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Existe um momento, em quase todos os percursos criativos nos países de língua portuguesa em África e em Timor-Leste, em que um realizador, uma produtora ou um técnico de som percebe que o talento não é o problema. O problema é ser encontrado. É um financiador internacional nunca chegar a saber que aquela equipa existe, é uma oportunidade de rodagem passar ao lado por falta de contacto, é um portefólio inteiro ficar arrumado num disco externo em vez de estar visível para quem procura. Foi a partir deste diagnóstico, mais estrutural do que artístico, que nasceu o mapeamento do sector do cinema e audiovisual que arrancou recentemente em Maputo, apresentado no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas.
A iniciativa é promovida pela Rede de Cinema e Audiovisual PALOP+TL e tem um objetivo prático, quase de engenharia social: transformar uma comunidade profissional dispersa, muitas vezes informal, em informação organizada e pesquisável. Vai nascer um repositório online com perfis de freelancers, associações, coletivos e empresas do sector, onde vão constar competências, localização e portefólio de cada profissional. A plataforma não parte do zero, existe desde 2019 um protótipo que será agora atualizado e alargado a Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, além de Timor-Leste. Angola integra a rede, mas não participa nesta fase.
Por trás da ideia está uma constatação simples de explicar e difícil de resolver sem dados: entidades como a UNESCO só conseguem canalizar recursos e identificar talento disponível quando esse talento é visível, e produtores nacionais e internacionais só conseguem contratar com agilidade quando sabem onde procurar. Diana Manhiça, coordenadora do projeto, e Vanessa Massitela, responsável pela recolha de dados em Moçambique, têm estado à frente do trabalho de recolha e análise de dados demográficos que vai permitir sistematizar, melhorar e divulgar este directório profissional digital.
"Esperamos, como sociedade civil, contribuir para a existência de dados sistematizados que colaborem para o desenvolvimento de políticas públicas, mas também, e essencialmente, promover a divulgação de informação sobre os profissionais e obras no contexto internacional, demonstrando e catapultando o seu potencial de contribuição para as economias nacionais", resumiu Diana Manhiça na apresentação, que decorreu em formato híbrido, presencial e online, permitindo a participação de profissionais de fora de Maputo e do próprio país.
Em Moçambique, o processo já saiu do papel. Numa primeira fase, está a ser feito contacto direto, por telefone ou redes sociais, com os profissionais já acessíveis, pedindo-se a cada um que partilhe os contactos de colegas, criando deliberadamente um efeito de bola de neve que deverá alargar a rede muito além dos nomes já conhecidos. As províncias de Maputo, Zambézia, Nampula e Sofala serão, para já, as contempladas, cada uma com um ponto focal responsável pela recolha de dados que depois seguem para Vanessa Massitela e são integrados no repositório central. Mais tarde, os próprios profissionais receberão contas com autonomia de edição, podendo atualizar a sua lista de trabalhos e prémios à medida que forem acontecendo, um sistema pensado para manter o directório vivo em vez de ser mais um arquivo esquecido pouco depois de criado.
Essa preocupação com a continuidade tem uma solução quase pedagógica: quem se inscrever receberá emails mensais a lembrar que deve concluir o registo e acrescentar dados novos, sob pena de o perfil ser removido caso a inatividade se prolongue. Diana Manhiça é, ainda assim, clara quanto à intenção por trás da regra. "Este não é o propósito, faremos o que pudermos para vos convencer a preencher, porque acreditamos que é um passo importante para o sector", afirmou, deixando claro que a exigência é sobretudo uma forma de garantir que a ferramenta continua útil, não um mecanismo de exclusão.
O calendário da rede é mais amplo do que Moçambique. Em Timor-Leste, o trabalho já arrancou em maio deste ano, com uma deslocação da própria Diana Manhiça ao país para acompanhar a missão. Em Cabo Verde, Samira Vera Cruz, que coordena a ação no arquipélago a partir de Portugal, prometeu que o processo vai arrancar em setembro, estando neste momento a tratar-se das questões logísticas necessárias.
A apresentação em Maputo acabou por se tornar também um espaço onde os próprios profissionais expuseram as suas inquietações. Entre as dúvidas levantadas sobre o funcionamento do mapeamento, surgiram outras que pouco tinham que ver com a plataforma em si, mas com o dia a dia de quem faz cinema em Moçambique: desconhecimento sobre direitos de autor, sobre onde e como registar empresas, atividades ou obras, e sobre outras questões de natureza legal que continuam a gerar insegurança no sector. Dessa troca nasceram propostas concretas, como a criação de fóruns de conversa entre o Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas e os profissionais, permitindo um diálogo direto entre quem faz os filmes e quem, do lado do Estado, tutela o sector, além de sugestões para uma campanha de inscrição gratuita para obtenção de licenças, com eventual cobrança a começar apenas nas renovações. Um representante do instituto, presente na sala, reconheceu a pertinência das preocupações e assumiu o compromisso institucional de lhes dar seguimento, uma resposta a quem vive diariamente os dilemas reais de realizar um filme num contexto de recursos limitados.
Olhando para os próximos doze meses, a Rede de Cinema e Audiovisual PALOP+TL tem um roteiro definido: a apresentação pública de um relatório overview com recomendações para políticas do sector nos PALOP e em Timor-Leste, o relançamento da plataforma online como Mapa do Audiovisual PALOP+TL, pensado também como espaço de networking, e o lançamento de uma futura Agência de Curtas-metragens PALOP+TL. Em Moçambique especificamente, há ainda dois marcos próximos a assinalar: o FilmLab MZ, entre 24 de agosto e 4 de setembro, em parceria com a 16.ª edição do KUGOMA, e a apresentação pública da nova plataforma, já marcada para 5 de setembro.
A Rede de Cinema e Audiovisual PALOP+TL é coordenada pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema em Moçambique, associação cultural moçambicana sem fins lucrativos, e implementada com parceiros em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. O projeto conta com apoio financeiro do Camões, I.P., através do Programa PROCERIS, o Programa Cultura e Empreendedorismo com Responsabilidade e Inclusão Social.
No fundo, o que está em jogo não é apenas uma base de dados. É a possibilidade de o cinema feito em português, de Maputo a Bissau, de Díli à Praia, deixar de depender de quem já conhece alguém que conhece alguém, e passar a existir num espaço onde pode ser, finalmente, encontrado.
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