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Foi na Cidade da Praia, durante o Human Leaders International Congress Cabo Verde 2026, que nos cruzá Ndèye Dieynaba Ndiaye. O congresso, realizado a 24 e 25 de julho de 2026 na Universidade de Cabo Verde, juntou líderes de mais de uma dezena de países, entre eles Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Camarões e Brasil, além de representantes da diáspora africana. Ndèye chegou a esse palco depois de ter sido nomeada Embaixadora Especial e Chefe da Delegação do Senegal para o congresso, um reconhecimento que descreve como mais uma etapa de um percurso construído em torno de duas causas: a luta contra a violência doméstica e o combate ao desconhecimento sobre a polyarthrite rhumatoïde, a artrite reumatoide, no seu país.
Ndèye Ndiaye é presidente de duas organizações senegalesas. A primeira, Violences Faites aux Femmes Sénégal (VFFS), dedica-se a acompanhar mulheres vítimas de violência doméstica, familiar e de género, oferecendo apoio jurídico, acompanhamento médico, apoio psicológico individual e em grupo, e ainda formação profissional para que as sobreviventes possam reconstruir a sua autonomia económica. A associação tem também uma voz pública ativa: em 2025, manifestou-se solidária com a ministra dos Desportos do Senegal, Clothilde Coly, alvo de uma onda de ciberassédio, e pediu às autoridades legislativas e judiciais senegalesas leis mais rigorosas contra o assédio digital.
A segunda organização, Polyarthrite Rhumatoïde Sénégal (PRS), nasce de uma urgência menos falada. A artrite reumatoide é uma doença autoimune crónica que atinge as articulações e que, segundo estudos clínicos já realizados no Senegal, um deles com mais de 750 doentes analisados, está longe de ser rara, apesar de continuar pouco diagnosticada e mal compreendida no país.

DR
É precisamente na intersecção destas duas causas que Ndèye criou aquilo a que chama, em francês, "banque de dignité", um banco de dignidade que recolhe doações de roupa, alimentos e medicamentos para apoiar vítimas de violência conjugal. O objetivo, resumiu, é dar-lhes "um curto instante, o tempo de as ajudar a reencontrarem-se", a sair do domicílio conjugal e a encontrar um lugar onde ficar, ainda que de forma pontual. Os medicamentos seguem a mesma lógica de urgência, mas destinados a doentes de artrite reumatoide que, por rutura no acesso a tratamento ou por falta de recursos, ficam sem medicação. Segundo Dédé, como também é apelida Ndèye Dieynaba Ndiaye, este apoio já chega às catorze regiões do Senegal.
O percurso profissional que sustenta este ativismo tem uma base académica concreta: um mestrado em comunicação, uma licenciatura em inglês e um diploma de aptidão para o ensino de francês como língua estrangeira. É esta formação pedagógica, explica, que lhe permite criar pontes entre as instituições, os decisores e as comunidades, adaptando a mensagem a cada público e privilegiando o diálogo em vez da imposição. Chama a este método comunicação de influência ao serviço do impacto social e da liderança humanizada, um conceito, o de liderança humanizada, que se tornou a assinatura da sua estratégia, seja a acompanhar organizações na sua visibilidade institucional, seja a defender direitos fundamentais das mulheres.
Foi também em nome desta abordagem que Ndèye Ndiaye levou a Cabo Verde uma delegação senegalesa multidisciplinar para participar na primeira edição do congresso Human Leaders Summit. Entre os seus membros estava Ibrahima Niang, em representação do diretor geral da SONAGED, a sociedade nacional de gestão integrada de resíduos. A empresa pública senegalesa, responsável pela gestão integrada de resíduos no país, foi apresentada como exemplo de como a economia verde e circular pode gerar emprego e inclusão social, mobilizando, segundo a própria, cerca de 17 mil senegalesas e senegaleses todos os dias. Ainda de acordo com o seu relato, a passagem por Cabo Verde permitiu abrir conversas com altas autoridades cabo-verdianas, entre as quais o Presidente da República, o Primeiro-Ministro, presidentes de câmara e o responsável da Caboplast, em torno de temas como desenvolvimento sustentável, economia circular e governação local.
A história de Dédé não pode ser lida isolada do contexto em que nasce, nem fora dele. No Senegal, a Associação de Juristas Senegalesas registou mais de 4.200 casos de violência contra mulheres apenas em 2025, a grande maioria psicológica ou económica, mas também física, sexual e obstétrica, um retrato que a própria organização considera revelador de uma crise silenciosa.

DR
Na lusofonia, os números seguem um padrão semelhante. Em Angola, um estudo do Afrobarometer com dados do Instituto Nacional de Estatística mostra que 32% das mulheres sofreram violência física desde os 15 anos e 34% foram vítimas de violência física ou sexual por parte de maridos ou parceiros, ainda que 67% da população já considere a violência doméstica um crime, e não um assunto privado da família. Em Moçambique, foram registados mais de 9 mil casos de violência de género apenas nos primeiros seis meses de 2025. Em Cabo Verde, o próprio Presidente da República já classificou a violência de género como "uma mancha" na sociedade, num país onde o tema tem vindo a ganhar mais espaço no debate público nos últimos anos. E em Portugal, a APAV contabilizou 23.742 casos de violência doméstica em 2024, com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género a registar mais de 1.400 vítimas acolhidas apenas no primeiro trimestre de 2025.
Para as mulheres da diáspora africana e dos PALOP que vivem em Portugal, a estas dificuldades soma-se muitas vezes outra: o isolamento e o desconhecimento dos apoios disponíveis, um obstáculo que associações ou iniciativas de apoio a imigrantes sem domínio do português têm tentado colmatar.
A outra causa de Ndèye Dieynaba Ndiaye, a artrite reumatóide, tem um lugar ainda mais silencioso no discurso público global. É uma doença crónica, autoimune, que atinge as articulações e que não costuma figurar entre as prioridades de saúde. É precisamente essa falta de números e de visibilidade que um trabalho como o seu, ao juntar as duas causas no mesmo "banco de dignidade", ajuda a expor.
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