“O diálogo verdadeiro dói e exige sinceridade”, Maria Júlia Pinheiro

11 de Fevereiro de 2026
Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista
Exposição "Complexo Brasil" | ©BANTUMEN

Partilhar

Integrados na exposição Complexo Brasil, o Laboratório de Confluências e a Ciranda: Saberes afirmam-se como espaços de criação e de pensamento crítico, onde o conflito e a circulação de saberes são assumidos como matéria central do trabalho artístico, sem a tentativa de neutralizar ou apaziguar as tensões que os atravessam.


Pensada como um dispositivo crítico e não como um retrato estabilizado, a exposição Complexo Brasil, apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, propõe o exercício exigente de olhar o Brasil a partir das suas fraturas, tensões e sobreposições históricas, sem a tentação de reduzir o país a uma imagem reconciliada de si mesmo. É neste quadro que se inscrevem o Laboratório de Confluências e a Ciranda: Saberes, dois projetos que escapam à condição de programação paralela para se afirmarem como extensões conceptuais e políticas da própria exposição.


Na entrevista concedida à BANTUMEN, Maria Giulia Pinheiro descreve estes projetos como respostas situadas à pergunta central colocada pela exposição: como criar espaços de pensamento e de experiência que não neutralizem o conflito, antes o tornem visível, partilhável e produtivo? A intenção manifesta-se logo na génese do Laboratório de Confluências, pensado não como comentário ou mediação, mas como fricção crítica. “O laboratório nasce da ideia de criar uma conversa crítica da exposição com a própria exposição. Não para a explicar, mas para dialogar com ela, a partir das nossas contradições e dos lugares de onde falamos”, afirma.


O projeto emerge, assim, de uma recusa explícita da autoria isolada, cuja proposta passa por reunir artistas brasileiros migrantes a viver em Portugal, convocados não para representar o Brasil, mas para se assumirem como parte localizada de um território múltiplo e contraditório. A migração, neste contexto, surge como experiência de transformação, com impacto direto na identidade e no fazer artístico. “Quando se migra, tudo se transforma. Quem eu sou transforma-se e, inevitavelmente, o meu trabalho passa a falar sobre o que estamos a fazer aqui, sobre o que este encontro pode promover”, sublinha Maria Giulia.

PUBLICIDADE

Universal Anna Joyce feat Ivandro
Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

Imagens da exposição "Complexo Brasil" | © Pedro Pina

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

Imagens da exposição "Complexo Brasil" | © Pedro Pina

Esse afastamento permite questionar a centralidade histórica de São Paulo enquanto narradora do país e, ao sair desse eixo, torna-se possível regionalizar o olhar e reconhecer o peso da concentração económica e simbólica no Sudeste, desmontando a ideia de que uma parte pode falar pelo todo. A própria artista identifica esse momento como determinante no seu percurso: “Foi só quando me afastei de São Paulo que consegui perceber São Paulo como região e não como narradora do Brasil. Isso desconstrói muitas certezas e obriga-nos a olhar para dentro.”


O processo de criação do laboratório foi deliberadamente aberto. Após uma visita guiada à exposição e longas horas de debate coletivo, não havia ainda um resultado definido. A indeterminação foi assumida como método e como condição de trabalho, num contexto artístico em que a autoria individual e o controlo do resultado continuam a ser valores dominantes. “A minha proposta foi dissolver a autoria.  Não queria apresentar uma obra minha, queria que construíssemos algo juntos”, explica Maria Giulia, reconhecendo que essa escolha implicava também aceitar a incerteza e trabalhar sem garantias de forma ou de desfecho.


A noção de confluência que atravessa o laboratório dialoga diretamente com referências convocadas pela própria artista ao longo da entrevista, em particular o pensamento de Nêgo Bispo, filósofo, poeta e ativista político brasileiro. A confluência surge aqui não como fusão harmoniosa, mas como coexistência de diferenças, atravessada por fricções, sobreposições e tensões. Sem qualquer tentativa de apropriação conceptual, a curadora refere este pensamento como uma chave possível de leitura e de ação, sublinhando a necessidade de o pensar a partir do próprio lugar, com consciência dos limites e das contradições implicadas.


O que chega ao público não se organiza segundo a lógica tradicional do espetáculo. A experiência constrói-se como um percurso partilhado, atravessado por diferentes cenas e linguagens, em que o acolhimento inicial - marcado por códigos associados ao imaginário brasileiro, como a informalidade, a conversa e a convivência - funciona como porta de entrada para um conjunto de respostas artísticas aos incómodos provocados pela exposição. Cada intervenção surge como devolução criativa, não como explicação, mas como confronto.


A relação com o incómodo atravessa todo o Laboratório de Confluências enquanto princípio operativo. Maria Giulia descreve a criação como um gesto de resposta ao que a exposição convoca, sublinhando que o trabalho artístico nasce da necessidade de devolver, em linguagem própria, aquilo que foi recebido. “Eu acredito muito na criação como uma vingança”, afirma, ao mesmo tempo que esclarece tratar-se de uma reação simbólica, não de apaziguamento. Criar significa responder sem neutralizar o conflito, reinscrevendo-o noutro plano.


Aqui, a exposição é entendida como um olhar sobre uma ferida histórica ainda aberta - e que talvez deva permanecer assim para não ser pacificada. “A ferida está inflamada e ainda bem. Porque não há reparação possível sem passar pela inflamação”, observa a artista, que afasta qualquer noção de cura simplificadora.


Um dos momentos centrais do laboratório passa pela problematização da antropofagia cultural, conceito associado ao modernismo brasileiro e a Oswald de Andrade. Longe de uma celebração acrítica, a referência é atravessada por uma leitura desconfortável, que expõe também o seu potencial predatório, sobretudo quando pensada a partir de um regionalismo historicamente hegemónico. Ao explicitar esse lugar, o laboratório torna visíveis mecanismos de apropriação e apagamento ainda ativos na construção das narrativas nacionais.


Por outro lado, Ciranda: Saberes desenvolve-se num registo distinto, mas partilha o mesmo horizonte ético. Criada como um dispositivo de incentivo à leitura e à partilha, a iniciativa recusa a centralidade do texto autoral e propõe a leitura em voz alta de obras de pensadores, poetas e escritores que já “fizeram a travessia”. Nesta edição, pensada especificamente para Complexo Brasil, a proposta alarga deliberadamente a noção de literatura, questionando separações coloniais entre poesia, filosofia, pensamento político e escrita da experiência. “Essa divisão entre o que é literatura, o que é filosofia e o que é poesia é profundamente colonial. Não existe essa separação na vida”, afirma Maria Giulia.

“O diálogo verdadeiro dói. Exige sinceridade e a aceitação de que aquilo que dizemos pode ser deturpado”

Maria Giulia Pinheiro

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

©Maria Carolina Oliveira

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

Maria Giulia Pinheiro, na exposição "Complexo Brasil" | ©Ricardo Lopes

A curadoria da Ciranda convoca autoras e autores cuja produção nem sempre ocupa o centro do campo literário, mas se revela determinante para pensar o Brasil contemporâneo e as suas reverberações em Portugal. Entre os nomes que compõem a edição surgem Gisela CasimiroTatiana Salem Levy e Izabelle Louise, a par de outros participantes provenientes de contextos diversos, nem sempre brasileiros. A escolha reforça a ideia de que estes saberes circulam no território português e dialogam com ele a partir de posições múltiplas.


O microfone aberto, que complementa a edição, integra essa mesma lógica, oferecendo ao público um espaço para partilhar referências, leituras e incómodos, sem a pressão da autoria individual. O slam, as leituras performativas e outras iniciativas ligadas à palavra falada - incluindo ações desenvolvidas no Centro de Arte Moderna - surgem em continuidade com a Ciranda e o Laboratório, como modos de encontro em torno da palavra e da presença.


O público acompanha todo o processo como questão em aberto e Maria Giulia refere que a pergunta sobre quem chega a estes encontros - e a partir de que lugares - esteve sempre presente, sem pressupor um público homogéneo ou previamente alinhado com as questões em jogo. Pensar o público implica reconhecer posições desiguais e aceitar que o diálogo se constrói num campo assimétrico, onde o encontro exige escuta, tempo e deslocamento.


Apesar das diferenças formais, Laboratório de Confluências e Ciranda: Saberes respondem à mesma inquietação de fundo: que estratégias de diálogo são possíveis num tempo marcado pela polarização política, pela autocensura e pela disputa permanente de narrativas? Ainda que não existam respostas concretas, Maria Giulia acredita no diálogo como via possível, apesar dos constrangimentos que dele possam advir. “O diálogo verdadeiro dói. Exige sinceridade e a aceitação de que aquilo que dizemos pode ser deturpado”, reconhece a artista, insistindo ainda assim na necessidade de não abdicar desse exercício.


Talvez por isso, o deslocamento mais significativo que estes projetos propõem ao público seja um convite à autorreflexão. Não a adesão a uma tese ou teoria, antes a formulação de perguntas que coloquem o próprio sujeito como ponte para o mundo: quem sou eu neste mapa em movimento, de onde falo e para onde quero ir? E, sobretudo, como levar outros comigo sem apagar as diferenças de percurso?

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

Imagens da exposição "Complexo Brasil" | © Pedro Pina

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

Vista da exposição "Complexo Brasil" | © Pedro Pina

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

©BANTUMEN

Maria Júlia Pinheiro complexo brasil entrevista

©BANTUMEN

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile