MC Luanna estreia-se na Europa e leva a periferia brasileira ao palco do MIL

2 de Outubro de 2026
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MC Luanna | DR

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A música de MC Luanna começou a circular para lá do Brasil e a rapper ainda está a tentar perceber o que isso significa. É a primeira tour internacional da carreira e, segundo a própria, a dimensão do momento ainda não assentou completamente. "Acho que ainda não me dei conta e talvez só consiga ‘cair a ficha’ de fato quando acontecer", diz, sobre a experiência de sair do território onde construiu a sua história e ver essas mesmas músicas a serem recebidas por um público europeu.


Nascida na Bahia, MC Luanna viveu depois a experiência da periferia e está hoje instalada em São Paulo. São geografias diferentes, mas todas deixaram marca na forma como escreve. "A Bahia preparou-me para viver em São Paulo, deu-me a expertise e o olhar cru da vida como ela é", conta. Foi já em São Paulo, a viver em bairros periféricos, que encontrou pessoas que partilhavam a sua linguagem e entendiam as suas dores, uma proximidade que a ajudou a perceber exatamente para quem estava a escrever.


Ser mulher negra e periférica atravessa inevitavelmente a forma como MC Luanna é lida enquanto artista, mas há uma distinção que faz questão de sublinhar entre essas categorias e a pessoa que aparece quando escreve. "MC Luanna é tudo aquilo que eu, como pessoa física, não conseguia ser na minha vida pessoal: a coragem, a fortaleza e, acima de tudo, a verdade. Ser arte é justamente não se moldar para caber." Fora da música, descreve-se como alguém muito tímido, o que a leva a pensar numa espécie de dualidade entre as duas versões de si própria. "Tudo que eu falo nas músicas só consigo expressar nas músicas mesmo. Isso faz-me pensar que muitas vezes sou o próprio público-alvo para as coisas que escrevo", explica.

Essa escrita direta, marcada pela vivência, nasce primeiro da ideia e só depois do som. "Penso muito na forma como quero dizer, sem rodeios e com analogias", conta. O resultado é uma capacidade de construir imagens muito concretas na cabeça de quem ouve, algo que a própria associa tanto à sua experiência de vida como aos livros que lê. "Sinto que o meu superpoder é conseguir escrever situações que as pessoas consigam transformar num audiovisual na própria mente, seja de algo que já viveram ou não", diz, ao situar-se dentro da tradição do rap brasileiro de transformar experiências sociais e políticas em linguagem artística.


Rap, trap e funk convivem no seu trabalho sem que pareça haver necessidade de escolher apenas uma linguagem. Para MC Luanna, essa escolha nasce menos de um plano e mais do ambiente em que a música é feita. "Depende muito da vibe do estúdio, ou do projeto. Em geral, sinto que o beat traz muito aquilo que vou falar naquele momento. Tem instrumental que pede que eu fale sério, outros nem tanto", descreve.

“MC Luanna é uma artista que, com a sua música, salvou mulheres de relacionamentos abusivos”

Mc Luanna

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MC Luanna | DR

Há também uma linha que separa escrever sobre a periferia a partir de dentro de ser transformada numa "voz da periferia" pelos outros, e é uma fronteira que MC Luanna sente resolver a favor de quem a ouve. "Tudo que escrevo acaba dando espaço e voz a outras pessoas que se sentem representadas em cada território que piso. Isso é muito gratificante", afirma. À medida que a audiência cresce, garante que não perde a liberdade de escrever sobre aquilo que quer, sem se moldar às expectativas alheias. "Sou muito fiel ao que quero, porque vivi boa parte da vida sendo o que as pessoas queriam que eu fosse. Ser mulher negra é corresponder a expectativas o tempo todo. Depois que virei MC Luanna, não quis mais esse lugar", diz.


Dentro de uma geração de artistas negros e periféricos brasileiros a conquistar espaço sem abandonar as suas origens, há duas referências que destaca sem hesitar: Tasha e Tracie, a dupla que a inspira, diz, precisamente por defenderem quem são. Sobre a receção que a sua realidade brasileira vai ter junto de um público europeu que nunca viveu essas experiências, MC Luanna não demonstra grande preocupação. "Sempre haverá pessoas que não vão compreender a minha arte. O que importa é eu saber exatamente o que estou a fazer", garante.


Portugal é o ponto de partida desta tour, com uma atuação no MIL, festival dedicado à descoberta e circulação de novos artistas, que decorre entre 7 e 10 de outubro em Lisboa, na Casa Capitão. MC Luanna sobe ao palco a 9 de outubro. "É muito especial e condiz muito com o facto de eu consumir muitos artistas que não são mainstream. É uma honra para mim: conversei com amigas que já passaram pelo festival e falaram-me muito bem", conta. Depois de Lisboa, segue viagem até Paris, a 10 de outubro, Dublin, a 11 de outubro, Porto, a 16 de outubro, e Bruxelas, a 23 de outubro, sendo que ao todo são nove datas já confirmadas e outras poderão ainda ser anunciadas. A quem nunca a tiver ouvido antes de a ver em palco, gostaria que ficasse uma ideia simples: "que é possível transformar a vida vindo de lugares que nos dizem todos os dias que é impossível ser alguém."


A tour coloca ainda a sua música dentro de um circuito mais amplo de artistas de língua portuguesa e da diáspora, uma possibilidade de circulação mais forte entre estas geografias sobre a qual, admite, ainda não tem uma visão formada. Já sobre aquilo que não está disposta a deixar para trás à medida que a carreira ganha uma dimensão internacional, é direta: "Não estou disposta a moldar as minhas verdades e ser quem sou, diminuir-me para caber."


Olhando para o caminho percorrido até aqui, MC Luanna diz que a artista de hoje diria à Luana que estava a começar para confiar no processo e acreditar que tudo vai correr bem, e para aproveitar ao máximo tudo o que for novo e feliz. Quando esta primeira tour terminar, o que deseja é simples: "Quero sentir-me feliz, quero que as pessoas sintam que também podem, e que acreditem mais nelas mesmas." E se tivesse de a apresentar a alguém que nunca ouviu a sua música, sem falar de números, géneros musicais ou títulos, seria assim: "MC Luanna é uma artista que, com a sua música, salvou mulheres de relacionamentos abusivos, trouxe a autoestima de volta a mulheres negras e periféricas, divertiu-se em inúmeros palcos importantes e acreditou nela mesma."

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