Quem responde pela morte de Luís Rui Bidam, em Bissau?

8 de Janeiro de 2026
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Luís Rui Bidam era um jovem guineense ajudante de “toca-toca” [veículo privado de transporte coletivo de passageiros]. Trabalhava, como tantos outros, para garantir o sustento diário. No dia 27 de dezembro, segundo relatos de testemunhas, foi espancado por homens fardados enquanto exercia a sua atividade. Dias depois, a 1 de janeiro, não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital Nacional Simão Mendes. Os mesmos militares que o espancaram na sequência de um pedido de mudança de lugar, um gesto habitual dos ajudantes de “toca-toca”, destinado apenas a facilitar o embarque de outros passageiros, alegam agora que Luís foi tocado apenas uma vez, de forma leve, contacto que, segundo essa versão, teria resultado na sua morte.


Na manhã de quarta-feira, 7 de janeiro, colegas, amigos e motoristas da linha Quelelé–Bôr, em Bissau decidiram transformar a dor em protesto. Vestidos de negro, a empunhar cartazes com a fotografia de Luís e a entoanr gritos por justiça, iniciaram uma manifestação pacífica na rotunda de Bôr, com o objetivo de seguir até Belém, em direção à casa da mãe do jovem falecido.


Não era uma marcha contra o Estado. Era uma caminhada pela verdade, mas a resposta foi a força. As forças policiais interromperam a manifestação, recorrendo a espancamentos, lançamento de gás lacrimogéneo e tiros para o ar, numa clara tentativa de intimidar e dispersar os manifestantes. No percurso, agentes encapuzados e armados controlavam a marcha, transformando um ato de solidariedade num cenário de tensão e medo.


Antes da dispersão, Vigário Luís Balanta, coordenador do Movimento Revolucionário Pó de Terra, lembrou, em entrevista à Rádio Sol Mansi, que “não é admissível, num Estado de Direito, fazer justiça com as próprias mãos”, frase que pode ser lida como um aviso: quando a violência substitui a lei, todos perdem.


Testemunhas relataram que vários manifestantes foram agredidos, detidos e submetidos a maus-tratos por agentes das Forças de Defesa e Segurança, impedindo a conclusão da marcha. Há ainda denúncias de que alguns participantes chegaram a ser atropelados durante a intervenção policial. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram alguns jovens com ferimentos e outros a serem transportados para o hospital inconscientes.


Anísio Chache, colega do malogrado e participante do protesto, explicou que o objetivo da manifestação era simples e legítimo: obter esclarecimentos das autoridades sobre as circunstâncias da morte do jovem e exigir responsabilização. Nada mais. Nada menos. Ainda assim, os jovens reafirmaram que não serão silenciados, e exigem a libertação imediata dos colegas detidos, deixando claro que a repressão não apagará as perguntas que continuam sem resposta.


Até ao momento, as autoridades policiais não se pronunciaram publicamente sobre a morte de Luís, nem sobre as as detenções e acusações de maus-tratos. E esse silêncio pesa. Porque quando um jovem morre sob alegada agressão policial e quem pede justiça é recebido com gás e violência, a questão deixa de ser lida como um caso isolado e passa a ser um problema de confiança entre o Estado e os cidadãos, uma rutura que, nos últimos meses, tem vindo a normalizar-se. Os militares, a quem cabe a garantia da segurança pública, surgem cada vez mais associados a práticas de maus-tratos e abusos nas ruas, frequentemente sem justificação aparente.


Luís não é apenas um nome nas estatísticas. É o rosto de uma juventude trabalhadora que exige respeito, dignidade e proteção. Num Estado que se diz de Direito, pedir justiça não deveria ser um ato de coragem. Enquanto não houver verdade, responsabilização e respostas claras, o que aconteceu nas ruas de Bôr continuará presente. Porque a justiça que se adia transforma-se, todos os dias, em revolta.

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