro "Anastasyia: Entre a pátria e o desejo" I DR 

lucas-cassule-anastasyya-entre-a-patria-e-o-desejo-portugal

Lucas Cassule | DR

É essa tensão, entre o que é coletivo e o que é íntimo, que está no centro dos contos. "Sinto que todos vivemos esse dilema infinito entre o nosso e o meu. É assim em todas as nossas escolhas e ações", afirma. Enquanto escrevia, a inquietação manteve-se a mesma: "Quando é que a minha liberdade deixa de beneficiar os outros? Qual é a minha participação na mudança que quero para o mundo?" O que mais o surpreendeu foram as conclusões a que chegou em alguns textos, "principalmente porque são apenas minhas", diz. "Outras pessoas, ao lerem os textos, também terão as suas ilações."


A pátria de Anastasyia não cabe numa só definição. "Interessa-me precisamente essa tensão entre aquilo que entendemos como nosso enquanto coletivo e aquilo que cada um deseja ou sente individualmente", explica o escritor. "A pátria pode ser um território, mas também pode ser uma ideia, uma memória, uma relação ou até algo de que tentamos escapar. Acho que é nessa abertura que a narrativa encontra a sua força", continua.


A angolanidade, essa, não é para ele um conflito. "Gosto da angolanidade como a conheço, múltipla e rica", resume. Por ser um livro de contos, acredita que os textos dialogam muitas vezes com os de outros autores angolanos e estrangeiros que leu e admira, e cita Pepetela, José Eduardo Agualusa, José Saramago, Ernest Hemingway, Sérgio Fernandes e Gabriel García Márquez, entre outros.


Sobre o papel da literatura, a posição é clara. "O escritor é, de alguma forma, o reflexo do seu tempo, portanto, a sua literatura deve trazer a sua verdade", defende Cassule, que admite ainda assim espaço para mundos completamente desligados da realidade imediata. O que importa, na sua perspetiva, é perceber o que esse mundo imaginário oferece a quem lê e que perguntas consegue provocar. No caso deste livro, o país aparece em duas versões. "Anastasyia traz especulações e sugestões sobre a Angola que temos e a Angola que podemos ter", diz. "Interessa-me particularmente essa possibilidade de olhar para a nossa realidade, não apenas para descrevê-la, mas também para imaginar outras possibilidades, outros caminhos e outras formas de nos relacionarmos enquanto sociedade."


Trazer o livro a Lisboa é também uma forma de enfrentar um problema que o autor identifica na literatura do seu país. "Acho que a circulação da literatura angolana no exterior continua ainda num ritmo muito tímido", afirma. "À medida que observamos que, passados tantos anos, continuam a ser os mesmos nomes, uma lista de quatro ou três pessoas, percebemos que há ainda muito trabalho a ser feito para obter um melhor impacto, seja a nível da qualidade da produção das obras, seja na sua divulgação", acrescenta.


Não é por falta de histórias. "Nós, os angolanos, temos muita sorte nesse aspeto. O nosso quotidiano brinda-nos com muitas histórias; temos é de estar atentos e ser sábios ao catalogá-las", diz o escritor. No que tem lido de outros autores jovens, encontra uma produção diversificada: há quem privilegie as relações afetivas, quem prefira os conflitos geracionais, quem vá pela política e quem procure as lendas e os mitos. "O curioso mesmo é que todos fazem um esforço para trazer sempre algo novo ou recontar, sob outro ângulo, algo já retratado", nota.


Por isso, encara os encontros em Portugal como um ponto de viragem. "Este é o meu momento de sair verdadeiramente da bolha e estender o ruído das minhas histórias pelo resto do mundo." Espera que apareçam pessoas de várias nacionalidades que vivem no país e que estas "se permitam ler uma narrativa diferenciada", capaz de mudar a perspetiva sobre o que se escreve atualmente em Angola. "Espero que cada um leia com a sua liberdade e seja agente de passagem de testemunhos depois da leitura", conclui.


Quanto ao método, o escritor é prático. "Não escrevo à mão, apenas no PC. Acho trabalhoso ter de redigitar tudo depois, fazer rabiscos e riscar palavras", conta. Também não esconde a relação com a inteligência artificial, que diz ter chegado "num bom momento" e que descreve como uma ferramenta que não dispensa. "Agora, com a IA, quando estou a escrever, tenho apenas um único lugar para consultar significados de palavras, gerar sinónimos, fazer correções linguísticas e ainda aprofundar o conhecimento sobre um determinado assunto que esteja a abordar", explica.


Nascido em 1986, em Muquiama-Samba, na província do Bengo, Lucas Cassule divide-se entre a escrita, a edição, o ensino universitário e a engenharia informática, mas é na literatura que o seu nome tem ganho espaço, sobretudo através de uma ficção que recupera elementos da cultura e da memória angolanas. Entre as suas obras estão A Vila Assombrada pelos Makixi, Afroerotismo em Contos, Mil Correspondências, O Homem que Acordou Sozinho na Terra e Kiwana, a Serpente Vermelha. Em 2020, fundou a editora ÉSOBRENÓS, que dirige e através da qual publica autores angolanos e desenvolve iniciativas de promoção da leitura. A editora é também responsável pela publicação de Anastasyia. Este ano, antes do novo livro de contos, participou ainda na publicação infantil O Pavão Vermelho, a Avestruz e a Lagoa Mágica, em coautoria com Domingas Monte.


A apresentação de Anastasyia: Entre a pátria e o desejo está marcada para 2 de outubro, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A sessão conta com a participação de Sedrick de Carvalho e Sérgio Raimundo, além de um momento cultural com o DJ Huba.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile