"Amar-me é a maior revolução que conheço", NandaTsunami

3 de Setembro de 2026
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NandaTsunami na sua primeira tour europeia | ©BANTUMEN

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Num mundo em que a vulnerabilidade continua, demasiadas vezes, a ser interpretada como fraqueza, sobretudo quando falamos de jovens artistas que procuram conquistar espaço numa indústria que nem sempre lhes reconhece o devido valor, Fernanda Xavier Ferreira Santana escolhe fazer precisamente o contrário. NandaTsunami, nome pelo qual se tornou conhecida, não parece interessada em esconder as partes de si que poderiam ser consideradas demasiado íntimas, demasiado espirituais ou demasiado humanas para caberem naquilo que se espera de uma rapper. A terapia, a espiritualidade, a sensualidade, a feminilidade e a constante vontade de se compreender melhor aparecem na sua música e na forma como se apresenta ao mundo, na sua totalidade.


Nascida e criada no centro de São Paulo, Nanda tem 26 anos e sonha em ser artista desde criança. A sua relação com a música foi-se tornando, entretanto, uma plataforma para falar sobre aquilo que a completa, mas também para questionar as estruturas que determinam quem pode ocupar determinados espaços, como se deve apresentar e, sobretudo, aquilo que se espera que uma mulher negra seja capaz de representar.


Como contou numa entrevista à Rolling Stone Brasil, o nome artístico nasceu de um verso da música "Angra dos Reis", de MC Daleste, funkeiro que se tornou conhecido durante os anos 2010 e que morreu em 2013, depois de ser baleado num show. "Se eles tiram onda, eu tiro tsunami" transformou-se, para Nanda, numa identidade que acabou por ganhar uma dimensão própria. Hoje, o tsunami que leva no nome já ultrapassou as fronteiras da América Latina e encontra outros públicos, outras geografias e outras oportunidades para o rap brasileiro.


Quando olha para o caminho percorrido até aqui, Nanda explica à BANTUMEN que não descreve a sua carreira como uma sucessão perfeitamente organizada de acontecimentos. A vida desenrola-se numa caminhada feita de momentos em que alguma coisa muda de escala e, de repente, aquilo que parecia distante passa a estar ao seu alcance, literalmente na palma da mão. No início do ano passado, conta, leu um livro que falava sobre saltos quânticos e encontrou nessa ideia uma imagem que lhe parece particularmente adequada para compreender a própria trajetória.


"Acredito que a minha caminhada é assim. É uma jornada que nos leva de passos e, eventualmente, a saltos. E acho que foi isso que aconteceu. Tive alguns momentos decisivos em que muitas coisas mudaram na minha vida e à minha volta, e que hoje revejo como esses mesmos saltos quânticos", conta Nanda.

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NandaTsunami na sua primeira tour europeia | ©BANTUMEN

Entre esses momentos, há a vitória no Open Verse do Niink, que lhe abriu a possibilidade de realizar “P.I.T.T.Y” e, posteriormente, em Victory Lap, e que Nanda recorda como uma das primeiras ocasiões em que um público mais alargado teve oportunidade de perceber a sua fome artística. Mais do que o reconhecimento de uma vitória, aquele momento mostrou-lhe que havia espaço para aquilo que estava a construir e que a sua juventude não significava falta de ambição.


A artista recorda: "Foi uma das primeiras vezes em que as pessoas viram que, apesar de ser nova, eu era voraz e estava com sede de fazer as coisas."


Depois veio o lançamento do álbum, um momento que permanece particularmente vivo na sua memória. Durante a audição, houve um instante em que parou para absorver o que estava a acontecer e percebeu que alguma coisa tinha mudado definitivamente. "Sinto que, na noite de lançamento, na audição, houve um momento em que parei e senti que, a partir dali, nada seria igual", diz.


A memória daquele dia, no entanto, não está desligada de uma experiência pessoal que, à época, lhe ocupava muito mais espaço do que qualquer reflexão sobre carreira. No próprio dia do lançamento de "P.I.T.T.Y", Nanda tinha acabado de sair de uma relação e estava emocionalmente devastada. Precisava, ainda assim, de aparecer perante o público, porque tinha uma comunidade que já a acompanhava e porque o lançamento exigia uma presença que nem sempre coincide com aquilo que estamos a viver internamente.


A artista revela: "Lembro-me que ia gravar uma live para o YouTube para falar sobre o lançamento, porque já tinha uma fan base sólida, embora fosse uma proporção completamente diferente. Na altura, lembro-me de estar toda chorosa, mas pensei que, se essa pessoa achava que me amar até agora era difícil, agora ia ficar pior ainda."


Hoje, conta a história entre risos, consciente do contraste quase absurdo entre a tristeza daquele momento e aquilo que estava prestes a acontecer. Quando revisita a cena, parece-lhe quase uma sequência cinematográfica, porque aquela ruptura pessoal acabou por coincidir com uma transformação profissional. "P.I.T.T.Y" viria a tornar-se uma das músicas que mudaram a sua vida e, retrospetivamente, aquele dia passou a representar exatamente aquilo que Nanda entende por um salto.


É também por isso que lhe custa definir o rap numa única palavra. A rapper reconhece que tende a alongar-se nas respostas e ri-se da dificuldade de condensar um género tão amplo numa definição. Ainda assim, depois de pensar no assunto, escolhe uma palavra: "transformador".


A transformação que vê no rap está profundamente ligada ao espaço que as mulheres têm vindo a conquistar dentro do movimento. Para Nanda, a música tem uma capacidade particular de alcançar pessoas porque não exige necessariamente que todos tenham as mesmas ferramentas ou o mesmo percurso para poderem participar. O rap, sobretudo através da rima, permite-lhe expressar-se mesmo sem se considerar uma cantora.


"A arte e a música são ferramentas muito poderosas para conseguir mudanças e tocar as pessoas de uma forma única. E como é que o rap entra nisso? O rap é um estilo musical que conseguimos fazer de várias formas. Não canto. Sei rimar, mas não sei cantar. No entanto, no rap tenho a oportunidade de me expressar através da rima, mesmo não sendo alguém com grandes habilidades técnicas, quer seja de canto ou de voz", explica Nanda.


É nessa possibilidade de entrada que encontra uma das grandes forças do género, porque o rap consegue criar espaço para pessoas que talvez não se reconhecessem noutros formatos musicais e, ao fazê-lo, permite que novas experiências, linguagens e perspetivas cheguem ao centro da conversa. Para a rapper, quanto mais pessoas conseguirem encontrar uma forma de se expressar, maior é também a possibilidade de a música se transformar num canal de mudança.

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NandaTsunami na sua primeira tour europeia | ©BANTUMEN
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NandaTsunami na sua primeira tour europeia | ©BANTUMEN

Essa necessidade de criar espaço acompanha-a desde São Paulo, embora hoje o seu olhar esteja inevitavelmente condicionado pela experiência de ter saído da realidade em que cresceu. A artista descreve o centro da cidade como o lugar que durante muito tempo conheceu como o seu mundo inteiro e admite que, antes de viajar, chegou a imaginar que a sua vida poderia passar por continuar a trabalhar na região da 25 de Março, ter uma vida relativamente previsível e não necessariamente descobrir tudo aquilo que existia para lá do que conhecia.


A experiência internacional, sobretudo a passagem pela Europa e o tempo vivido em Portugal, alterou essa perceção de forma definitiva. Diz a artista: "Existem lugares que tu nunca sonhas em conhecer." Explica que conhecer o mundo também significa descobrir possibilidades que anteriormente nem sequer eram consideradas e que viajar a obrigou a compreender que não precisava de dar o mesmo peso à opinião de todas as pessoas. Quando se sai de um lugar onde somos rodeados por pessoas que conhecem a nossa história e passamos a circular por espaços onde somos, para a maioria, uma desconhecida, a relação com a própria imagem muda. "Saímos de uma realidade onde estamos com amigos e pessoas que nos amam e que nos conhecem para uma realidade em que a maioria das pessoas não nos conhece realmente e talvez também não goste de nós", afirma.


É uma experiência que Nanda tem aprendido a gerir enquanto continua a trabalhar em terapia aquilo que reconhece como uma tendência antiga para agradar aos outros. Durante muito tempo, explana, foi uma people pleaser, alguém que procurava constantemente corresponder às expectativas alheias e que acabava por colocar a perceção dos outros acima da própria. A terapia tornou-se uma ferramenta para desaprender esse comportamento e para perceber que crescer também significa aceitar que nem toda a gente precisa de gostar de nós.


Ao mesmo tempo, a expansão da sua carreira ensinou-lhe que aquilo que trazemos dentro de nós pode ser reconhecido por pessoas que vivem experiências completamente diferentes. Uma ideia, uma insegurança ou uma memória que parecem exclusivamente nossas podem, afinal, encontrar eco noutra pessoa do outro lado do mundo. Para a rapper, essa capacidade de criar identificação é uma das maiores validações possíveis para aquilo que faz.


Reflete: "Percebi que aquilo que temos dentro de nós é importante e [também pode ser um dom], porque trazemos coisas dentro de nós que podem ser reconhecidas e que nos permitem conectar com outras pessoas que estão do outro lado do mundo e têm vivências completamente diferentes das nossas."


Mas quanto mais longe vai, mais importante se torna regressar. São Paulo continua a representar esse lugar de familiaridade onde não precisa de ser NandaTsunami para existir. É o espaço onde pode voltar a estar simplesmente em casa. "Não importa onde tu fores, tu terás sempre um lugar onde ficar descalça, descabelada, e que acaba por ser aquele lugar onde podes recarregar para voltar a viver essas experiências e entregar mais de nós mesmos ao mundo", diz-nos a artista.


Essa relação entre o mundo interior e aquilo que se mostra ao exterior também atravessa a sua relação com a moda. Sem muitos rodeios ou papas na língua, Nanda conta-nos que a sua imagem não é apenas uma questão estética, porque aquilo que veste, a forma como se movimenta e os elementos que escolhe levar para o palco podem transportar consigo as suas crenças.


A espiritualidade ocupa um lugar central nessa construção. Nanda tem uma relação forte com o hinduísmo e fala dos mudras, gestos simbólicos realizados sobretudo com as mãos e os dedos e associados a práticas de meditação e yoga, como uma ferramenta que a acompanha há muito tempo. Existe, aliás, uma ligação que hoje lhe parece evidente entre essa prática e a forma como sempre utilizou as mãos para se expressar. Aquilo que em criança poderia parecer apenas uma característica corporal passa a ganhar outro significado quando compreende o papel dos mudras na respiração, na meditação e na capacidade de recentrar o corpo.


Na moda, procura levar essas crenças consigo, transformando aquilo que acredita numa linguagem visual. "Tento trazer essas mesmas crenças que tenho para o exterior, para que as pessoas me vejam e entendam quem é que eu carrego comigo e quais são essas energias que me dão força para fazer o que faço", afirma.


É uma forma de afirmar que a revolução também pode acontecer através daquilo que escolhemos mostrar. E, para ela, revolução não é necessariamente uma palavra associada a grandes acontecimentos ou discursos históricos. Começa muito antes, no modo como cada pessoa se relaciona consigo própria.


No que toca à mudança, pensa no quotidiano, nas pequenas decisões e nos hábitos que vão alterando a forma como ocupamos o mundo. A sua relação com a manifestação e com a lei da atração, por exemplo, também emerge como algo muito além de uma tendência que encontrou nas redes sociais. A artista acredita que existe valor em começarmos por acreditar que merecemos tratar-nos melhor, porque aquilo que acontece dentro de nós acaba inevitavelmente por afetar a forma como nos relacionamos com os outros. "Se começarmos por ter bons hábitos em relação a nós mesmos, no micro, isso vai progredindo para um lugar em que, numa escala maior da vida, acaba por afetar todos à nossa volta", diz.

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NandaTsunami na sua primeira tour europeia | ©BANTUMEN

A sua maior revolução pessoal, contudo, foi perceber que o auto-ódio é real e que muitas vezes está tão normalizado que só conseguimos reconhecê-lo depois de começarmos a trabalhar sobre nós próprios. Essa descoberta levou-a a questionar o seu lugar no mundo para além da artista e a compreender que não precisava de controlar a transformação dos outros para contribuir para uma mudança coletiva. "O que tu mudas na tua vida, o poder de te amares e seres melhor para contigo mesmo, isso muda tudo à nossa volta. A energia que carregas contigo acaba por mudar e, pouco a pouco, tu também", afirma.


É neste ponto que espiritualidade e autopreservação se encontram. Amar-se, para Nanda, é uma prática que exige trabalho e que pode ser profundamente revolucionária num mundo que tantas vezes ensina as mulheres negras a fazerem o contrário. "Eu posso dizer que nos amarmos acaba por ser a maior revolução porque, no final do dia, é a única coisa sobre a qual temos controlo: nós mesmos. Tudo pode ruir, mas no final do dia ainda me tenho a mim mesma", remata Nanda.


Essa consciência também aparece na própria música. Em "P.I.T.T.Y", através de um beat que nos leva atrás no tempo e até a "P.I.M.P" de 50 Cent, Nanda redefine a narrativa e canta sobre a tentativa permanente de melhorar, sobre meditação, Ho'oponopono e alinhamento dos chakras, mas também sobre os momentos em que toda essa disciplina desaparece e resta apenas a vontade de mandar tudo para o inferno e agir como os homens que tantas vezes critica. Criando assim a vontade de admitir que transformação não significa deixar de ser contraditória, porque no fim do dia, ninguém é perfeito.


Quando olha para o futuro do rap feito por mulheres negras no Brasil, Nanda acredita que é precisamente essa pluralidade que deve continuar a ser protegida. Independência financeira, propriedade intelectual, saúde mental, espiritualidade e formação política são, para ela, dimensões diferentes de uma mesma luta por autonomia.


Ainda assim, existe uma preocupação que considera urgente, o enfraquecimento de determinadas pautas políticas entre parte da geração mais jovem. A rapper observa uma mudança entre uma geração que cresceu com referências progressistas e feministas e uma juventude que, em alguns espaços, parece cada vez mais atraída por discursos anti-woke, de direita e conservadores.


"Sinto que a nossa geração poderia estar a avançar muito mais nesse sentido", afirma, defendendo a necessidade de continuar a falar sobre racismo, violência de género, direitos LGBT e responsabilidade coletiva, sem permitir que essas conversas desapareçam por se tornarem desconfortáveis.


Ao mesmo tempo, não olha para o futuro exclusivamente com preocupação. O oposto acontece. A artista encontra esperança precisamente nas diferentes mulheres que hoje ocupam o rap brasileiro e que estão a construir discursos distintos a partir dos seus próprios lugares. Duquesa fala sobre independência financeira, Ajulia Costa assume uma dimensão mais política e Ebony representa, para Nanda, uma força particular no debate sobre empoderamento feminino.


Não existe, portanto, uma única forma de fazer política através da música. Para Nanda, a pluralidade de vozes é precisamente aquilo que permite que o movimento continue a crescer.


É essa mesma ideia de pluralidade que aparece quando imagina quem poderá ouvi-la daqui a vinte anos. A artista pensa logo numa rapariga negra de 15 anos que talvez nunca tenha ouvido falar dela e que, ao encontrar uma das suas músicas, reconheça alguma coisa de si própria. "Gostaria que ouvissem o meu som e fossem instantaneamente levadas a uma observação dos próprios pensamentos. Um déjà-vu", diz.


A música, para Nanda, nasceu também dessa sensação de descobrir que os próprios pensamentos não são necessariamente solitários. Aquilo que parecia exclusivo, difícil de explicar ou até demasiado íntimo pode ser partilhado por alguém que vive do outro lado do mundo. É essa sensação de reconhecimento que gostaria de deixar em quem a ouve, sobretudo nas mulheres.


A rapper acredita que as mulheres foram, durante demasiado tempo, condicionadas a competir e a separar-se umas das outras, sem perceberem que muitas das suas experiências são universais. As diferenças existem, naturalmente, mas também existe uma dimensão coletiva na experiência de ser mulher que pode aproximar pessoas que nunca se encontraram.


Por isso, quando pensa naquela adolescente que poderá ouvir NandaTsunami daqui a duas décadas, a artista não quer necessariamente que ela encontre respostas. Quer que encontre companhia e que perceba que aquilo que sente não é uma experiência isolada. "Eu quero que ela sinta que não está sozinha. Já houve uma menina, eu, Nanda, a sentir o mesmo que ela, há muito tempo", remata a artista.


Entre a terapia e a espiritualidade, entre o rap e a moda, entre São Paulo e os palcos internacionais, NandaTsunami continua a construir uma carreira que parece interessar-se menos por responder à pergunta sobre quem deve ser e mais por explorar quantas versões de si própria ainda pode conhecer. A sua força encontra-se na disponibilidade para continuar a questionar-se, mudar de opinião, reconhecer contradições e transformar essas descobertas em matéria artística.

O tsunami, afinal, não precisa de destruir tudo para ser poderoso. Às vezes, basta mudar a direção da água e obrigar-nos a olhar para aquilo que estava escondido.

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