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A Columbia University, em Nova Iorque, recebeu MWANGOLA | Música Revolucionária, um projeto curatorial de arquivo dedicado à música angolana das décadas de 1960 e 1970, apresentado como parte integrante das lutas anticoloniais e dos processos de construção de memória coletiva no período que antecedeu a independência de Angola. A mostra esteve patente entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Concebida pela designer arquitetónica e diretora criativa angolana Gelmira Gourgel, a exposição resulta de um trabalho de investigação em arquivo centrado na música enquanto prática cultural e instrumento político. Em entrevista à BANTUMEN, a curadora sublinha que uma parte significativa da juventude angolana, tanto no país como na diáspora, possui um conhecimento limitado deste período histórico, em particular no que respeita ao papel da produção musical no processo de libertação. “Muitos jovens não conhecem esta história ou têm uma perceção muito restrita daquilo que foi a luta de libertação do povo angolano”, afirma ao explicar que o projeto surge da necessidade de repensar a forma como estas narrativas são organizadas e transmitidas.
O recorte cronológico nas décadas de 1960 e 1970 responde à centralidade desse período na música popular angolana, num contexto em que a produção musical assumiu uma função pedagógica e mobilizadora. “Foi um momento muito específico, em que a música era feita por angolanos para angolanos, com a intenção de educar o povo e os jovens a pensarem numa Angola independente de Portugal”, refere Gourgel. Artistas como David Zé, Artur Nunes, Bonga ou Liceu Vieira Dias são apresentados a partir desse enquadramento pelo seu percurso artístico e pelo papel que desempenharam na tradução de conteúdos políticos complexos para linguagens acessíveis ao quotidiano, muitas vezes inscritas no semba e noutros géneros populares.

©Tyler H

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Ao deslocar o foco para os sistemas que permitiram a circulação desta música e das ideias que transportava, a exposição afasta-se de uma leitura centrada exclusivamente nas figuras individuais. A Rádio Nacional de Angola (RNA), a prensagem e distribuição de discos de vinil, as transmissões clandestinas e as festas domésticas de quintal surgem como infraestruturas decisivas na disseminação de mensagens políticas e na articulação de redes sociais. Segundo a curadora, compreender estes circuitos é essencial para perceber “como sistemas herdados do colonialismo foram reapropriados pelos angolanos e utilizados contra o próprio aparelho colonial”.
A RNA assume particular relevância neste contexto, enquanto meio de difusão que permitiu alargar o alcance da música revolucionária a diferentes regiões do país, funcionando como plataforma de circulação cultural num ambiente marcado pela censura e pela repressão. A par da rádio, os discos de vinil e as transmissões informais garantiram a continuidade dessas mensagens, muitas vezes fora dos canais oficiais, reforçando a dimensão coletiva do processo de resistência.
A apresentação de MWANGOLA num contexto universitário norte-americano implicou um trabalho de tradução histórica e cultural. Embora parte do público estivesse familiarizada com episódios como a guerra civil angolana ou com o posicionamento geopolítico do país durante a Guerra Fria, a ligação entre esses processos e a música produzida no mesmo período nem sempre era evidente. “Muitas pessoas conheciam essa parte da história, mas nunca tinham feito a ligação com a música”, observa Gourgel, que explica também que a exposição procurou estabelecer essa relação de forma direta, sem dissociar a produção cultural do seu contexto político.
A escolha de Nova Iorque como local de apresentação acrescenta uma camada simbólica e política ao projeto. Para além de se tratar de um dos principais centros académicos e culturais dos Estados Unidos, a cidade ocupa um lugar central nas discussões contemporâneas sobre colonialismo, escravatura e diáspora africana. Segundo a curadora, apresentar o projeto neste contexto permite confrontar leituras dominantes que tendem a suavizar a história colonial europeia, num espaço onde Portugal é frequentemente percecionado como um país “amigável”, sem que sejam problematizadas as violências exercidas sobre as populações colonizadas.

©Tyler H

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Um dos eixos do projeto passa pela problematização da leitura contemporânea da música revolucionária. Para muitos angolanos, estas canções integram hoje a esfera da memória cultural e afetiva, desligadas do seu conteúdo político original, em grande medida devido à perda de compreensão das línguas nacionais em que foram escritas. Essa deslocação de sentido é ilustrada, na exposição, através de canções amplamente conhecidas do repertório angolano, como "Mona Ki Ngi Xica", de Bonga, recentemente adotada como banda sonora da campanha da Bugatti. Embora hoje seja frequentemente escutada como um clássico da música angolana, a canção remete para a experiência do exílio forçado, a violência da guerra e o risco de exploração externa do país. Gelmira Gourgel refere que só durante o trabalho de investigação para MWANGOLA tomou plena consciência do conteúdo político da letra, sublinhando como a barreira linguística contribuiu para o esvaziamento do seu significado original no contexto contemporâneo.
O projeto estabelece ainda pontes com a produção musical angolana atual, interrogando de que forma as mensagens políticas continuam a circular no presente. A curadora aponta o exemplo de "Money", de Cleyton M, ao evidenciar a forma como a canção combina uma melodia e uma coreografia amplamente difundidas nas redes sociais com referências diretas a questões socioeconómicas contemporâneas em Angola. Para Gourgel, estes formatos digitais podem ser entendidos como herdeiros, em chave distinta, dos antigos sistemas de circulação da música revolucionária, levantando novas questões sobre os modos de transmissão da crítica social.
O semba atravessa toda a exposição enquanto género musical e enquanto arquivo de identidade coletiva. A sua circulação internacional, impulsionada por vários artistas, contrasta com as dificuldades persistentes na tradução e compreensão das mensagens originais. Ainda assim, o projeto sublinha o papel central deste género na construção da memória cultural angolana, mesmo quando o seu significado político não é plenamente reconhecido pelas gerações mais recentes.
As festas domésticas de quintal ocupam um lugar específico no percurso expositivo ao surgir como espaços informais de criação, sociabilidade e resistência num contexto de repressão colonial. Gourgel recorda que, durante o período colonial, muitas práticas culturais eram proibidas, o que levou estes encontros a assumirem uma função dupla: preservação cultural e organização política informal, associada, em vários casos, à atividade de militantes dos movimentos de libertação.
Questionada sobre eventuais tensões entre rigor histórico e liberdade criativa, a curadora rejeita a ideia de conflito entre as dimensões. Pelo contrário, defende que a abordagem criativa foi determinante para tornar o arquivo acessível e relevante para públicos contemporâneos. Ao afastar-se de uma apresentação exclusivamente cronológica ou documental, MWANGOLA procurou criar condições para um envolvimento mais atento e reflexivo com os conteúdos históricos, sem comprometer a fidelidade aos contextos que lhes dão origem.
A materialização curatorial da exposição assenta na ideia de reunião comunitária e a instalação central, concebida sob a forma de uma mesa — Mwangola Infrastructure — propõe uma experiência coletiva de escuta e partilha, evocando os modos de encontro que estiveram na base da circulação destas músicas e ideias. A opção responde à complexidade do material de arquivo reunido e à necessidade de o apresentar sem recorrer a uma narrativa linear ou exclusivamente expositiva.
A exposição abre igualmente caminho a possíveis desenvolvimentos futuros. Segundo Gelmira Gourgel, o trabalho em arquivo reunido poderá vir a ter uma extensão digital, pensada como forma de ampliar o acesso aos conteúdos, em particular junto de públicos mais jovens, tanto em Angola como na diáspora. A curadora sublinha que essa hipótese decorre da própria natureza do projeto, construído a partir de materiais dispersos e de sistemas históricos de circulação da música, cuja leitura não se esgota no espaço expositivo.

©Tyler H

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