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Licenciada em Antropologia, pós-graduada em Relações Públicas, Maira da Veiga descobriu em 2021 o que realmente a movia: comunicação, pessoas e comunidades. Nesta entrevista, reflete sobre um percurso sem plano prévio, sobre a diferença entre sucesso visível e impacto real, e sobre por que razão Portugal ainda tem muito a aprender sobre como fazer este trabalho bem.
O mercado português de influencer marketing vive um momento de expansão, mas ainda marcado por conflitos estruturais. Em termos de números, movimentou 63 milhões de euros, em 2024, um salto em relação aos 59,5 milhões de 2023, revela a edição de 2025 do estudo ‘Top Brands – Marketing de Influência’, da Brinfer. Mais recentemente, dados de 2025 apontam para um investimento estimado de 27 milhões de euros, que representam um crescimento de 54% nos últimos três anos.
Os números revelam uma transformação profunda. O número de conteúdos patrocinados subiu de 247.494 em 2023 para 285.380 em 2024, tendo a análise identificado 37.331 publicações, 34.729 vídeos e 213.321 histórias patrocinadas no Instagram.
Ao mesmo tempo, o número de influenciadores com mais de 10 mil seguidores cresceu 5% em 2025, atingindo os 41 mil, mas o crescimento traz consigo problemas. O compliance continua a ser um desafio em Portugal, tendo a taxa de conteúdos patrocinados face a branded diminuído, representando apenas metade do verificado em mercados vizinhos como o de Espanha. Segundo estudos quantitativos, as marcas não estão a conseguir otimizar todo o valor investido nas campanhas com influencers, e é necessário profissionalizar a disciplina para conseguir um ROI [retorno sob investimento] positivo, indica a Marketeer. É neste contexto de oportunidade e desordem simultâneas que Maira da Veiga toma posição como Head of Influencer Marketing na Hausdown.
“O marketing de influência é uma área onde as relações humanas são o produto”
Maira da Veiga
Como defines o teu percurso até chegares a este momento? Há uma linha condutora ou foi uma construção mais orgânica?
Na verdade, nunca houve plano, e não tenho pudor em dizê-lo. Licenciei-me em Antropologia, fiz uma pós-graduação em Relações Públicas, e foi no meio dessa confusão que percebi que o que me movia eram comunicação, pessoas e comunidades. O marketing de influência não estava no meu radar quando entrei para a universidade, já que esta área mal existia enquanto disciplina formal. E aos 18 anos pouco ou nada sabemos para tomarmos decisões tão grandiosas como a nossa carreira, mas fui-me permitindo, envolvi-me em diversos projectos e actividades nos quais pude ir vendo o que existia e com o que me identificava. Em 2021, entrei para a empresa júnior da minha faculdade como consultora de marketing e tive um contacto maior com a área. Fui percebendo que havia um mundo inteiro a construir-se e eu queria fazer parte dessa construção. A partir daí, cada projeto que aceitei tinha comunicação no centro. Não foi linear, mas foi consistente. E hoje consigo ver o fio condutor, mesmo que na altura não o conseguisse.
O marketing de influência ainda é uma área relativamente jovem enquanto disciplina formal. Como foi construir carreira num território que estava a ser definido ao mesmo tempo que tu o percorreste?
Foi justamente por ser uma área jovem que decidi ir beber à fonte onde ela já estava mais maturada: o Brasil. O mercado brasileiro de influencer marketing é um dos mais desenvolvidos do mundo, com uma cultura de creators muito forte, agências especializadas com processos bem definidos, e uma relação entre marcas e influenciadores muito mais profissionalizada do que a que existe em Portugal. Inclusive, o meu semestre de intercâmbio lá foi de forma deliberada e estratégica, não por acaso. Mas mesmo no Brasil, a área está em construção permanente. Não há propriamente um manual, mas há muita experiência acumulada por quem está no terreno, e é aí que se aprende de verdade.
Qual foi o projeto ou momento que mais te desafiou profissionalmente e o que aprendeste com ele?
Os maiores desafios raramente são os projetos em si, são as situações em que tens de gerir pessoas e egos ao mesmo tempo que tentas manter uma campanha nos carris. O marketing de influência é uma área onde as relações humanas são o produto. Trabalhar com criadores que têm a sua visão, com marcas que têm os seus medos, e tens de ser o ponto de equilíbrio entre os dois. Houve momentos em que sabia que tinha razão, que a decisão que estava a ser tomada era errada, e ainda assim tive de ceder. Aprendi que há batalhas que não valem a energia que custam. Que às vezes é mais inteligente deixar o processo correr e esperar que a realidade prove o que os argumentos não conseguiram. Soa passivo, mas não é: é estratégia. E hoje é uma das ferramentas que mais uso.
Há algum erro do passado que hoje reconhecemos como um ponto de viragem na forma como trabalhamos?
Tomei decisões a pensar no agora e esqueci-me do depois. Aceitei projetos que faziam sentido no imediato mas que não contribuiam para onde eu queria chegar. Num mercado como o de influencer marketing, onde tudo parece urgente e onde há sempre uma campanha para ontem, é muito fácil cair nessa armadilha. O ponto de viragem foi perceber que ter um negócio, ou liderar uma área como se fosse um negócio, exige racionalidade, e que essa racionalidade tem de ser protegida ativamente. Num mercado que opera muito com base no ego, na visibilidade, ser fiel aos nossos princípios é uma escolha que temos que fazer todos os dias. Hoje, antes de qualquer decisão relevante, há um processo de reflexão (profunda e cuidada) que não abdico, independentemente da pressão externa.
O que é para ti um influencer marketing feito com excelência? O que separa uma campanha boa de uma campanha verdadeiramente eficaz?
Quando há alinhamento real entre todas as partes: entre os decisores, os intermediários, os contratados e todos os envolvidos. O briefing tem de estar alinhado com o perfil do influenciador, que por sua vez tem de fazer sentido para a marca, que por sua vez tem de confiar no trabalho da agência, que por sua vez tem de saber dar resposta a todos de forma coerente. Se todos estiverem alinhados e cumprirem a parte que lhes compete, dificilmente a campanha não será um sucesso, porque todos entenderam bem o seu papel, desempenharam-no com mestria, e os resultados irão refletir isso.
A indústria debate muito a questão da autenticidade versus performance. Como equilibras esses dois mundos no teu trabalho?
Para mim, não é um debate, é uma falsa dicotomia. A autenticidade é performance. Um criador que fala de uma marca em que realmente acredita converte muito mais do que um que está claramente a cumprir um contrato. As audiências de hoje, especialmente nas plataformas onde o influencer marketing tem mais impacto, como o Instagram, o TikTok e o YouTube, têm um radar muito apurado para o que é genuíno e para o que é encenado. O problema é que muitas marcas ainda olham para o influencer marketing como publicidade tradicional com outra embalagem. Escolhem o criador sem fit, definem um guião rígido, e depois ficam surpreendidas quando os resultados ficam aquém. E é por isso que, em todos os projetos em que estou envolvida, o critério de selecção começa sempre pela coerência entre o universo do criador e o da marca.
Que métricas acreditas que ainda são mal interpretadas pelas marcas quando avaliam o retorno de uma ativação com influenciadores?
O ROI, por exemplo, neste mercado não pode ser calculado da mesma forma que se calcula numa campanha de paid media. O influencer marketing constroi percepção, confiança, comunidade, planta uma sementinha que eventualmente era germinar, e essas coisas não aparecem nos relatórios de analytics ao fim de 48 horas. As marcas que entendem isso são as que conseguem extrair o valor real desta ferramenta mas as que não entendem continuam a pedir relatórios com métricas que não contam a história que importa.
O mercado português tem especificidades próprias. Como defines a maturidade atual do influencer marketing em Portugal - e onde há ainda espaço para crescer?
Portugal é um mercado com muitas especificidades: pequeno na dimensão, mas com muito mais potencial do que aquele que lhe é reconhecido. Descrevem-no frequentemente como "muitos cães para pouco osso", e acredito que essa expressão é, na verdade, uma desculpa dada por quem quer manter o seu privilégio de ser sempre o escolhido, sempre a opção. É uma forma de fechar portas com argumento de escassez quando o que existe, de facto, é uma concentração deliberada de oportunidades nas mesmas mãos. Na minha opinião, existe espaço, sim, para quem faz bem feito. Sempre existiu. O que o mercado português precisa não é de mais espaço físico ou económico, mas de uma mentalidade que deixe de tratar o sucesso alheio como uma ameaça. Um mercado mais aberto, mais diverso e mais profissionalizado é melhor para toda a gente, incluindo para quem hoje beneficia do sistema fechado. Essa é a conversa que precisamos ter mais vezes, e não tenho receio de a ter.
Qual é a tua posição sobre a crescente regulação e transparência exigida nas parcerias comerciais com criadores de conteúdo?
Sou completamente a favor, e não me parece que haja argumento válido contra. A falta de regulamentação prejudica todos: os consumidores que não sabem distinguir conteúdo pago de conteúdo editorial, os criadores sérios que ficam associados aos que operam de má-fé, e as marcas que investem em acções cuja eficácia não conseguem aferir com rigor. Em Portugal, ainda estamos muito atrás de mercados como o Reino Unido ou os Estados Unidos, onde a ASA e a FTC, respetivamente, já têm directrizes claras e consequências reais para quem não as cumpre. Precisamos de um quadro regulatório próprio e, idealmente, de uma associação do setor que ajude a definir e a fazer cumprir esses padrões - em Espanha foi criado algo semelhante no ano passado ou seja estamos a tempo. No Brasil aos trancos e barrancos temos a CONAR. É uma questão de maturidade do mercado, e é inevitável que aconteça.

DR
O que te levou a aceitar este desafio na Hausdown? O que viste nesta empresa que te fez dizer que sim?
Não foi uma decisão rápida, e isso foi intencional. Passei longos meses a analisar antes de responder. Há parcerias que fazem sentido no momento mas que, quando se pensa no médio e longo prazo, perdem coerência. Tenho esse erro no historial e aprendi com ele.No caso da Hausdown, o que me convenceu foi a soma de várias coisas: a estrutura da empresa, a sua reputação no mercado, e sobretudo os valores de quem a construiu. A Hausdown foi criada com a ambição de dar visibilidade a quem muitas vezes não a tem, de elevar vozes que o mainstream tende a ignorar. Isso não é só uma proposta de valor comercial, é uma posição (uma posição que partilho). Ou seja, os valores estão alinhados e isso é de extrema importância.
A Hausdown posiciona-se de forma distinta no mercado. Como é que o departamento de Influencer Marketing pode reforçar e amplificar esse posicionamento junto das audiências certas?
Na minha opinião, a forma como a Hausdown se posiciona é, precisamente, o seu maior ativo neste contexto. Num mercado saturado de agências que trabalham com os mesmos rostos, as mesmas categorias e as mesmas fórmulas, uma empresa que aposta em diversidade real, talento e competência tem uma proposta que as marcas mais evoluídas estão ativamente à procura.O departamento de Influencer Marketing tem de ser o espelho desse posicionamento e selecionar criadores com base em critérios de alinhamento real, não de popularidade; construir campanhas que acrescentem algo à conversa em vez de a interromperem; e trabalhar com marcas que entendam, ou que estejamos dispostos a ajudar a entender, que o reach não é tudo. As audiências certas não são as maiores. São as que têm interesse.
Como perspetivas o papel do departamento de Influencer Marketing dentro da estrutura da Hausdown e que impacto queres que tenha no negócio?
Quero que o departamento seja uma referência, não apenas dentro da Hausdown, mas no mercado. Que quando se falar de influencer marketing na lusofonia, o nome da Hausdown surja naturalmente na conversa. E sabemos que isso não acontece por se fazer muito, acontece por se fazer bem e de forma consistente. Mas o impacto que me importa não é só de notoriedade. É de contribuir ativa e verdadeiramente para a estruturação do mercado, trazer marcas que se alinham com os valores, desenvolver parcerias com talentos que crescem connosco ao longo do tempo, e mostrar que esta área pode ser tão estratégica e tão mensurável quanto qualquer outra. Quero que o influencer marketing deixe de ser visto como um “extra” e passe a ser parte central da estratégia de comunicação das marcas com as quais trabalhamos.
Que tipo de marcas ou categorias acreditas que têm mais a ganhar com uma estratégia de influencer marketing bem construída, no contexto do que a Hausdown oferece?
As marcas que têm mais a ganhar são as que percebem que o influencer marketing é, antes de tudo, uma ferramenta de construção de confiança. No contexto da Hausdown, interessa-nos especialmente trabalhar com marcas que querem chegar a comunidades e que percebam que uma audiência de mil pessoas altamente envolvidas pode valer mais do que um milhão de seguidores passivos. Esse é o tipo de conversa que gostamos de ter, e o tipo de trabalho que nos distingue.
Nos primeiros meses, quais são as tuas prioridades? O que queres construir antes de qualquer outra coisa?
A prioridade agora é arrumar a casa. Antes de qualquer campanha, antes de qualquer parceria nova, é preciso ter processos claros: como se selecionam os criadores, como se faz o onboarding das marcas, como se medem os resultados, como se comunica internamente. Parece básico, mas é o que garante que tudo o resto funciona com consistência. Num mercado como o de influencer marketing, onde há uma tendência para trabalhar de forma muito reativa, a responder a oportunidades à medida que surgem, ter estrutura é um diferencial real. Os primeiros meses são para construir essa estrutura. Os resultados vêm depois, e vêm melhor porque as bases estão sólidas.
“Que apareçam mais profissionais sérios, mais formação especializada e uma cultura de sector que valorize a colaboração em vez da competição”
Maira da Veiga
Como imaginas esta área daqui a cinco anos, tanto a nível global como em Portugal?
A nível global, o influencer marketing vai continuar a crescer, mas vai mudar de forma. O modelo atual, muito centrado em métricas de vaidade e em campanhas pontuais, vai dar lugar a parcerias mais longas e mais integradas, que prezam pela conquista da audiência como comunidade. Os criadores vão profissionalizar-se cada vez mais, as plataformas vão continuar a evoluir (o que o TikTok fez ao modelo do Instagram é só um exemplo do que ainda está para vir), e a regulamentação vai apertar em todos os mercados. Em Portugal, espero crescimento, mas sobretudo espero maturidade. Que o mercado deixe de ver o influencer marketing como algo superficial e passe a tratá-lo como a ferramenta estratégica que é. E que, para isso, apareçam mais profissionais sérios, mais formação especializada, e uma cultura de sector que valorize a colaboração em vez da competição.
Que conselho darias a alguém que quer construir uma carreira sólida em marketing de influência hoje?
Estudem, mas estudem o mercado real, não apenas os cursos. Sejam analíticos, percebam o que funciona, porquê, e para quem. Leiam sobre o que se passa no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido, mercados onde a área está mais desenvolvida e onde os erros e os acertos já foram feitos. Não percam o vosso tempo a reinventar a roda.
O que é que ainda não fizeste profissionalmente e que tens vontade de fazer?
Lançar o meu projeto edtech. É algo que está há muito tempo a tomar forma, e que passa por democratizar o acesso à informação e ao conhecimento sobre as oportunidades que o digital oferece, para um público geral, não apenas para quem já está dentro da indústria. Acredito que grande parte das barreiras de entrada neste mercado existem porque a informação não circula de forma acessível. Quero mudar isso.
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