Okuya, a operadora angolana que transforma memória em turismo cultural

2 de Abril de 2026

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Num momento em que a comunidade internacional volta a confrontar-se com o legado da escravatura, uma operadora angolana de turismo cultural propõe uma resposta diferente: fazer do território e da memória viva uma experiência de viagem. A Okuya é a empresa por detrás do projeto Trilhas de Memória – Rotas de Turismo Cultural de Angola.


O projeto foi apresentado em março de 2026 na ITB Berlin, a maior feira mundial de turismo, que decorreu entre 3 e 5 de março com Angola como país anfitrião. O lançamento internacional da primeira rota, a Rota Transatlântica, aconteceu num momento de ressonância histórica particular: a 25 do mesmo mês, 123 países membros da ONU votaram a favor de uma resolução que declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a escravatura crimes de máxima gravidade à escala da humanidade. A proposta, liderada pelo Gana, foi apresentada pelo presidente John Dramani Mahama com uma linguagem que converge, de algum modo, com o que o projeto da Okuya procura encarnar no terreno: "fundamentar o resultado final na verdade, na compaixão e na consciência moral, na memória, na educação e no diálogo."


É exatamente nesse cruzamento que a Okuya opera. O modelo que defende, sintetizado no lema Discover Stories. Preserve Memory. Connect Worlds”, coloca no centro da experiência as pessoas, o quotidiano e as vivências que estruturam as histórias, transformando narrativas transmitidas de geração em geração em experiências culturais autênticas e participativas. As rotas são construídas a partir do património imaterial angolano: histórias e literatura oral, memória comunitária, línguas nacionais, práticas culturais e saberes tradicionais. 

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Contadores de histórias, autoridades tradicionais e mediadores culturais assumem um papel central, garantindo que a transmissão da memória permanece nas mãos das próprias comunidades. No total, o projeto prevê seis rotas - Rota Transatlântica, Rota dos Reinos, Rota das Mamães, Rota dos Nômadas, Rota da Memória Visual e Rota dos Festivais -, cada uma criada com o objetivo de conectar diferentes territórios através dessas camadas de identidade e memória.


Em parceria com Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, executado pela Okuya em parceria com o Biso, Curadorias e o Ministério do Turismo de Angola, este projeto trata-se de uma rutura consciente com a lógica dominante do turismo massificado: "Consideramo-nos pioneiros deste modelo mais respeitador, mais consciente e mais inspirador. O que queremos preservar é a dignidade, o contexto e o significado das experiências. O turismo pode - e deve - ser uma ponte de entendimento, não apenas de consumo."


A posição ganha sentido quando lida contra o pano de fundo do setor em Angola. O país vive uma espécie de explosão como destino emergente, alimentada pela crescente procura por lugares ainda pouco explorados. Desertos ancestrais, culturas praticamente inalteradas, paisagens que resistem ao tempo e uma identidade ancestral compõem uma oferta diferenciada, especialmente num continente onde os destinos mais frequentados tendem a convergir para os mesmos circuitos.


Mas esta narrativa de autenticidade, embora sedutora, exige uma leitura mais crítica e é precisamente aqui que a abordagem da Okuya se distingue. Os conceitos de "pureza" e de "intocado" são frequentemente construções discursivas que tanto podem valorizar quanto instrumentalizar territórios e culturas. A questão não é tanto o que Angola tem para oferecer ao visitante, mas em que termos essa oferta é estruturada e para quem ela gera valor.


Frequentemente descrito como uma potencial "mina de ouro" para a economia angolana, o setor do turismo carrega expectativas elevadas. A experiência de outros países - Portugal é um exemplo próximo - demonstra que o turismo não é um atalho automático para o desenvolvimento. Trata-se de um processo cumulativo, que exige planeamento estratégico, investimento sustentado e capacidade institucional. Em Angola, o potencial é visível, mas alguns entraves permanecem estruturais: ausência de infraestruturas integradas, necessidade de formação técnica especializada, fragilidade na articulação entre agentes do setor e inconsistência das políticas públicas. Mais do que crescer rapidamente, o desafio passa por crescer com intencionalidade. Sem isso, o crescimento desordenado arrisca desgastar a própria imagem que hoje atrai visitantes.


É nesse espaço de tensão, entre a promessa e a fragilidade, que a proposta da Okuya se distingue como sinal de que é possível construir um turismo com outra lógica: mais enraizado, mais ético, mais consciente do que preserva e do que recusa.

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