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Michel Zeca Gonzalez nasceu em Cienfuegos, Cuba, em 1995, filho de pai angolano que ali estudava com bolsa. Formou-se entre Cuba e Angola antes de o pai decidir que ele devia aprender português. Em 2012 chegou a Lisboa pela linha de Sintra e foi por essa linha, e pelo que ela divide, que começou a entender a cidade onde escolheu exercer arquitetura.
"Chegar cá, abriu-me um pouco as portas para o mundo", diz. Vinha de um contexto político onde pronunciar-se era algo limitado. Lisboa ofereceu-lhe o contrário: um país com cultura arquitetónica densa, que lhe devolveu uma imagem mais nítida do que queria fazer. Antes de chegar à arquitetura, quis voar. No 12.º ano, quando chegou a hora de decidir, a opção não estava disponível. "Queria ser piloto, não consegui voar." Entrou na Universidade Lusíada em 2013, formou parte do coletivo Os Espacialistas entre 2014 e 2018, colaborou com a revista Arqa como fotógrafo, e cofundou o del medio atelier ainda no ano em que terminou a licenciatura. O nome do ateliê – um espaço interdisciplinar entre arquitetura, arte e design, multicultural, com base em Lisboa – diz em espanhol aquilo que o seu fundador procura no espaço: o meio, o entre, o lugar de passagem e de mediação. O ateliê nasceu já com a prática de concursos públicos como método: uma forma de entrar num meio que não abria portas por si só. "Participámos de querer pronunciar, de querer afirmar-nos", diz. Durante anos, o trabalho passou também por concorrer, insistir e construir uma presença onde não havia antecedentes.
Em dezembro de 2023, a Direção-Geral do Património Cultural lançou o Concurso Público Internacional para o Projeto de Remodelação e Ampliação do Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. Vinte e nove equipas concorreram. O júri concluiu a classificação em julho de 2024 e o consórcio liderado pelo del medio atelier ficou em primeiro lugar.

©BANTUMEN/Nuno Silva
A proposta, desenvolvida em consórcio com o escritório espanhol Baile Menduiña, sob coordenação do arquiteto Luís Manuel Pereira, recebeu 18,35 valores. O júri descreveu-a como caracterizada por grande simplicidade formal, "intencionalmente contida", sem deixar de afirmar a sua contemporaneidade e de conferir ao MNAC "uma identidade individual própria", com uma "acertada relação com o conjunto edificado envolvente". A estrutura do novo volume funcionaria como mediador entre os edifícios históricos, conectando espaços de exposição e áreas de circulação; a base do edifício seria revestida em pedra lioz, material icónico de Lisboa.
Em outubro, num despacho interno da empresa pública Museus e Monumentos de Portugal, o consórcio soube que o projeto não seria executado sem que a MMP apresentasse uma justificativa considerada cabal pelos envolvidos. "Dizer que não se avança por razões de interesse público não chega a ser uma justificação, não nos diz nada", afirmou o arquiteto Luís Manuel Pereira.
Apesar do desaire, para Michel Zeca, a vitória no concurso importou por razões que iam além da escala técnica do projeto. Tinha menos de trinta anos, o ateliê tinha poucos anos de existência, e, sublinhou durante a conversa, nunca antes um arquiteto africano ganhara um concurso de semelhante dimensão em Portugal. "Acaba por dar valor a todo o sacrifício e a todo o esforço que foi ter chegado até esse momento", disse.
Ser arquiteto em Portugal e ser arquiteto africano em Portugal são, na sua perspetiva, duas condições distintas. Portugal tem, como lembra, uma das maiores densidades de arquitetos por habitante na Europa e chegar de fora e querer exercer nesse meio exige um esforço que não se distribui de forma igual. "Não havia grandes ateliers de arquitetos africanos, no meu caso angolanos, cá em Portugal", afirma. A ausência de referências próximas é também uma ausência de espelhos, sobretudo para alguém cujas "referências vêm todas de fora, de outros contextos onde a nossa origem é olhada de outra maneira, interpretada de outra maneira."
A leitura do lugar onde se trabalha estende-se à leitura da cidade. Michel Zeca usa a linha de comboio que divide Lisboa como imagem concreta de uma segregação que a arquitetura tanto pode codificar como questionar. De um lado, os bairros de origem operária e imigrante; do outro, as zonas centrais que a cidade promoveu como habitáveis de outra forma. A arquitetura "molda porque define e estrutura a cidade onde se plantam as próprias sociedades" e faz isso tanto para o bem como para o mal, tanto para abrir como para fechar. A linha de comboio que o trouxe a Lisboa em 2012 é, na sua leitura, também uma fronteira que a arquitetura ajudou a consolidar.
É precisamente contra esse pano de fundo que a vitória no concurso do MNAC ganhou uma dimensão que ultrapassou o ateliê. Após a notícia da premiação, Michel Zeca recebeu mensagens de estudantes angolanos, moçambicanos, guineenses e de outras nacionalidades dos PALOPs. "Foi o primeiro logro: ver estudantes dos PALOPs a felicitar-me, a quererem conhecer-me, a partilharem o seu conhecimento", disse. "Mostrei aquilo que era quase impossível: que estudamos cá, podemos trabalhar aqui, podemos conquistar coisas aqui."
Quando a conversa chega às referências, menciona Álvaro Siza, que conheceu pessoalmente, e arquitetos chilenos e mexicanos. Ao mesmo tempo, faz questão de clarificar que o critério é o lugar que a obra habita e pronuncia, mais do que a pessoa em si. No seu próprio percurso, a identidade cubana e angolana surgem como materiais de trabalho: ser filho de mãe cubana e pai angolano significa carregar no corpo um encontro de origens que a arquitetura pode articular. E essa questão do lugar leva-o, inevitavelmente, a Angola.
Cinquenta anos passaram sobre a independência, e Michel Zeca lê esse tempo como uma maturação: "Acho que neste momento as condições estão criadas do ponto de vista dos profissionais da arquitetura angolana para que se desenvolva uma arquitetura com personalidade e que comece a pronunciar a cultura angolana." A pergunta que coloca a seguir é outra: quando regressar? "Podia ter ido muito mais cedo para Angola, e não fui porque não me sentia com a experiência para poder oferecer algo." O concurso do MNAC funcionou, nesse sentido, como um teste de capacidade para si próprio.
O del medio atelier tem hoje uma equipa multicultural: arquitetos portugueses, espanhóis e outros. Michel Zeca é a figura mais exposta e sabe o que isso significa para quem o observa da diáspora. O que quer construir a seguir vai além da arquitetura e tem como objetivo "tornar o atelier numa espécie de empresa que também é uma academia, um lugar atraente para trabalhar, onde se possam gerar oportunidades para pessoas que queiram fazer parte de uma questão global."
Questionado sobre o que define sucesso, responde com três palavras: saúde, família e trabalho. E acrescenta que o seu maior sucesso até hoje foi "estar a honrar a família e as pessoas que me rodeiam", os que estão presentes e os que não chegou a conhecer. Construir onde nunca houve nenhum dos seus é, também, uma forma de prestação de contas.
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