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Três em cada quatro profissionais das artes performativas que responderam ao primeiro estudo científico sobre assédio laboral no setor em Portugal disseram já ter vivido assédio moral, e cerca de metade assédio sexual. Sete meses depois de apresentar estes números, o projeto MUDA quer transformá-los em prática. De 7 a 9 de novembro, reúne na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o diretor-geral das Artes, o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, inspetoras do trabalho, juristas, sindicalistas, investigadoras e artistas para discutir como prevenir e responder a um problema que o meio conhecia sobretudo por testemunhos informais. O encontro, de entrada livre, marca também o lançamento do primeiro manual prático sobre o tema e a estreia de uma ação de formação para profissionais e estudantes.
O estudo, apresentado em março, ouviu 611 profissionais e mostrou que mais de 80% nunca apresentou queixa, sobretudo por falta de provas e por medo de não ser acreditado. As situações relatadas envolvem sobretudo quem ocupa cargos de chefia ou direção artística, num setor marcado por vínculos instáveis, em que a prestação de serviços é o regime mais comum entre os inquiridos. O projeto, coordenado por Catarina Vieira, Raquel André e Sara de Castro, nasceu de um movimento iniciado em 2018 por um grupo de mulheres do meio artístico, entre diretoras, produtoras e atrizes, que começou a reunir-se para discutir a igualdade de género na profissão.
Na apresentação do estudo, o diretor-geral das Artes, Américo Rodrigues, admitiu-se surpreendido com a dimensão do fenómeno e defendeu que a relação entre precariedade e assédio deve chegar ao poder político. “Agora há informação credível e informada. Antes havia perceção”, disse então. É com ele que arranca o encontro, no sábado às 10h30, numa conversa que volta ao diagnóstico para o confrontar com quem tem poder de decisão. Partilha a mesa com a investigadora Dália Costa, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e coautora do estudo, com a inspetora Sofia Nabais, da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), e com Margarida Barata, da direção do sindicato CENA-STE. Com moderação do coreógrafo David Marques, a mesa vai procurar perceber o que expõe quem trabalha no setor ao assédio, como as pessoas se protegem e de que forma a precariedade se cruza com o problema.
À tarde, a conversa “Impactos do Assédio Laboral” desloca o foco para as pessoas. A socióloga Anália Torres, a jornalista Mariana Duarte, a coreógrafa e investigadora Vânia Gala e a psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen, autora de Le harcèlement moral, la violence perverse au quotidien, publicado em 1998 e uma das obras de referência sobre o tema, discutem os efeitos do assédio na saúde mental, o papel das escolas, onde muitas destas relações começam, e a exposição pública própria da profissão, que tanto pode proteger como fragilizar quem denuncia. Modera a artista visual e investigadora Teresa Projecto. O dia fecha às 16h30 com a apresentação do Manual prático para prevenir e agir sobre o Assédio Laboral nas Artes Performativas e os Cruzamentos Disciplinares, conduzida pelo poeta André Tecedeiro, com a equipa que o concebeu, Catarina Vieira, Raquel André, Sara de Castro, Dália Costa, Josefa Pereira e Pat Cividanes. O documento explica como funcionam o assédio moral e o sexual no trabalho artístico e chega a um meio em que o estudo identificou uma perceção generalizada de desconhecimento sobre o assunto.
Domingo é dedicado à responsabilidade de quem dirige. Às 10h30, Joana Pinto Coelho, da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, Pedro Penim, do Teatro Nacional D. Maria II, e Rui Lopes Graça, diretor dos Estúdios Victor Córdon, debatem com a coreógrafa Diana Niepce o papel das instituições e a forma de reparar danos do presente e do passado. A partir das 14h, a conversa “Recomendações do estudo, do conhecimento à prática” discute como pôr no terreno as propostas do relatório, da criação de uma comissão independente e de linhas de denúncia confidenciais à formação específica de inspetores e a módulos sobre consentimento e direitos laborais nas escolas de artes. Participam Cidália Rito, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), Maria Vlachou, da Acesso Cultura, a poeta e investigadora Raquel Lima, cofundadora da UNA, União Negra das Artes, e Ita O’Brien, fundadora da Intimacy On Set e coordenadora de intimidade em séries como “Normal People” e “I May Destroy You”. A presença dela ganha peso porque o estudo propõe que esta figura, já comum no cinema, passe a existir também nas artes performativas. A cantora Lila Vivo, do projeto Fado Bicha, modera. Às 16h30, Maria Giulia Pinheiro apresenta Amar e Mudar as Coisas me Interessa Mais, uma reflexão performativa sobre o próprio encontro que a autora descreve como um brinde e um convite a fazer circular aquilo que se aprendeu a calar.
Na segunda-feira, das 14h às 18h, decorre a Formação MUDA, com quatro módulos que vão da definição de assédio laboral à forma de agir enquanto vítima, testemunha ou responsável de uma estrutura. Gratuita e limitada a 16 participantes, foi desenhada com a consultoria da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e teve inscrições até 25 de outubro.
O encontro decorre de 7 a 9 de novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com entrada livre. A APAV vai ter uma Sala de Conforto aberta durante os três dias, onde quem assistir pode recorrer a apoio psicológico a qualquer momento. As conversas, o lançamento do manual e a formação têm interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP) e tradução simultânea para inglês. O evento é financiado pela Direção-Geral das Artes (DGArtes), pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação GDA.
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