LZ faz de “Makavelz” o ponto de viragem antes do primeiro concerto em nome próprio

7 de Maio de 2026

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Antes de chegar ao palco do Lisboa ao Vivo, onde vai apresentar o primeiro concerto em nome próprio, no dia 29 de Maio, LZ olha para Makavelz como um ponto de viragem. O álbum surge como a afirmação de uma fase em que o artista deixa de estar preso à necessidade de provar algo aos outros e passa a concentrar essa energia na música, na evolução e no que ainda quer construir.


Não tenho de provar nada a ninguém”, afirma em conversa com a BANTUMEN. “Nesta altura, aquilo que quero provar é musicalmente.” A frase resume bem o lugar onde LZ se encontra hoje: um artista consciente do seu passado e de tudo aquilo que o moldou, mas com uma vontade clara de não ficar limitado à narrativa da sobrevivência.


Para quem ainda não o conhece, apresenta-se primeiro como Zé, de Lisboa, mais propriamente da Serra das Minas, na linha de Sintra. É a partir desse lugar que começa a explicar o artista em que se tornou. O bairro, diz, formou-o pela ausência, pela liberdade e pelo confronto precoce com a responsabilidade. “Quando estás num bairro assim, estás sempre muito sozinho ou com os amigos. Não tens aquela cena dos pais a dizerem, ‘não faças isso’.”

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“A liberdade fez-me errar muito, mas também me fez aprender e crescer muito rápido”

LZ

lz entrevista makavelz

© BANTUMEN

LZ reconhece que “essa liberdade fez-me errar muito, mas também me fez aprender e crescer muito rápido”, recorda. A música acabaria por ganhar espaço nesse percurso, primeiro como presença natural em casa, onde ouvia vários estilos, depois como forma de expressão direta. Aos 17, 18 anos, começou a cantar com outra intenção, mais próxima da urgência de transformar vivências em som.


“Foi mais no grito, naquela cena de ‘vamos cantar o que vivemos’”, diz. Durante algum tempo, essa ideia esteve muito ligada à necessidade de contar apenas aquilo que era vivido na primeira pessoa. Hoje,o lha para essa visão de forma diferente. Para o artista, a música também pode nascer da observação, da escuta e da experiência dos outros. “A vida não és só tu. Tu não és o centro do mundo”, defende. “Às vezes, chegas mais facilmente às pessoas quando falas daquilo que elas vivem do que quando falas só daquilo que tu vives.”


É essa mudança de perspetiva que atravessa Makavelz, disco em que continua a falar a partir do lugar de onde vem, mas sem se prender às mesmas urgências. Se antes havia uma necessidade de afirmar o bairro, as rivalidades e as marcas de um determinado contexto, agora o foco está noutra direção. “Não estou tão focado em provar um ponto, em termos de bairro, guerras de bairros e essas coisas”, explica.


O título do álbum nasce da aproximação simbólica a Nicolau Maquiavel, figura pela qual o artista se interessou, sobretudo pela forma como o pensador foi visto como uma figura polémica no seu tempo, alguém que abordava temas incómodos e pouco aceites. O artista encontrou aí uma identificação possível por também se reconhecer como alguém que falou, durante muito tempo, de realidades marginalizadas. “Sempre estive do outro lado da moeda, a falar sobre coisas muito denegridas, a realidade do bairro”, afirma e acrescenta que não está à procura de poder, mas de uma nova forma de alcançar aquilo que pretende. “Não estou à procura desse poder, mas estou a reinventar-me para alcançar alguma coisa.”


Para LZ, Makavelz é um álbum de versatilidade, em que cabem afrobeat, rap e trap. O artista recusa ficar fechado numa única etiqueta. “Sinto que sou muitas coisas. Não posso ficar preso ao rap ou ao trap. Não é só isso que ouço, não é só isso que consumo e não é só essa visão que consigo passar.”

“De onde eu venho, não é uma questão de competir, é mais de sobrevivência”

LZ

lz entrevista makavelz

©BANTUMEN

Ao longo das 17 faixas, entre elas “Diferenciado”, “Horas”, “Kole Kole”, “Fuck Fama”, “Super”, “One In A Million”, “Diverdadi Esse Mundo” e “Remember”, procura apresentar diferentes camadas do seu universo musical. O álbum conta ainda com participações de Landim, Tsunami, Rafael Dior e Julinho KSD. Apesar dos nomes envolvidos, garante que o processo não foi totalmente planeado. As colaborações surgiram de forma orgânica, à medida que o projeto avançava e a dinâmica em estúdio se ia construindo. “No início, não era suposto haver feats assim. Foi mesmo uma cena de momento”, conta. “Parece mesmo cena de filme. As coisas vão acontecendo no dia. A cada dia vem uma coisa nova, uma bênção nova.”


Parte da maturidade que LZ reconhece em si também passa pelo método de criação: se antes escrevia rimas no quarto, hoje chega ao estúdio e deixa que a música aconteça a partir do que tem na mente naquele momento. Para o artista, esse processo tornou-se mais natural, embora reconheça que chegar a esse ponto não é simples. “É mais fácil fazer música assim, quando não escreves e é tudo no momento. Chegar a esse ponto é difícil, mas, quando chegas, torna-se tudo muito mais natural.”


Sente que o improviso pode aproximá-lo ainda mais daquilo que quer dizer, sem perder verdade nem intenção. “Continua a ser genuíno, tão genuíno como se estivesse a escrever. Chega a ser ainda mais”, afirma. Essa confiança, porém, não surge como ponto final e o artista reconhece que continua em processo, ainda com muito por aprender e melhorar. “Ainda tenho muito para evoluir, muito mesmo, mas já estamos num bom caminho. É um bom começo.” Em várias músicas de Makavelz, encontrou também espaço para olhar para si, refletir sobre o percurso e perceber que a evolução aconteceu na música e na forma como se entende enquanto pessoa.


O culminar de toda essa evolução (e trajetória) chega ao palco do Lisboa ao Vivo no dia 29 de maio, data que marca o seu primeiro concerto em nome próprio e, por isso, carrega um peso especial. Ainda assim, o artista não o vê como um começo absoluto. Os palcos por onde já passou deram-lhe outra dimensão do que é possível construir. “Já cantei em palcos que me fizeram ver outras dimensões, perceber que existe algo muito maior”, diz.


A preparação tem sido feita entre a expectativa, a ansiedade e a atenção ao detalhe. “Todos os dias vem o pensamento, ‘será que vai estar como eu imagino?’”, admite. Entre bilhetes, checklist e ensaios, LZ prepara-se para apresentar um novo capítulo em que as músicas antigas estarão presentes e a escolha dos temas de Makavelz será feita a pensar no caminho que vem a seguir.


Num tempo em que a música circula depressa e muitas vezes desaparece com a mesma velocidade com que chega ao público, o artista acredita que a permanência depende do cuidado colocado em cada detalhe. Embora parte de Makavelz tenha nascido de forma simples, entre beats encontrados e gravações feitas no quarto, o artista valoriza cada vez mais a construção coletiva, a produção e a presença de outras mãos no processo criativo. “A música tem de ser mesmo bem trabalhada. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas, melhor”, defende. É também nesse cuidado que o álbum encontra o seu lugar de transição, sem apagar a origem nem romantizar aquilo que o formou. A sobrevivência continua presente, mas já não aparece como destino final. “De onde eu venho, não é uma questão de competir. Não é uma questão de competição, é mais de sobrevivência”, resume. “Agora acho que já passámos essa fase de sobrevivência, se Deus quiser mesmo, e podemos mostrar às pessoas do que somos feitos.”

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