O que leva uma atriz a pedir ajuda? A história de Muna Baldé

30 de Outubro de 2026
O que leva uma atriz a pedir ajuda? A história de Muna Baldé
Muna Baldé | DR

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Muna ligou-me para pedir ajuda. Queria que a BANTUMEN divulgasse a campanha de financiamento coletivo de Sem ti, a curta-metragem que pretende realizar e protagonizar. Respondi-lhe com uma pergunta: “Porque deveria ajudar-te a ti e não a outros artistas?”. A conversa que se seguiu deu origem a esta entrevista.


O pedido era concreto, conseguir apoio para fazer um filme, mas nas respostas de Muna foi surgindo o percurso que antecede esse telefonema: a formação em representação, a mudança de país, os primeiros castings, a doença e um regresso a Portugal vivido com a sensação de não ter cumprido o que se propusera. “Foi muito difícil regressar a Portugal sem ‘nada para mostrar’”, conta. “Saí com um sonho e voltar foi como se fosse um falhanço”, admite.


Maimuna Raquel Reis Baldé tem 27 anos e cresceu em Armação de Pêra, no Algarve. É filha de Maria da Luz, portuguesa, e de Braima Baldé, natural da Guiné-Bissau. A relação dos pais foi recebida como uma grande controvérsia pela família materna, que não aceitava ver a filha ao lado de um homem negro. Cresceu numa vila onde todos se conheciam e se ajudavam com o que podiam, e é daí que diz vir a vontade de retribuir. “Sempre tive o sentido de comunidade dentro de mim e quis poder ajudar os outros da forma como me ajudaram enquanto cresci”, recorda.


As artes chegaram-lhe por casa, nos cânticos de louvor da mãe, nos desenhos do irmão e nos filmes que via com o pai, no período em que esteve presente na sua vida, quase sempre com Denzel Washington, o seu ator favorito, ou Samuel L. Jackson. Na escola, os professores diziam à mãe que tinha potencial, se se empenhasse mais. Ainda tentou o ramo das ciências e tecnologias para ser veterinária, mas acabou por seguir as artes, primeiro como modelo, depois como atriz e hoje também como cantora. A certeza sobre a representação vinha de muito antes. Aos seis anos participou numa peça da escola. “Soube que esse seria o meu caminho”, diz. Depois disso, inventava histórias com as bonecas e representava-as para a mãe.

“Amar alguém não deve significar perder a ligação a quem somos”

Muna Baldé

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Em 2016, foi a um concerto de The Weeknd e decidiu que queria mudar-se para o Reino Unido, de preferência para Londres. Sem dinheiro suficiente, aceitou a proposta do irmão mais velho, que vivia em Manchester: “Vem para cá que eu ajudo-te mais.” Trabalhou o verão inteiro para juntar dinheiro e, em setembro de 2017, mudou-se para a cidade inglesa. A cultura e a língua eram diferentes e a adaptação não foi fácil, mas tinha um objetivo claro, tornar-se atriz profissional. Estudou no Manchester College, na UCEN Manchester e na Identity School of Acting, também em Manchester, e, mais tarde, na ACT, Escola de Atores, em Lisboa. Desses anos guarda os colegas de diferentes culturas, que lhe trouxeram outras perspetivas, e dois professores, Karen e Nuno Nunes, em quem diz ter encontrado a humildade e o profissionalismo que um dia gostaria de ter.


Até hoje, a experiência como atriz continua limitada a projetos escolares, mas acredita que a primeira oportunidade profissional não vai tardar. O primeiro casting que fez foi para o papel de Cleópatra numa produção de Jada Pinkett Smith. “Lembro-me de pensar que, se este é o meu primeiro casting, só posso imaginar o que Deus tem para mim”, conta. Gostaria de interpretar personagens fortes, como as de Viola Davis em “How to Get Away with Murder” ou de Kerry Washington em “Scandal”, capazes de fazer o público sentir que há algo a mudar no mundo ou em si próprio. Agradece as oportunidades que já teve, mas sente que ainda encontra muitas limitações nos castings. Trabalha a partir do method acting e procura uma interpretação o mais natural possível, o que nem sempre encaixa no que lhe pedem em publicidade, onde muitas vezes querem que seja “mais extra”.


Voltar a Portugal foi o momento mais duro. “Sem dinheiro, doente e sem vontade de fazer nada”, é assim que descreve como se sentia. Foi a mãe quem a fez continuar, com uma frase simples: “Vai para a ACT, que eu ajudo.” Muna acredita que, sem esse apoio, teria deixado o sonho de lado. Hoje diz estar mais focada no seu bem-estar, na carreira e nos objetivos que quer cumprir.


A doença de que fala tem nome. Viveu depressão, ansiedade e dois surtos psicóticos e sabe, por experiência própria, como pode ser difícil pedir ajuda. Aos 16 anos, quando procurou uma psicóloga, sentiu os seus sentimentos desvalorizados. Mais tarde, começou a beber e a fumar mais, convencida de que era só pressão e stress. Só percebeu a gravidade quando, num desses episódios, se viu sozinha e sem telemóvel num lugar isolado, depois de ter entrado no carro de um desconhecido. Foram outros dois desconhecidos que a levaram ao hospital. A mãe esteve sempre ao seu lado e o pai só percebeu a dimensão do que se passava quando ela desapareceu e ninguém a conseguia contactar. “A mente é um sítio que ninguém deve perder, portanto dar-lhe valor é uma necessidade”, afirma. Hoje fala mais abertamente sobre o que sente e gostava que a saúde mental fosse discutida nas escolas, deixasse de ser tabu entre jovens e mais velhos e tivesse mais apoio, sobretudo entre os jovens artistas.


Sem ti começou por ser uma letra escrita há algum tempo, mas retoma o conceito de uma curta que quer fazer desde 2020 e que chegou a pensar chamar Where Do We Go From Here?. Primeiro veio a vontade de realizar e só depois a música. A canção já está disponível no SoundCloud e chega ao Spotify depois da estreia do filme. Nella e Roman, as personagens principais, partem dela e de um ex-companheiro, de uma relação vivida quando tinham 18 e 20 anos, mas Muna acredita que muitas pessoas passaram pelo mesmo. Transformar essa história em ficção foi a forma que encontrou de passar a mensagem central do filme. “Amar alguém não deve significar perder a ligação a quem somos”, resume.


A curta começa por apresentar Nella em criança, com o avô, o seu primeiro grande amor, e segue depois para a adolescência, com Roman, o segundo grande amor e a primeira grande deceção. Como referência, aponta “Insecure”, de Issa Rae, pela atenção à narrativa e às paisagens. A canção entra a meio ou no fim. Por tratar relações tóxicas e sofrimento psicológico, o filme terá avisos sobre imagens que podem ser sensíveis para alguns espectadores, mas a realizadora garante que as duas personagens vão acabar bem. Quanto à exposição da própria vida, diz não ter receio. “A minha história já deixou de ser minha há muito tempo”, afirma, explicando que a quer partilhar com respeito por si e por todos os que fazem parte dela. Gostava que o público simpatizasse com Nella e Roman, mesmo que ache um mais tóxico do que o outro, porque ambos tiveram vidas, experiências e contextos diferentes e, no fim, só procuram ser felizes.


O projeto já passou da fase da ideia. A música está terminada e a campanha está criada. Muna vai assumir a realização e a interpretação e conta envolver artistas de França e do Reino Unido, mas o casting ainda está em curso, também por questões de orçamento, e a equipa ainda não está fechada. Antes do financiamento coletivo, procurou apoio no Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e na Fundação Calouste Gulbenkian, mas as bolsas disponíveis não se enquadravam no projeto. O dinheiro angariado vai servir para deslocações, alojamento, alimentação, imprevistos e para pagar a produção. Pagar de forma justa a quem trabalha é, para si, uma questão de princípio. Diz com orgulho que vem da classe média baixa e que sabe o que são dificuldades financeiras, por isso preferiu ser transparente sobre o destino do dinheiro. “O mais difícil neste projeto tem sido fazer tudo maioritariamente sozinha”, explica. Pedir financiamento, dar a cara, fazer storyboards, falar com associações e preparar apresentações tem sido desgastante, mas acredita que vai valer a pena.


Quando lhe perguntei como se sentiu ao pedir ajuda, a primeira palavra foi “vergonha”. “Sempre tive na cabeça: se não conseguir fazer sozinha, não faço. Mas esse pensamento já me custou algumas coisas na vida”, confessa. Aprendeu, diz, que pedir ajuda faz parte da vida. “Deus deu-nos a todos recursos diferentes e, se mais pessoas conseguissem pedir ajuda, ficariam surpreendidas com quem pode estar do outro lado da moeda”, acrescenta. A resposta ajuda a perceber o telefonema. Muna está a tentar realizar um filme enquanto aprende a contrariar a ideia de que tem de o conseguir pelos seus próprios meios, num percurso que já dependeu de um irmão, da mãe, de professores, de colegas e de dois desconhecidos.


A pergunta com que a recebi continua a fazer sentido: porquê dar atenção a esta artista entre tantas outras que procuram uma oportunidade? A história de Muna junta-lhe outra, a de saber quanto trabalho, formação e persistência ficam por conhecer por ainda não terem chegado a um palco, a um ecrã ou a um primeiro contrato.


A campanha de financiamento coletivo de Sem ti está aberta na plataforma GoFundMe, sem prazo definido e com contribuições de qualquer valor. A rodagem está prevista para o final de novembro e o início de dezembro, com o objetivo de apresentar o filme em festivais nacionais e internacionais em 2027. Além de contributos financeiros, a equipa procura atores, figurantes, luzes e câmaras. Quem quiser ajudar pode contactar Muna através do email mrreisbalde@gmail.com.

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