Nilton CM fez o melhor álbum de hip-hop da sua geração e não tem medo de o dizer

21 de Agosto de 2026
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Nilton CM | DR

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Nilton CM não parece interessado em fazer um disco apenas para acrescentar mais um título à discografia. Quando começou a trabalhar em Sinto Muito (Disco 1: The Truth About Me), colocou uma meta consideravelmente mais alta. "Em 2024, decidi que ia trabalhar para ter o melhor álbum de hip-hop de sempre, lançado por um artista da minha geração", afirma à BANTUMEN. Dois anos depois, com o projeto terminado, não recua na ambição. "Hoje, a apresentar este produto e olhando para o que consegui juntar tanto no Disco 1 como no Disco 2, posso dizer que não tenho dúvidas desse feito."


Sinto Muito (Disco 1: The Truth About Me) chega com 15 faixas e abre a primeira metade de um projeto pensado como álbum duplo. Mais do que uma sequência de músicas, o artista construiu o primeiro disco como um autorretrato. Família, raízes, amor, amizades, vulnerabilidade, crescimento, ambição e legado aparecem ao longo do alinhamento, num trabalho que o próprio apresenta como uma tentativa de oferecer uma visão a "360 graus" de quem é.


O The Truth About Me tem como intenção mostrar ao mundo quem eu sou, quais são as minhas raízes, quem são as minhas referências pessoais e culturais e de que forma é que todos esses aspetos moldaram a pessoa e o artista que sou", explica. "No fundo, é como juntar peças do puzzle, trazendo mais detalhe para que os ouvintes me conheçam melhor."


A escolha de Sinto Muito para título também não aponta apenas para arrependimento. Há um jogo intencional entre pedir desculpa e sentir intensamente. Nilton aproxima-se sobretudo da segunda leitura. "O título Sinto Muito vem de uma característica minha que é precisamente viver tudo com intensidade, sejam coisas boas ou coisas más. Neste álbum eu falo desses dois lados da moeda, sempre comigo no centro de tudo."

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Nilton CM | DR

Essa disposição para se colocar no centro da narrativa surge numa fase particularmente simbólica da carreira. Depois de muitos anos associado à TRX Music, Nilton entrou num período em que passou a carregar sozinho uma parte maior das expectativas sobre o seu nome. Não fala desse processo como uma reinvenção absoluta, mas admite que teve de alterar a forma como trabalhava.


"Precisei de redefinir a minha ética de trabalho porque a responsabilidade aumentou", diz. "Houve uma divisão de expectativas por parte do público porque muita gente achava que eu não ia conseguir trilhar um caminho de sucesso estando dissociado do grupo."


A resposta foi transformar a dúvida externa em disciplina. Em 2023, decidiu que não poderia passar mais de um mês sem gravar uma música. Entre 2023 e 2025, lançou quatro projetos e, durante a conceção de Sinto Muito, gravou cerca de 40 faixas para aquilo que viria a tornar-se um álbum duplo.


Se existe uma conclusão pessoal retirada do fim desse ciclo, Nilton resume-a de forma pragmática: "Consegui perceber que às vezes há decisões que não podem ser feitas com o coração, mas sim com a cabeça."


O disco, contudo, não é construído apenas à volta de rutura ou afirmação individual. Pelo contrário, começa com "Honrar a Fam", uma escolha que indica imediatamente onde Nilton localiza a base da sua identidade. "Para mim, a família significa porto seguro e também a base de tudo. Comecei a história honrando os meus pais e a família porque, sendo um álbum que conta a minha verdade, fazia todo o sentido dar início ao álbum homenageando quem me deu o dom da vida e quem me incutiu os valores que carrego comigo hoje."


A organização do álbum também obedece a uma lógica temporal. "Crónicas de Um Puto Feliz", uma das primeiras faixas, olha para a formação do homem e do artista. Mais perto do final, "Quando as Rugas Chegarem" desloca a atenção para o futuro.


"'Crónicas de Um Puto Feliz' é uma música que define quem sou e como diferentes etapas contribuíram para o meu desenvolvimento até uma certa altura, enquanto 'Quando as Rugas Chegarem' fala sobre sonhos e ambições e, em simultâneo, faz uma retrospetiva de onde vim e onde estou agora", explica. "A ordem das faixas não foi escolhida aleatoriamente. Eu quis que houvesse este alinhamento temporal progressivo."


“Falo de temas que andei a evitar durante anos e anos, porque provavelmente ainda não me sentia preparado para falar deles”

Nilton CM

É também nesse percurso que surge um Nilton menos preocupado em preservar a imagem tradicionalmente associada à invulnerabilidade no rap. Para ele, mostrar fragilidade deixou de ser incompatível com a força. "Percebi há uns anos que, para conectar com as pessoas, eu preciso de mostrar que também sou humano e não um ser perfeito sem desafios. Isso não existe. O meu propósito é ser um terapeuta e um transformador com a minha arte e, para isso, eu tenho que estar aberto à vulnerabilidade."


A palavra terapia não aparece por acaso. Há uma música com esse nome, "Terapia", dividida com Anselmo Ralph, e Nilton continua a descrever o estúdio como espaço de libertação. "A música sempre será a minha melhor terapia, a melhor parte da minha vida. O estúdio é o meu refúgio e é onde consigo libertar-me. Quando tu encontras o teu propósito, honrá-lo deixa de ser uma obrigação e passa a ser algo espontâneo e libertador ao mesmo tempo."


Mas nem todas as confissões chegaram com a mesma facilidade. Entre as 15 faixas do primeiro disco, houve uma que exigiu mais coragem: precisamente "Sinto Muito", a faixa 14.


"Foi a única faixa que me custou a ganhar coragem para gravar", admite. "Falo de temas que andei a evitar durante anos e anos, porque provavelmente ainda não me sentia preparado para falar deles. Mas, no final, foi libertador gravá-la."


O amor também ocupa uma parte significativa desta autobiografia. Não apenas enquanto relação romântica, mas enquanto elemento que Nilton considera central na forma como constrói ligações. "O Nilton de hoje consegue falar de amor com mais sabedoria. Fruto de várias experiências, hoje tenho mais domínio para falar sobre este tema tão simples e complexo ao mesmo tempo. Eu sou movido pelo amor e pelas conexões, pela reciprocidade."


Ao mesmo tempo, o rapper não abandona o olhar sobre a própria indústria. Em "Validação", por exemplo, trabalha a diferença entre procurar aprovação e conquistar respeito.


"Eu faço 'Pela Arte' e tudo o resto acaba por ser consequência. Para mim há diferença entre conquistar o respeito e procurar validação. Procuro conquistar o respeito, seja do público ou da indústria em si, mas não é isso que me move."


A relação com métricas, contudo, é mais complexa. Nilton reconhece que números importam para quem vive da música. O problema, argumenta, surge quando esses números passam a funcionar como única medida de qualidade.


"Não me desligo disso e acho que nenhum artista o faz, principalmente os que vivem disso. Mas não se mede a qualidade de um artista só pelos números e popularidade. Hoje grande parte da indústria funciona assim e isso passou também para os olhos do público em geral. É isso que eu acho errado."


As participações de Anselmo Ralph, Edmázia Mayembe, Kelson Most Wanted, OG Vuino, Puella, Eudreezy, Johnny Berry, Johnny B.O.B, V-Lex Breezy e outros nomes ajudam a completar esse retrato. Segundo Nilton, nenhuma presença é casual. "Todos eles foram escolhidos a dedo e são certamente referências para mim, pessoas por quem nutro muito respeito. Se ouvirem este álbum com atenção, vão perceber que, para além de contar a minha história, é uma homenagem para muita gente que ou cresceu comigo ou se tornou uma referência artística e pessoal minha."


É particularmente significativa a presença de Kelson Most Wanted e OG Vuino em "A Cura e a Causa". "O Kelson é meu irmão e um colega de estrada, com quem partilhei muitos momentos e transformações, e o OG Vuino é uma das minhas maiores referências e alguém que viveu tudo isso antes de nós, abrindo portas."


A faixa funciona como uma carta ao hip-hop. "Cura porque é a nossa terapia e causa porque teve um efeito estrondoso na nossa caminhada pessoal e artística."


E há ainda uma segunda parte desta história. O Disco 1 termina com "The Truth About You", apresentada como introdução ao Disco 2. Se a primeira metade olha para dentro, a seguinte deslocará o foco para fora.


"Depois de mostrar a minha verdade, vou partilhar no Disco 2 as minhas considerações sobre o estado atual da sociedade. Será uma crítica social, abordando vários temas que considero relevantes. Eu não podia falar da verdade dos outros sem antes partilhar a minha."


Talvez essa seja a frase que melhor explica a arquitetura de Sinto Muito. Antes de avaliar o mundo, Nilton decidiu expor-se. Antes de falar dos outros, fala de família, amor, ambição, fragilidade, relações, passado e futuro. Tudo isso converge numa preocupação que atravessa o projeto: legado. "Gostaria que falassem de mim com orgulho, como alguém que foi 100% autêntico, com uma identidade própria, mensagem transformadora e com uma execução ímpar", diz quando questionado sobre como gostaria de ser recordado daqui a duas décadas. "Só quero que a minha arte consiga viver para sempre e passar de geração em geração."


Sinto Muito pode ser um título carregado de vulnerabilidade. Mas Nilton CM chega a esta fase sem pedir desculpa pela dimensão daquilo que pretende alcançar. Quer deixar obra, quer deixar mensagem e, acima de tudo, quer deixar um clássico.

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