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Nos últimos dois anos, vários meios internacionais começaram a falar de um fenómeno curioso: a crise de meia-idade da geração millennial. A narrativa ganhou força no Reino Unido e nos Estados Unidos. A geração que, nos seus 20 anos, celebrou a disrupção, a economia de partilha e o desapego à propriedade estaria agora, aos 40, a confrontar-se com uma fatura inesperada. Sem casa própria, sem poupanças robustas, sem a estabilidade que outrora parecia dispensável.
O jornal britânico The Times publicou um inquérito junto de leitores na casa dos 40 anos. Em vez de aventura e libertação de padrões, o desejo dominante era segurança e calma. Uma sensação de estabilidade que muitos admitiam nunca ter experimentado plenamente na vida adulta. Relatórios internacionais, como os da Deloitte, indicam que mais de um terço dos millennials tem dificuldades em pagar despesas mensais básicas, apesar de representarem uma das maiores forças demográficas e económicas globais.
A pergunta torna-se quase inevitável: a geração que rejeitou estabilidade está agora a pagar o preço? Mas quando deslocamos essa narrativa para Portugal e, sobretudo, para millennials da diáspora africana e brasileira a viver no país, a resposta deixa de ser simples. Porque, talvez, a questão não seja se rejeitaram a estabilidade mas se esta alguma vez esteve ao seu alcance.
O salário mediano mensal em Portugal está entre cerca de 1.000 euros e 1.050 euros segundo estimativas de 2025, baseadas em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Eurostat. O salário mínimo nacional fixou-se nos 920 euros. Estes números, isoladamente, podem sugerir progresso face a décadas anteriores, mas quando somados ao custo da habitação e da alimentação, contam outra história.
Nos últimos dez anos, o mercado imobiliário português sofreu uma valorização histórica. Nas duas maiores cidades, Lisboa e Porto, o preço por metro quadrado ultrapassou os 2.000 euros em muitas zonas. Em 2025, o crescimento anual dos preços das casas rondou os 17%. A renda mediana de novos contratos ultrapassa os 7 euros por metro quadrado, com aumentos anuais superiores a 10% em várias regiões.
Em termos práticos, isso significa que uma grande parte do rendimento mensal de um trabalhador médio é absorvida pela habitação. Se juntarmos alimentação, transportes, energia e eventuais despesas com filhos, a margem de poupança torna-se residual.
A chamada crise da habitação em Portugal não começou com os millennials, mas foi esta geração que entrou na vida adulta quando o mercado já estava desregulado, pressionado por investimento estrangeiro, turismo e escassez de oferta acessível. Falar de “rejeição da casa própria” num contexto em que comprar casa exige entrada elevada, estabilidade contratual e rendimentos acima da média pode ser mais mito do que realidade.
Os testemunhos que se seguem mostram que, longe de uma escolha consciente pelo desapego, houve frequentemente uma gestão permanente de constrangimentos. A flexibilidade, tantas vezes romantizada como traço identitário da geração, surge aqui como estratégia de sobrevivência. E a definição de “viver bem” afasta-se de ambições abstratas para se concentrar no essencial: segurança mínima, previsibilidade, ausência de sobressaltos.
I. Araújo, nasceu em 1990, vive em Lisboa e trabalha como assistente de contabilidade. Cresceu com uma mãe imigrante e solteira, habituada a acumular vários empregos. Para ela, estabilidade nunca foi sinónimo de conformismo. “Sempre foi prioridade. Se algo acontecesse, eu queria poder contribuir e ser o suporte.”
Aos vinte anos, imaginava-se financeiramente estável, com casa própria e a vida organizada. Hoje, aos 36, gosta do que faz, mas reconhece que muitos desses marcos ainda não foram atingidos. Não por falta de ambição, mas porque o caminho é mais lento e mais caro do que previa.
Quando lhe perguntam o que significa viver bem, a resposta é quase minimalista: saúde, casa com condições mínimas, água, eletricidade, comida no prato. Num país europeu em 2026, definir sucesso nesses termos diz muito.
Por outro lado, M. Azambujo, nascido em 1989, músico, também residente em Lisboa, traz outra camada à conversa. Cresceu num contexto em que chegar aos 40 não era garantido. Depois de viver entre o Reino Unido e Angola, enfrentou dificuldades de integração em Portugal e barreiras formais no mercado de trabalho. “A falta de diploma não permite sequer que alguém tenha uma oportunidade.” A estabilidade material só começou a surgir cerca de dez anos depois do início da vida laboral. Ou seja, não houve rejeição consciente do modelo tradicional mas sim uma exclusão de estruturas que continuam a privilegiar percursos formais e lineares.
Num país onde a mobilidade social é historicamente baixa, ser migrante ou filho de migrantes acrescenta complexidade. Redes de contacto limitadas, reconhecimento desigual de competências, discriminação implícita ou explícita no acesso a oportunidades. Para muitos millennials racializados em Portugal, a flexibilidade foi resposta à ausência de portas abertas.
A terceira história é de L. Lins, uma mulher nascida em 1986, mãe de três crianças, e residente na Amora, no Seixal. Trabalha em atendimento ao cliente e teve um negócio próprio de jóias personalizadas que hoje está em pausa. Aos 20, acreditava que esforço e dedicação seriam suficientes para garantir casa própria e estabilidade financeira. Migrou, recomeçou profissionalmente várias vezes e conciliou maternidade com trabalho. “Aos quase 40, não tenho a estabilidade material que imaginava, mas tenho uma maturidade emocional que nunca teria conseguido projetar.”
Hoje define viver bem como não viver em alerta constante, conseguir pagar a renda sem ansiedade, ter comida tranquila em casa e garantir tempo de qualidade com os filhos. A autonomia profissional, que antes simbolizava liberdade criativa, passou a ser avaliada sob outra lente.
A narrativa internacional tende a sugerir que os millennials escolheram experiências em vez de segurança. Contudo, quando a parentalidade entra na equação, o discurso muda e as decisões tornam-se estratégicas e menos românticas. O conceito de “geração sanduíche” refere-se a adultos que sustentam simultaneamente filhos e pais idosos. Em contexto migrante, essa pressão pode ser ainda maior.
No caso dos nossos entrevistados, a assistente de contabilidade organizou a vida profissional em função dos cuidados à avó dependente, sendo que precisava de estabilidade para garantir despesas médicas e imprevistos. No caso do músico, embora sem filhos, sente-se responsável por 12 irmãos, pois quer ser referência, apoio e porto seguro. Já a mãe de três filhos, estrutura as escolhas laborais em função da segurança e dos horários compatíveis com a família.
Mas há mais, a carga não é só económica, é também emocional e cultural. Representa uma responsabilidade ampliada pela experiência migrante, pela consciência de pertença e pela necessidade de honrar trajetórias familiares. Na diáspora, o sucesso quase nunca é visto como algo individual. Quando alguém “vence”, sente que está a representar muita gente ao mesmo tempo, e que falhar não é só falhar consigo, é falhar com toda uma trajetória que veio antes.
A geração millennial cresceu sob a promessa de que formação, esforço e mobilidade seriam suficientes para garantir estabilidade. Em Portugal, essa promessa foi confrontada com austeridade pós-2008, desemprego jovem elevado, precariedade persistente e, mais recentemente, inflação e crise habitacional.
Os dados confirmam que o esforço individual nem sempre se traduz em segurança proporcional. Salários médios estagnados face a custos de vida crescentes criam um ambiente onde a estabilidade exige cada vez mais capital inicial, rede de apoio e margem de erro.
Os três testemunhos não revelam arrependimento absoluto mas acreditam que um ajuste nas estratégias poderia ser a chave para a mudança. Comprariam casa mais cedo, investiriam mais em formação, organizariam melhor as finanças, mas não renegam o percurso. “Eu mudaria estratégia, não mudaria quem eu sou”, disse-nos L. Lins. “Se a vida é sobre aprendizagem, os que mais chumbam mais aprendem”, acrescentou I. Araújo.
Isto desmonta a ideia de uma geração perdida ou cínica. O que aparece é uma geração consciente das limitações do sistema, mas ainda empenhada em construir estabilidade possível.
Ainda assim, reduzir a crise millennial à consequência de escolhas individuais ignora o contexto português das últimas duas décadas. Sim, houve romantização da flexibilidade em certos círculos. Mas para muitos, sobretudo na diáspora africana e brasileira, a estabilidade nunca foi rejeitada. Pelo contrário, foi sempre desejada.
Comprar casa em Lisboa hoje exige rendimentos muito superiores aos praticados no início dos anos 2000. Arrendar consome uma fatia crescente do salário. A progressão profissional nem sempre acompanha o aumento do custo de vida. Talvez a pergunta mais honesta não seja se esta geração está a pagar pelo que escolheu. Talvez seja: que margem de escolha tiveram realmente?
Em Portugal, especialmente na intersecção entre juventude, identidade negra, migração e classe, a chamada crise de meia-idade millennial parece menos um drama de escolhas erradas e mais um retrato de um país onde o esforço já não garante segurança proporcional. É a exaustão de quem sente que está sempre a correr atrás de uma meta que muda de lugar. E talvez seja aí que reside a verdadeira história: não numa geração que rejeitou estabilidade, mas numa geração que continua a persegui-la num sistema cada vez mais estreito.
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