“ID”, o álbum onde Nenny troca a pressão pela verdade

13 de Maio de 2026

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A 15 de maio de 2026, Marlene Tavares lança o seu primeiro álbum. Chama-se ID e o título é, ao mesmo tempo, uma declaração e uma resposta. Uma declaração porque, aos 23 anos e com sete de carreira, ela escolhe este momento para dizer quem é. Uma resposta porque a pergunta “quem sou eu? O que quero fazer é como?” esteve sempre lá, desde os nove anos - altura em que escreveu a primeira canção numa cozinha em Vialonga e disse para si mesma que tinha de aprender inglês para ser uma artista internacional. O que ficou pelo caminho, entre essa criança e este disco, é o que esta entrevista, realizada a dias do lançamento, tenta perceber.


Hoje conhecemo-la como Nenny. O nome artístico pertence a uma outra camada, mais pública e mais exposta, da mesma pessoa. Marlene é quem fica em casa, quem quer estar no canto dela, quem foi a Cabo Verde de férias com a família e só queria ser uma miúda em paz. Nenny é a que sobe ao palco, a que tem os outfits, o cabelo, a presença. “Às vezes só quero voltar a ser a Marlene e simplesmente existir”, diz. As duas encontram-se num ponto onde nenhuma tem coragem suficiente para ser totalmente a outra e é dessa tensão que nasce, em grande medida, o que escreve.


A história da Nenny é conhecida nos seus contornos gerais: filha de pais cabo-verdianos, criada entre funanás e kizombas em casa, muda-se para França aos 11 anos, depois para o Luxemburgo em 2019. Nesse mesmo ano lança "Sushi", o primeiro single, com 16 anos, produzido pelos Wet Bed Gang - vizinhos de Vialonga que não sabiam que a irmã mais nova do Malik cantava, até verem um cover que ela partilhou numa conta de Instagram criada em Paris. Em 2020, o EP Aura consolida a sua posição na cena do hip-hop português que, naquele momento, estava a encontrar um público novo e amplo.


O que veio a seguir foi rápido demais. Singles em sequência, nomeações para os Play – Prémios da Música Portuguesa e para os Globos de Ouro, presença no Tiny Desk da NPR e no COLORS Show, concertos em Angola. Em 2022, a revista Forbes incluiu-a na lista “30 Under 30 Europe” na categoria Entretenimento. Tudo isso com 19 ou 20 anos. “Foi um bocado agressivo para a idade que eu tinha”, admite. “Muita informação, muita pressão.”

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Nenny | ©Nuno Silva/BANTUMEN

Foi nessa altura que começou a sentir o estúdio como uma obrigação em vez de um refúgio. Ia gravar e não gostava do que ouvia, não gostava da própria voz, não gostava do mix. Havia quem lhe pedisse que cantasse “mais como” determinada artista. “Mas eu não sou isso. Eu sou a Nenny, eu sou eu mesma.” Em 2022 recuou, conscientemente, para “voltar a gostar de estar aqui outra vez”. Foi para os Estados Unidos, fixou-se em Nova Iorque e trabalhou música nova. É dessa viagem, e dos dois anos de processo intenso que se seguiram, que nasce ID.


Nenny anunciou o projeto com o protótipo de um bilhete de identidade partilhado nas redes sociais, e a frase que o acompanhava deixava pouco espaço para dúvidas: “Em 2020 dei-vos a minha energia, a minha aura. Mas agora vou dar-vos a minha identidade.” Em termos sonoros, isso traduz-se num disco com mais géneros musicais do que aquele a que habituou o público: há temas que puxam mais para o afropop, mas também referências que cultivou desde a infância a ver MTV, de Calvin Harris a Lady Gaga, passando por Selena Gomez. “Metem-me muito numa caixa de rapper. E vocês vão ouvir mais géneros musicais.”


As colaborações confirmadas incluem os Wet Bed Gang, Lura, Carla Prata, Bluay e o rapper brasileiro JP. São nomes que apontam para um disco com raízes múltiplas, reflexo de uma artista cuja identidade se construiu entre Vialonga, os subúrbios de Paris, o Luxemburgo e Nova Iorque. Entre os temas que compõem o álbum, destaca dois com particular peso pessoal. “Prioridades”, tema que fala sobre a relação com o pai durante o crescimento e  “Sarar” - a sua favorita - é uma carta escrita para si mesma: “Oiço e parece que tudo fica bem. Apesar das inseguranças, apesar do medo, nós somos nós mesmos.”


Antes do álbum, houve “Eu Quero Um Preto”, single que, nos meses anteriores ao lançamento, se tornou viral de uma forma que a própria não esperava. Tudo começou com um vídeo em que a sua mãe, cabo-verdiana, reage à música no estúdio. O momento tornou-se o motor de uma trend que se prolongou de janeiro até março e abril, com pessoas em todo o lado a usar o som. “Foi uma enorme surpresa. Eu não estava nada à espera.”  Não é a primeira vez que a mãe entra no trabalho: “Dona Maria”, do EP Aura, já lhe era dedicada e deixava evidente uma continuidade afetiva que atravessa o trabalho mesmo quando os temas mudam ou as sonoridades se diversificam.


O disco fala também sobre amor próprio e Nenny sabe exatamente o que isso implica no contexto em que vive: construir, de forma lenta, a convicção de ter valor num mundo que tende a reduzir as mulheres negras a uma única figura possível, a da força inabalável. “Há muito esta ideia da mulher que é forte o tempo todo, guerreira o tempo todo. Como se houvesse imenso prazer por esse em cima de nós.” O problema desta figuração, explica, é que não deixa espaço para a vulnerabilidade e quando uma mulher negra tenta ocupar esse espaço, arrisca ser lida como vítima. Entre a guerreira e a vítima, pouco lugar para quem simplesmente quer respirar. É esse intervalo que o álbum, pelo menos em parte, tenta habitar.


Quem a segue há algum tempo sabe que não está em todo o lado,  não aceita todos os eventos, não alimenta as redes de forma contínua, não aparece em todas as colaborações possíveis. Faz parte de uma “personalidade muito reservada” e ajuda a preservar a energia para o que sente como seu. A pausa de 2022, em que deixou de lançar música, foi a consequência mais visível disso: quando o estúdio começou a parecer uma obrigação e as pessoas à volta começaram a ditar o que devia ser, recuou. “É muito fácil perdermo-nos quando temos várias pessoas a ditar aquilo que querem que a gente seja”, diz. “Passam um, dois, três, quatro anos e estamos a tornarmo-nos aquilo que as pessoas querem e não nós mesmos.”


É com essa consciência que ID chega. A Nenny de 23 anos que o assina não é mais irrequieta nem mais segura do que a de 16 , é apenas mais clara sobre o que quer dizer e sobre o que está disposta a ceder para o dizer. Há uma faixa no álbum que se chama “Hero”. Quando perguntada sobre o que diria à Marlene de 16 anos, recorre a “Hero”, um dos temas do álbum que se avizinha, para responder: “Que ela é incrível. E que tudo vai ficar bem, por mais que pareça que o mundo está a acabar. Porque no fim do dia tens a tua própria bolha, vais salvar-te e seres a tua própria heroína.”

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