"O meu corpo negro na cena é um corpo político”, Naruna Costa

31 de Maio de 2026
naruna costa entrevista
© Nikolle Kruger

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O pai cuidava dos animais a cantar de um lado da casa. A mãe respondia do outro, mais aguda. Eram nordestina e mineiro, ambos filhos de uma cultura da roça onde o canto era forma de trabalho e de espiritualidade, e tinham ido parar a Taboão da Serra, uma cidade da Grande São Paulo onde o pai foi um dos primeiros moradores do bairro Freitas Júnior. A região era ainda muito rural. Havia vacas, cavalos, charrete para ir à escola. "Tinha uma relação com a natureza e a ruralidade muito forte, o que era um ambiente muito poético para a minha construção como ser humano enquanto criança. Muito lúdico." Naruna Costa nasceu ali a 24 de fevereiro de 1983, e essas imagens - o campo, os bichos, os dois cantos a dialogar sem saberem que ensinavam - ficaram como matéria-prima. "De alguma maneira fazem parte do meu repertório até hoje."


Com o tempo, o bairro transformou-se. As áreas de mata foram virando ocupações, algumas favelas surgiram, e a cidade tornou-se a mais densamente povoada do estado de São Paulo, tanto que, como diz, "não tem mais espaços para serem ocupados, não cabe mais, tem muita gente." O final dos anos 80 e o início dos 90, os anos da sua infância, foram também os anos de violência explícita das facções em São Paulo. A região ficou estigmatizada. Perto ficava o Capão Redondo, considerado na época um dos bairros mais violentos da América Latina. "Em paralelo a esse universo lúdico e poético, eu cresci vendo muita violência explícita com relação à população periférica, à população preta." São esses dois pólos que ela identifica como os materiais de tudo o que faz: "esse estado entre a urgência de mudar as coisas e a beleza do nosso país, é o que eu tento manter vivo na minha criação."


A arte, neste enquadramento, nunca foi um refúgio separado da vida. "Considero a arte política pela sua própria natureza", diz. O que importa, no caso, é a distinção entre arte e cultura e aí a atriz recorre à zona que a viu crescer para exemplificar: a periferia de Taboão da Serra era culturalmente rica - filhos de pessoas vindas de todo o Brasil, enorme diversidade de origens e tradições -, mas a arte, no seu entender, é "a elaboração de pensamento e comentário sobre a sociedade" a partir dessa cultura. "Ela reúne pessoas, comenta, divide, debate qualquer assunto social da nossa comunidade. Então, por si só, ela é política." E o corpo negro em cena carrega isso de forma acrescida, enquanto existir uma estrutura que o exclui das narrativas: "a presença do meu corpo enquanto corpo negro na cena é um corpo político, sempre será. Muitas coisas artísticas, infelizmente, retiraram os nossos corpos da cena. A gente não tem um espelho do Brasil pensando nas mídias, no audiovisual, no teatro, que represente a quantidade de pessoas negras, indígenas, trans. Então esses corpos, só de estarem na cena, já são políticos.”

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"Considero a arte política pela sua própria natureza"

Naruna Costa

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© Nikolle Kruger

O percurso formal começa na União Teatral Taboão, fundada em 1997, e profissionaliza-se em 2002 pelo curso técnico do SENAC. Em 2004, entra na EAD, a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, uma das mais antigas e reconhecidas do país, com então 56 anos de história. A turma em que entrou foi a primeira da escola a ter uma presença significativa de estudantes negros. Significativa, neste contexto, eram cinco pessoas numa turma de vinte. "Os próprios professores, os mestres, não sabiam como lidar com a cultura dessas pessoas, porque os modos são diferentes, o gesto é diferente, porque as tradições são diferentes, porque as pessoas negras em geral no Brasil vivem em bairros, lugares, comunidades diferentes das pessoas brancas na Universidade de São Paulo." O teatro negro não constava do currículo. Passou a constar porque aqueles cinco estudantes exigiram que constasse. "Foi uma reivindicação da nossa turma. Tudo vai se modificando porque a diversidade acontece."


Em 2005, com outros artistas, funda o Grupo Clariô de Teatro, em Taboão da Serra. O grupo nasceu num momento em que estava a surgir um movimento de cultura periférica em São Paulo que viria a alterar a forma como a cidade pensava a sua própria produção artística. A lógica que existia era a de que as pessoas da periferia atravessavam a ponte - há pontes físicas entre os bairros do extremo sul e o centro - para consumir arte nas grandes metrópoles. "Quando a gente fortalece a cultura local, territorial, primeiro dá a oportunidade de produzir arte e pensamento numa região onde não existe essa prática. Pessoas que não costumam ver teatro, pensar teatro, fazer teatro, começam a ter acesso. E nasce ali também pessoas que descobrem ofícios, que se identificam com algo que nem sabiam que existia." O Clariô, a Companhia Capulinas de Arte Negra, os saraus como a Cooperifa e o Sarau do Binho: quando estes movimentos começaram a acontecer, "as pessoas das grandes metrópoles foram buscar saber que movimento era aquele de alta cultura que estava acontecendo ao redor da cidade. Então a lógica se inverteu, e aí tudo se remexe porque a gente muda a ordem das coisas."


As periferias são habitualmente descritas a partir das carências, o próprio termo "comunidades carentes" diz isso. O Clariô trabalha a partir de outro ponto de vista: "a gente tem que, de alguma maneira, afirmar quem somos e quais são as abundâncias e não só as carências daquela região. A gente passa a observar o que há de abundante, o que há de fortalecido enquanto cultura, enquanto tecnologia inclusive de sobrevivência. Quando a gente fala da precariedade como forma, a utilização dos nossos materiais é impressa nos figurinos, no diálogo, no modo de interpretar. Tudo está presente e vira uma arte muito política e muito estética também, que chamou muito atenção porque era algo que fugia dos padrões, mas que ainda assim era muito interessante."


Em 2018, o espetáculo Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã valeu-lhe o Prémio APCA - da Associação Paulista de Críticos de Arte - na categoria de melhor direção. Naruna tornou-se a primeira mulher negra a receber esta distinção numa premiação com então sete décadas de história, e também apenas a segunda mulher, a qualquer título, a ser premiada nesta categoria. Apesar da alegria com que recebeu a distinção, não esconde o paradoxo: "revela o quanto ainda precisamos caminhar. Mais do que a crítica de que nunca houve, eu acho importante o anúncio de que existe, nós existimos, e que perante essa realidade de que nunca fomos reconhecidas e reconhecidos, algo precisa mudar, algo precisa se deslocar." No discurso de aceitação, pediu ao júri que atravessasse a ponte, que saísse da comodidade dos circuitos habituais e usou a própria experiência para deixar evidente a forma como o território molda a perceção pública. "Foi a primeira vez que eu estava em cartaz com uma direção minha num teatro dentro do eixo, dentro do Centro Cultural São Paulo. E só por isso houve esse reconhecimento. Eu já existia com outras produções há muitos anos.

“Acho importante o anúncio de que nós existimos, e que perante essa realidade de que nunca fomos reconhecidos, algo precisa mudar"

Naruna Costa

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Irmandade estreou na Netflix a 25 de outubro de 2019. Criada e dirigida por Pedro Morelli, com produção da O2 Filmes, a série ambienta-se no São Paulo dos anos 90 e acompanha Cristina - advogada no Ministério Público, nascida na periferia, irmã de Edson (Seu Jorge), que cumprira pena durante vinte anos e se tornara líder de uma facção dentro da prisão. Quando Cristina se vê forçada a operar dos dois lados da lei, a série abre sobre o sistema carcerário brasileiro - a superlotação, os massacres, o racismo institucional e sobre o que acontece quando uma família negra de São Paulo tenta, em gerações diferentes, encontrar um caminho no interior de estruturas que não foram feitas para a deixar passar.


"É uma personagem que tem dilemas muito profundos e a gente não consegue entender para onde ela vai. Ela tenta fazer a coisa certa errando muito. Isso traz o lugar da humanidade - a gente é muitas coisas, a gente tem muitas subjetividades, e falta isso nas narrativas pretas principalmente." O debate que a série gerou dentro do movimento negro é algo que não contorna: "eu me lembro que foi uma questão dentro do movimento negro, não como crítica, mas como pensamento. Mais uma série falando sobre criminalidade ou sobre as facções criminosas, com um elenco negro." A tensão é real, e reconhece-a. O que defende é que Irmandade se sustenta justamente pelo que recusa: "de alguma maneira a série coloca a gente dentro dessa caixinha da criminalidade, da subalternização do sistema carcerário. Mas o grande ganho da série é justamente esse lugar da profundidade psicológica, do dilema. É um assunto que diz respeito à população negra, porque de facto é o maior número de pessoas encarceradas, o maior número de pessoas violentadas pela polícia, o maior número de pessoas envolvidas com as facções criminosas pela falta de condição financeira, por estarem na periferia. Mas para além disso existe a Cristina, que está ali tentando mudar essa relação com a sua própria comunidade, a sua relação com a vida, se tornando uma advogada, indo para o Ministério Público e carregando dilemas profundos, com dificuldades de lidar com eles, acertando em alguns, errando em outros, tentando se colocar nesse mundo de alguma forma.” Em 2026, o universo da série regressou aos ecrãs com Salve Geral: Irmandade, o primeiro spin-off brasileiro produzido pela plataforma. Entretanto, As Clarianas preparavam o quarto álbum.


Na vida de Naruna, a música correu sempre em paralelo com tudo o resto - o teatro, a televisão, o cinema - sem nunca ter sido uma segunda carreira. Os pais cantavam em casa: o pai com uma voz grave, "parecia aqueles cantores antigões", a mãe mais aguda, e ambos vinham de tradições onde o canto era forma de trabalho e de espiritualidade. Tornou-se ofício dentro do teatro: na primeira produção do Clariô, um espetáculo construído a partir de histórias de mulheres do território, a pesquisa sobre musicalidade e vocalidade levou o elenco - só mulheres - a procurarem as mais velhas da comunidade para descobrirem os cantos que existiam enquanto convivência, antes de existirem enquanto ofício. Foi responsável pela composição da música para esse espetáculo. Mais tarde vieram os pedidos de concertos. "A gente começou a fazer, e essa veia da composição não parou."


Em 2012, com Martinha Soares e Luana Lima, nasce formalmente As Clarianas. Três álbuns lançados, o quarto em preparação, parcerias com Criolo, Emicida, Chico César, pesquisa com mestres da cultura popular. "Foi ganhando uma força natural e de alguma maneira exigindo que a gente fosse se aperfeiçoando também. Então fui estudar mais o canto, os tambores, cada uma de nós fomos estudando mais, e aí foi desabrochando." O grupo ganhou o Prémio Shell de Música pela direção musical do espetáculo Banho Mansinho.


Quando fala do que o canto acessa que a palavra falada no teatro por vezes não alcança, a resposta é simultaneamente técnica e outra coisa: "o canto tem um potencial sagrado. A gente fala que o canto é o jeito de chegar mais perto de Deus, e Deus é uma mulher negra. Tem essa potencialidade de alcançar outros lugares sensíveis para além da palavra falada. E o corpo muda bastante, porque exige primeiro esse alcance de outros lugares para poder crescer. Do mesmo jeito que chega pro público, eu sinto que volta pra gente enquanto uma presença mais sutil, mais recheada de outras sensações, de outras informações. O corpo muda pela exigência técnica, mas também pela experiência sensorial." A trajetória musical levou-a ao teatro, onde interpretou Elza Soares em dois momentos - em Garrincha, dirigido pelo norte-americano Robert Wilson, e na remontagem Elza, O Musical, dirigida por Duda Maia em 2025. "É um lugar que me atravessa de uma forma muito gigante, porque primeiro é para honrar mesmo quem foi essa artista que sofreu tanto nesse país e que criou tanto e que foi tão gigante.”


“O canto é o jeito de chegar mais perto de Deus, e Deus é uma mulher negra”

Naruna Costa

A pergunta sobre como se navega entre o teatro periférico, a televisão, o streaming, a música e a direção chega frequentemente, e Naruna Costa responde pela via de Nêgo Bispo - lavrador, poeta, escritor e líder quilombola do Piauí, cuja obra sobre as cosmologias dos povos tradicionais brasileiros se tornou uma das referências do pensamento decolonial no Brasil. "Eu lembro muito do Nego Bispo, que fala sobre as confluências, a importância das confluências como um modo de vida. O pensamento europeu tem uma ideia de separação muito forte das artes, de como se pensa a arte. E o pensamento das culturas não europeias não considera isso. As artes estão mais interligadas. O Nego Bispo fala da importância das confluências e diz que um rio, quando encontra um outro rio, não deixa de ser um rio: passa a ser o rio e outros rios."


Aplicado ao seu próprio percurso, admite que “a experiência com todas essas formas de fazer me ajudam a construir uma identidade no meu jeito de trabalhar, porque eu trago sempre comigo a informação do meu território, a informação da linguagem do teatro para a televisão, a informação de um ritmo da televisão pro cinema. Não me atrapalham, eu as somo, e de alguma maneira me fazem ter uma identidade enquanto artista que é um pouco esquisita, mas eu acho que ela é boa. Eu não me acho muito parecida com ninguém. Eu não represento nenhuma escola, nenhum jeito de fazer. Eu carrego comigo todas essas referências."


Esta identidade inclusa e difusa tem, nas suas próprias palavras, dificuldades práticas numa indústria que prefere artistas encaixáveis. "Eu aguento, acho que isso, de alguma maneira me liberta." E liga-se a algo mais fundo do que a gestão de carreira: "eu fico muito em busca da identidade mesmo. Eu acho que essa é a grande chave, inclusive da população preta brasileira. Ter poucas referências dos nossos antepassados, saber exatamente de onde a gente veio. Isso é algo que as narrativas de audiovisual ao longo da história engessaram em lugares que não nos representam, que não dão conta da nossa humanidade. Então esse lugar de estar em busca enquanto artista de alguma coisa, de alguma maneira me coloca nessa angústia também, de identificar, de saber de onde eu vim, para onde eu quero ir ou para onde eu posso ir, mesmo que não tenha tido grandes referências."


A visibilidade crescente das culturas periféricas - no streaming, nas redes sociais, nos roteiros turísticos da Rocinha - é um processo que acompanha com atenção dividida. "O mercado de alguma maneira vai absorvendo. O capitalismo tem essa capacidade, pela necessidade de agregar o que às vezes é impossível negar enquanto existência. Então a cultura periférica foi agregada ao mercado como consumo, mas ela ainda está num lugar de marginalidade enquanto valores, porque é possível agregar desde que não custe muito caro." A diferença salarial entre trabalhadores negros e brancos, entre homens e mulheres, continua a existir dentro e fora das produções, sobretudo porque "quando ela vira algo mercadológico demais, de alguma maneira perde a sua essência e vira uma casca que às vezes as pessoas não conseguem nem dar conta de representar a si mesmas dentro dessa casca." Mas o outro lado também existe: "tem pessoas que viralizaram na internet que não tinham, sei lá, água encanada. Então tem um lugar que, de alguma maneira, criou oportunidades de furar e acessar caminhos que eram muito mais dificultosos.”

"Não represento nenhuma escola, nenhum jeito de fazer. Eu carrego comigo todas essas referências"

Naruna Costa

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© Nikolle Kruger

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© Nikolle Kruger

A chegada dos streamings internacionais é parte desta equação. A Netflix e a Amazon chegaram com referências das produções norte-americanas, onde as lutas do movimento negro tinham já produzido algumas mudanças visíveis na representação, e trouxeram consigo uma pressão por diversidade nas narrativas que reconhece como real: "enriqueceu as produções, não feriu nada." Mas a estrutura resistiu onde podia resistir. "Inevitavelmente é muito cômodo o que a gente já tem aqui e que funciona no Brasil, esse imaginário que é brasileiro branco." As produtoras antigas receberam novos estímulos, algumas coisas mudaram, “mas poderia ter tido um avanço maior." É uma avaliação que se estende às condições de trabalho dentro das produções: enquanto o país debate no Congresso o fim da escala 6x1 e a passagem para uma jornada de cinco dias com dois de descanso, Naruna Costa diz que no audiovisual essa negociação ainda está por fazer. "A gente ainda briga pelos 5x2 dentro das produções."


Fazer arte no Brasil de hoje é, nas suas palavras, "caótico." "Todas as nossas conquistas, seja a inserção de pessoas pretas e indígenas nas produções audiovisuais, seja a arte sendo produzida ali no quintal, acessando editais públicos, são coisas que se fortalecem. Mas têm uma fragilidade muito grande no Brasil por conta do conservadorismo extremo que abraçou o Brasil de uma forma inesperada." As conquistas no campo da cultura dependem de políticas públicas que um governo seguinte pode desfazer e “demora muito para os frutos aparecerem, porque são conquistas muito estruturais. E se existe um corte, se entra alguém no governo que destrói esse caminho, demora muitos anos para poder conquistar de novo. Cada derrubada são décadas de construção." É algo que torna o ano eleitoral um momento de ansiedade específica para quem trabalha no setor. A polarização política tornou a comunicação mais difícil e "a depender do público, é muito difícil fazer uma peça e debater um assunto sem sofrer críticas enormes por conta da falta de escuta. Esse lugar polarizado foi muito fortalecido nos últimos anos." O que observa é que a polarização foi mais uma revelação do que propriamente uma criação: "as pequenas violências que já aconteciam estão sendo verbalizadas, estão sendo fortalecidas por algumas políticas. O Brasil não é esse lugar da democracia racial, não é esse lugar saudável para toda a população. É um ambiente muito complexo, de muitas diferenças sociais, de desigualdades extremas, e de alguma maneira está se revelando. Quando mexe qualquer coisa, qualquer pecinha que move do lugar, muita coisa desmorona."


Quando se pergunta o que ainda quer fazer, a resposta começa pelo audiovisual, mais concretamente pela direção, um caminho que diz estar a começar a dar passos, "mais pela necessidade do que pela vontade, mas sinto que é um caminho que ainda não abracei de facto." Quer circular mais, levar os espetáculos do Clariô a mais sítios. Está a fazer Elza Soares em musical e quer continuar a fazê-la. "Gostaria de circular mais do que a gente circula."


Sobre se o seu foco é criar obras ou estruturas para que outros possam existir, coloca a criação como base de tudo: “eu sou uma artista, primeiramente, e acima de tudo eu sou uma atriz." As obras é que mudam a estrutura, não diretamente, mas pela demonstração de que é possível. "É muito importante para as jovens atrizes, para as pessoas que estão começando, poderem olhar pessoas como eu e observar: essa pessoa nasceu na periferia, está na periferia, produz na periferia, mas também está na Netflix, também está na Globo, também está no teatro. É possível circular. Então eu acho que isso é estrutural também, e acredito que o meu trabalho, enquanto aporte, é o meu jeito de fazer política."


Taboão da Serra continua a ser a cidade mais densamente povoada do estado de São Paulo. O Grupo Clariô tem agora vinte anos e continua a trabalhar a partir de lá. O espaço continua ativo, os espetáculos continuam a ser feitos, as jovens artistas continuam a encontrar ali o que Naruna Costa encontrou quando percebeu que havia um ofício que não sabia que existia. O que muda é a escala a partir da qual ela faz o mesmo trabalho. "Cada vez que vou montar um espetáculo com o meu grupo, a nossa observação é: o que está angustiando? Qual é a necessidade do agora? Para que a nossa arte se mantenha contemporânea, esteja conversando com o nosso tempo. Eu não quero uma arte engessada. Eu quero me inspirar para criar outras coisas”, conclui.

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