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Na Oceânica Imobiliária, vender um apartamento começa, muitas vezes, milhares de quilómetros antes de o cliente atravessar a porta do edifício. Os emigrantes cabo-verdianos carregam a pátria como de de um fardo de amor se trata-se, sustentando-a à distância, com o suor do trabalho (só em 2022 estabeleceu-se um novo recorde, com as remessas enviadas a representarem 13% do PIB do país). E mesmo quando o corpo está longe, o pensamento permanece ligado à terra. Voltam nas férias para reencontrar o que deixaram e, no horizonte da reforma, imaginam um regresso definitivo, como se a vida só se completasse ali onde tudo começou. Por isso, o grosso das suas poupanças é canalizado para a aquisição de terrenos e a construção de habitação, o core business da Oceânica Imobiliária.
Cada projeto que a empresa empreende pode começar numa comunidade cabo-verdiana nos Estados Unidos, numa celebração de São João nos Países Baixos, num encontro em Marselha ou numa apresentação na Suíça. Onde a diáspora cabo-verdiana estiver presente, a empresa leva plantas, imagens e projetos, mas vende sobretudo algo menos tangível: a possibilidade de regressar. “Vendemos não só um apartamento, mas também aquela sensação de voltar para casa”, explica Vanya Ramalho, diretora Comercial e de Marketing da Oceânica, em entrevista à BANTUMEN. Segundo a responsável, a maioria dos clientes da empresa continua a ser constituída por cabo-verdianos residentes no estrangeiro, embora o número de compradores de outras nacionalidades esteja a aumentar. É uma estratégia comercial, mas também revela uma característica estrutural de Cabo Verde: “poucas economias africanas mantêm uma relação tão intensa com uma população emigrada”, explica-nos Vanya.
A Organização Internacional para as Migrações identifica importantes comunidades cabo-verdianas nos Estados Unidos e na Europa, incluindo Portugal. As remessas continuam a ter um peso central na economia; em 2025, representaram cerca de 10,3% do PIB, segundo o Banco Mundial.
Para uma empresa imobiliária, essa ligação entre quem partiu e quem mantém o desejo de regressar transformou-se num mercado.
Uma construtora nascida numa cidade em transformação
A Oceânica foi fundada em 2018 por Chady Hojeige, empresário também ligado à indústria através da Caboplast. A Câmara de Comércio de Sotavento distinguiu-o recentemente como Jovem Empresário do Ano e identifica-o como fundador da empresa. A distinção, atribuída em 2025, junta-se ao Prémio Ambiental que Hojeige recebeu em 2019 pelo contributo para o progresso ambiental do país, um compromisso que ganhou expressão prática em outubro de 2025, com o lançamento do primeiro sistema nacional de reciclagem de plástico de Cabo Verde, que atualmente processa mais de 300 toneladas de plástico por mês.
A empresa apresenta-se como uma estrutura integrada: arquitetura, engenharia, construção, fiscalização e comercialização são desenvolvidas dentro do mesmo universo empresarial. No seu site, diz contar atualmente com mais de 300 colaboradores diretos e indiretos e operar também em gestão de projectos e energias renováveis, área de negócio que identifica hoje com a marca Oceânica Green Energy. Segundo números avançados pela própria empresa, o portefólio atual soma cerca de 15 projetos em construção e aproximadamente 414 unidades, entre apartamentos, penthouses e quartos de hotel, entre os quais um condomínio de 92 unidades, e é nesse contexto que resume a sua visão como a de “ser a empresa imobiliária líder nos mercados nacional e internacional, incluindo a diáspora, sendo reconhecida pela inovação e qualidade como principais fatores de diferenciação competitiva”, sob um lema que repete internamente, “construir hoje, pensando no amanhã”, e valores que diz cultivar de honestidade e transparência em todas as negociações.
A paisagem construída pela empresa concentra-se sobretudo na cidade da Praia. No portefólio aparecem vários edifícios residenciais, muitos deles junto à orla marítima, com apartamentos de diferentes tipologias e penthouses, num posicionamento assumidamente associado ao conforto, à arquitectura contemporânea e ao segmento superior do mercado. Mas a ambição descrita por Vanya Ramalho ultrapassa a construção de apartamentos.
“Quando vês o prédio, já sabes se é Oceânica”, afirma, referindo-se à tentativa de criar uma identidade arquitetónica reconhecível. Ao mesmo tempo, a empresa procura evitar que essa assinatura resulte numa repetição indiferente ao território e, por isso mesmo, “cada projeto deve incorporar alguma coisa do lugar onde nasce”.
Num empreendimento em Palmarejo Baixo, por exemplo, a presença de aves na zona inspirou o conceito arquitetónico. No Tarrafal, a memória de um antigo espaço de cinema entrou na discussão sobre a componente cultural e social do novo empreendimento. Para São Vicente, a empresa diz estar a estudar uma linguagem que dialogue com a identidade cultural da ilha.
A ideia é simples, embora difícil de executar à escala urbana: modernizar sem construir cidades que poderiam existir em qualquer lugar.
É aqui que a história da Oceânica se cruza com uma transformação mais profunda de Cabo Verde.
Durante décadas, construir casa própria significou, para muitas famílias cabo-verdianas, comprar terreno, juntar poupanças ou remessas da emigração e avançar gradualmente com a obra. Uma divisão primeiro, um piso depois, acabamentos quando houvesse dinheiro….
Dados compilados pelo Centre for Affordable Housing Finance in Africa indicam que pelo menos 80% das cerca de 140 mil unidades habitacionais registadas em 2010 tinham sido autoconstruídas, com as próprias famílias a gerir materiais e mão-de-obra. A mesma fonte estima um défice habitacional de cerca de 11.119 agregados familiares, predominantemente urbano.
A autoconstrução não é, portanto, apenas uma questão estética. É também consequência da dificuldade de acesso a crédito, terreno urbanizado e habitação formal a preços compatíveis com os rendimentos. É precisamente neste ponto que a narrativa da modernização exige cautela.
A expansão de promotores formais como a Oceânica contribui para profissionalizar a construção, introduzir planeamento, fiscalização, engenharia e novos padrões arquitetónicos. Mas o segmento alto do mercado não substitui uma política pública de habitação acessível. O próprio diagnóstico do setor mostra que os preços praticados no mercado formal continuam fora do alcance de uma parcela significativa da população. O desafio será aproximá-las.

Oceânica Imobiliária | DR
A diáspora deixa de financiar apenas a casa da família
Há, entretanto, sinais de mudança na forma como o dinheiro da emigração entra no setor imobiliário. O Banco Mundial concluiu que a atividade da construção se fortaleceu em 2025 e destacou um aumento de 15,3% no stock de investimentos de emigrantes, que ajudou a financiar projetos residenciais e comerciais no arquipélago.
É neste movimento que a Oceânica procura posicionar-se. Em vez de o emigrante acompanhar durante anos uma construção familiar à distância, a empresa propõe um produto formalizado: projeto definido, calendário de obra, possibilidade de financiamento bancário e apartamento entregue como produto final.
Vanya Ramalho explica que a companhia trabalha com bancos cabo-verdianos em diferentes projectos e que a venda em planta permite repartir os pagamentos durante o período de construção. A diferença pode parecer apenas comercial mas, na realidade, traduz uma alteração na relação histórica entre emigração, poupança e património em Cabo Verde: a remessa enviada para levantar uma casa familiar começa a conviver com o investimento imobiliário organizado. E a diáspora deixou de ser o único público.
Segundo Ramalho, além dos nacionais, a Oceânica tem já compradores de diferentes países africanos e europeus. A empresa vê aí outro mercado: estrangeiros que conheceram Cabo Verde através do turismo e começam a olhar para o arquipélago também como lugar para comprar uma segunda residência ou investir.
Do turismo de praia ao investimento imobiliário
Os números explicam parte desse interesse. Cabo Verde recebeu 1.248.052 hóspedes em estabelecimentos hoteleiros em 2025, mais 6% do que no ano anterior, e foram registadas mais de 6,1 milhões de dormidas.
O Banco Mundial considera o turismo um dos principais motores do crescimento de 6,3% registado pela economia cabo-verdiana em 2025, mas alerta para a sua concentração no Sal e na Boa Vista e para a forte dependência dos mercados europeus, responsáveis por cerca de 93% das chegadas.
É exatamente essa concentração que a Oceânica diz querer contrariar na sua comunicação. Em fevereiro de 2026, a empresa apresentou um vídeo promocional dedicado não aos seus edifícios, mas ao próprio país: montanhas, praias, cultura e quotidiano das ilhas. A iniciativa levou à assinatura de um memorando com o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, e recebeu apoio institucional para utilização do vídeo em eventos internacionais. Esse memorando ganharia forma mais concreta a 9 de fevereiro de 2026, quando a Oceânica assinou também um Protocolo de Cooperação com o Instituto do Turismo de Cabo Verde, que reconhece formalmente a empresa como promotora estratégica do turismo e da identidade cultural cabo-verdiana.
Na entrevista, Ramalho é crítica do modelo em que “um turista aterra no Sal, é transportado diretamente para um resort e regressa ao aeroporto depois de consumir pouco da economia local”. A Oceânica quer contrariar essa lógica, vendendo a experiência mais ampla de Cabo Verde.
O campeonato do mundo de futebol de 2026 e a histórica participação de Cabo Verde acabaram por se tornar num pilar dessa estratégica, ao acrescentar a exposição internacional que a empresa ainda não tinha previsto. Ainda é cedo para transformar atenção mediática em chegadas efetivas de visitantes, mas dados de reservas aéreas durante o Mundial apontaram para um crescimento homólogo superior a 50% nas reservas para julho e agosto.
Tarrafal: quando hotel e apartamento se encontram
No Tarrafal, a aproximação entre construção, turismo e investimento já ganhou forma física. Em janeiro de 2026 foi lançada a primeira pedra do Charme Stephanie / Oceânica 10, empreendimento que combina hotel e residência hoteleira. O projeto prevê cerca de 200 unidades, entre quartos e apartamentos T0, T1 e T2, além de espaços comerciais, restauração, sala de conferências, cinema e discoteca. A conclusão está prevista num horizonte de três anos.
O modelo permite ao comprador adquirir uma unidade integrada numa operação hoteleira, convertendo o imóvel simultaneamente em património e ativo turístico.
É uma mudança relevante para uma empresa que começou sobretudo com edifícios residenciais na Praia e que, segundo Vanya Ramalho, prepara projetos noutras ilhas, incluindo São Vicente, Sal e Boa Vista.
Construir prédios, mas também trabalhadores
Existe, porém, um obstáculo menos visível do que a falta de terrenos ou o custo dos materiais: quem vai construir? “O nosso maior problema é a mão-de-obra”, explica Vanya Ramalho. A responsável descreve dificuldades em encontrar profissionais suficientes de diferentes especialidades da construção e associa parte dessa escassez à emigração de trabalhadores cabo-verdianos. A resposta encontrada pela empresa tem passado também pela contratação de migrantes oriundos de outros países da África Ocidental e pela formação interna de trabalhadores que chegam sem especialização.
É uma inversão na história migratória do país: enquanto cabo-verdianos continuam a emigrar e a enviar capital para construir no arquipélago, trabalhadores estrangeiros chegam para participar fisicamente nessa construção.
Na entrevista, Ramalho estimou em cerca de 300 o número de trabalhadores da sua empresa, diretos e indiretos. A empresa mantém ainda equipas de arquitectura e engenharia e, segundo Ramalho, procura fazer progressão profissional dentro das próprias obras.
Que Cabo Verde está a ser construído?
A Oceânica gosta de se apresentar através de uma ideia: “uma nova forma de construir Cabo Verde”. A frase aparece, inclusive, na página institucional da empresa no LinkedIn.
A afirmação ganha significado quando colocada no contexto do país. Cabo Verde está mais urbanizado, recebe mais turistas, atrai investimento, depende fortemente da relação económica com a diáspora e enfrenta simultaneamente um défice de habitação formal, dificuldades de acesso à casa e uma longa tradição de construção por iniciativa das próprias famílias.
A Oceânica ocupa uma das frentes dessa transformação: construção privada formal, arquitectura contemporânea, turismo imobiliário e capital da diáspora.
Mas a verdadeira medida da modernização urbana cabo-verdiana não será apenas a altura dos edifícios ou o valor das penthouses.
Será a capacidade de construir cidades onde o investimento da diáspora possa conviver com as necessidades de quem nunca saiu; onde o turismo deixe mais valor na economia local; onde a arquitectura contemporânea não apague a memória dos bairros; e onde os empregos criados pelas novas obras produzam também qualificações e mobilidade social.
Nesse sentido, o projeto que está em construção é, no fundo, Cabo Verde tal como o conhecemos.
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Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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