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Na primeira edição da MELLA TABLE, realizada no dia 28 de fevereiro, trinta profissionais negros sentaram-se à mesma mesa para responder a uma pergunta central: somos realmente uma comunidade ou apenas indivíduos a coexistir? Para Ana Fernandes Martins, fundadora da Mella Supply e organizadora do evento, o potencial está cá. O desafio agora é transformar reflexão em infraestrutura.
“Antes eu dizia que existia vontade e talento, mas não estrutura”,admite. Foi com essa convicção que Ana convocou a primeira edição da MELLA TABLE. A pergunta era direta e a resposta, depois de horas de conversa entre founders, criativos, advogadas, ativistas, profissionais corporativos e membros da diáspora afro-americana a viver no país, tornou-se mais evidente: “Ficou claro que sim, somos uma comunidade. Todos aceitaram este convite de imediato porque se veem numa comunidade.”
A mesa juntou pouco mais de trinta pessoas de áreas distintas e percursos diversos, PALOP e diáspora afro-americana, empreendedores e profissionais das nove às cinco. Gente que, em muitos casos, nunca tinha partilhado o mesmo espaço. Para Ana, essa diversidade era intencional. “Quis abrir o meu leque e trazer pessoas que nunca tinham estado nos meus eventos. O objetivo era perceber para onde precisamos caminhar.”
Se houve consenso? Houve diagnóstico comum. O que nos trava é “o ego, a mentalidade e a falta de estrutura”. A reflexão foi, por vezes, emotiva, mas ainda assim a empreendedora admite que faltou um plano de ação mais concreto. “Passámos tempo a debater o que era necessário. Mas o momento de ação ficou mais curto do que eu gostaria.” Apesar disso, não deixa de pontuar algo que considera ter ficado definido: comunidade não é só identidade partilhada, “é quando nos conhecemos, confiamos uns nos outros e agimos juntos. Não só quando nos identificamos com a mesma dor.”
A frase que ficou na memória de Ana veio de um dos participantes: “Nós não nos sentamos à mesa o suficiente para comermos juntos.” Para ela, o problema não é ausência de talento nem de vontade. “O potencial está cá. A vontade está cá. O que falta é ritmo” - de encontro, de organização e de ação contínua.

Um dos pontos mais simbólicos do dia aconteceu sem planeamento e por força das circunstâncias: Ana convidou um número considerável de homens negros que, por motivos profissionais, não puderam estar presentes. O resultado? Uma mesa maioritariamente composta por mulheres negras, cada uma com o seu negócio, missão e área de atuação, algo que a leva a acreditar que “o mundo caminha para um mundo de mulheres. E especialmente de mulheres negras.”
Se a identidade ocupou grande parte da conversa, o poder económico não ficou de fora, ainda que, segundo a organizadora, não tenha tido o espaço que desejava. “Era suposto concentrarmo-nos mais no fator económico. Mas a conversa sobre identidade e barreiras demorou mais. Não me arrependo. Era necessário.” Mesmo assim, foi possível chegar a consenso: o maior bloqueio é estrutural e económico. E a solução começa de forma simples. “Começarmos a consumir de nós para nós. Comprar uns aos outros. Contratar uns aos outros. Antes de ir ao Google, perguntar: quem na comunidade faz isto?”
É aqui que a MELLA deixa de se apresentar como evento e se afirma como projeto de infraestrutura. “A MELLA não é uma organização de eventos. É infraestrutura. A TABLE é só uma das peças.” O próximo passo é lançar um ecosystem map, continuar o mapeamento de pessoas, organizações e necessidades. “Quem somos, o que fazemos, o que precisamos, o que podemos dar.” A segunda edição, marcada para abril, terá foco na ação. “Já não vai ser debate. Vai ser table de ação.”
Sem investimento externo, financiado do próprio bolso, o projeto cresce de forma orgânica e deliberada. A ambição, no entanto, é estrutural. “Antes de abrir portas a outros, tínhamos de nos conhecer. Agora queremos trazer corporates e instituições que querem trabalhar connosco, mas não sabem como nos encontrar.”
A pergunta inicial “existe comunidade negra em Portugal?” parece ter sido respondida. Existe. O que falta é estrutura, continuidade e organização económica. A discussão sobre mapeamento, poder económico e infraestrutura cultural começa a ocupar um lugar central no ecossistema negro em Portugal. A questão já não é apenas se somos comunidade. É como a estruturamos para gerar influência, acesso e capital de forma sustentável.
E, como ficou claro naquela mesa, isso não começa com grandes discursos. Começa por sentar, ouvir e decidir agir em conjunto.

Ana Fernandes Martins, fundadora da Mella Supply e organizadora do evento | DR

Ana Fernandes Martins | DR


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