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Lúcia Brito cresceu a ver os pais darem tudo à custa de si próprios. Herdou essa força mas também aprendeu, da forma mais difícil, o custo de nunca parar. Hoje, lidera o maior congresso de liderança humana em Cabo Verde e tem uma mensagem clara para quem ainda confunde produtividade com sacrifício.
Há um momento na vida de certas pessoas em que o mundo pára, não por escolha, mas por necessidade. Para Lúcia Brito, esse momento em camadas: na exaustão acumulada de anos a responder às exigências de todos menos de si própria, na partida prematura dos pais, e depois, na morte da irmã, aos 43 anos. "Essas experiências mudaram tudo", diz. "Trouxeram-me uma lucidez difícil de ignorar."
Natural de Santo Antão, a ilha das montanhas em Cabo Verde, Lúcia saiu de casa aos 18 anos com vontade de conquistar o mundo. Conquistou muito. No seu currículo lemos CEO e fundadora da DILUB – Corporate Services, estratega de negócios, mentora, promotora de eventos corporativos e ativista pelas questões de género. Mas foi nas perdas que encontrou a sua voz mais real.
Durante muito tempo, Lúcia viveu num ritmo de resposta constante. Às exigências, às expetativas, aos resultados. Quase automático. Até que começou a perceber o custo disso - a ausência nos momentos que mais importavam, a presença física num lugar enquanto a mente estava noutro.
Houve noites em que chegou a casa depois de dias de viagem, com o peito cheio de saudade dos filhos, e não conseguiu viver plenamente aquele reencontro. A prioridade continuava a ser responder ao trabalho. "Vi, de perto, o impacto de escolhas desalinhadas, de ritmos descompensados, de uma inversão silenciosa de prioridades - e as suas consequências." Foi, nas suas palavras, "beber do próprio veneno, mas numa escala diferente". E aprender com ele.
Em julho de 2026, Lúcia lidera o Human Leaders International Congress Cabo Verde 2026 (HLICCV2026), um congresso que une neurociência, educação parental, inteligência emocional e liderança estratégica numa só plataforma. Um programa que, à primeira vista, pode parecer improvável mas que, na visão da sua fundadora, faz todo o sentido.
"Quando somos pais, quando carregamos responsabilidades emocionais e familiares, percebemos que levamos tudo connosco", explica. Não existe, na prática, uma divisão clara entre vida pessoal e vida profissional e qualquer organização que ignore isso está a gerir tarefas não pessoas.
A neurociência e a educação parental entram aqui como ferramentas de consciência: para compreender como funcionamos enquanto seres integrais, emocionais, racionais, relacionais. "Equipas exaustas até podem produzir no curto prazo", diz Lúcia. "Mas não sustentam. Equipas conscientes, equilibradas e respeitadas produzem com consistência, com criatividade e, acima de tudo, com sentido."
“A IA não nos vai salvar de nós próprios”
Lúcia Brito
Para ela, a IA pode ser uma oportunidade real de reequilíbrio: se usada com intenção, pode devolver tempo. Tempo para pensar, para estar presente, para viver com mais consciência. Mas há uma condição: "Se não mudarmos a forma como nos relacionamos com o tempo e com o trabalho, nenhuma tecnologia nos vai salvar desse ciclo."
Se Lúcia Brito pudesse escolher uma única coisa que as empresas de Cabo Verde levassem deste congresso, Lúcia não hesita: "Que aprendam, verdadeiramente, a respeitar o tempo humano. Não apenas o tempo de trabalho, mas o tempo de vida."
É uma realidade silenciosa, mas cada vez mais evidente: níveis crescentes de burnout, exaustão emocional, depressão. E, em casos extremos, vidas que se perdem sob o peso de uma pressão constante e desumana. "Isto não acontece por falta de competência. Acontece por excesso de desconexão."
Desconexão entre o que as pessoas sentem e o que lhes é exigido. Entre o ritmo humano e o ritmo das organizações. Lúcia conhece esse lugar de perto e é por isso que fala dele com uma convicção que não é teórica. "Precisamos de aprender a desacelerar com intenção. Não para fazer menos, mas para fazer melhor. Com mais presença. Com mais consciência. Com mais humanidade."

DR
No dia seguinte ao congresso, o que precisará de ter acontecido para Lúcia dizer "missão cumprida"? "Sentir que algo se moveu dentro das pessoas. Não apenas ao nível profissional, mas ao nível humano", diz-nos com convicção.
O objetivo final é que se regresse a casa e que se olhe para a família com mais tempo e intenção. Que alguém, dentro de uma organização, escolha liderar com mais escuta, que alguém decida contribuir para Cabo Verde, não apenas viver nele. Porque, "a verdadeira mudança não acontece com intenção, mas com ação."
Além de tudo o que empreende, Lúcia Brito está prestes a lançar o seu primeiro livro, Entre Mundos, onde partilha, com coragem e autenticidade, o seu percurso entre diferentes realidades - pessoal, profissional e emocional. É também a fundadora do projeto Mulher Inspira Mulher e está a criar a Confederação Amdjer d'Cabo Verde, uma iniciativa pioneira que visa unir e amplificar o ecossistema feminino cabo-verdiano, no país e na diáspora.
Mãe de um jovem de 16 anos e de uma menina de oito, é nesse papel que encontra a sua maior força e o seu maior propósito.
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