“OLIME”, uma peça que expõe a violência institucional escondida na linguagem da proteção

31 de Março de 2026
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João Branco, Eliana Rosa e Mynda Guevara | © Machine Pedro Dinis

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OLIME é uma criação do Saaraci Coletivo Teatral com direção de João Branco, texto de Marta Lança e Marinho Pina, e interpretação de Eliana Rosa, João Branco e Mynda Guevara. O espetáculo parte de uma mãe convocada por uma Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e, o que começa como um procedimento de rotina, transforma-se, progressivamente, num exame minucioso à sua vida, aos seus horários, ao seu salário, à sua forma de amar e de existir. A cada pergunta repetida, a cada formulário preenchido, a linguagem institucional vai produzindo uma violência que ninguém nomeia como tal.


A peça nasce num momento específico do Portugal contemporâneo. João Branco, encenador e co-intérprete, é direto sobre o que o motivou: "OLIME não nasce de um caso, nasce de um padrão." Um padrão feito de histórias que mudam de nome mas não mudam de estrutura - mães pobres, quase sempre racializadas, avaliadas por sistemas que dizem proteger e que começam logo por desconfiar. A pesquisa que sustenta o texto foi feita de dentro para fora e tem por base conversas com juristas que acompanharam processos similares, com quem trabalha no sistema, com mães solo que tiveram funcionários do Estado a investigar as suas vidas a partir de denúncias anónimas. "Rapidamente percebemos que o mais interessante não estava no manual, estava nas fissuras", diz Branco. "Entre o que o sistema diz que faz e aquilo que as pessoas sentem que lhes acontece.”


O espetáculo alterna entre o realismo clínico das entrevistas institucionais e interlúdios que abrem o discurso para outras camadas: memória colonial, violência policial, a dificuldade permanente de tratar de documentos num país que diz ser de todos mas não distribui a cidadania por igual. Ninguém ali é apresentado como puro. "Nem a mãe é santificada, nem o técnico é um vilão de pacotilha", diz Branco. "O sistema funciona precisamente porque é habitado por pessoas que acreditam que estão a fazer o seu trabalho." O maior desafio foi tornar visível o que se disfarça de procedimento: "A linguagem institucional é muito eficaz porque parece inofensiva. Ninguém está a insultar ninguém e, no entanto, há uma desmontagem da pessoa ali em curso.”

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Universal / Carlão
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© Queila Fernandes

Eliana Rosa, que interpreta Maria Isabel, construiu a personagem a partir da contenção e do que não é dito. "Acho que é no corpo que se vê tudo. Aquela tensão constante, o tentar fazer tudo certo, o medo de falhar ou ser apanhada a mentir. É um corpo cansado, contido, sempre em alerta." O momento do texto que mais a afetou é aquele em que a personagem percebe que a avaliação que sofre não é sobre ajudar, mas sobre controlar: "A partir daí, tudo o que ela faz pode ser usado contra ela. Um gesto simples, feito por amor - como cantar -, passa a ser mal interpretado. Já não importa o que sente, só o que está escrito sobre ela."


Eliana foi mãe há pouco tempo, e esse facto atravessa o trabalho de forma inevitável. "Exigiu-me continuar mesmo quando custa. Há dias em que estou cansada, emocionalmente mexida, mas tenho de subir ao palco na mesma. Obrigou-me a ter uma disponibilidade e entrega que não tinha tido antes, estou muito mais sensível a tudo. Há coisas que ficam. Mas ao mesmo tempo sinto que isso também deu mais verdade ao trabalho." Ao pensar nas mulheres à sua volta e nas histórias que conhece, descreve como "revoltante" não parar para refletir em questões que fazem parte da história coletiva.


Mynda Guevara é responsável pelos temas originais do espetáculo e pela sua dimensão performativa. "A minha intervenção agrupa um conjunto de apontamentos musicais e monólogos que fazem a reflexão consciente de cada cena", explica. O processo de composição foi, nas suas palavras, "fácil no sentido em que são temas que infelizmente fazem parte do nosso quotidiano" - o abuso policial, as dificuldades com a documentação, a precariedade como destino estrutural. Ao assistir à peça tomar forma, reconhece momentos da sua própria vida e das pessoas que conhece, sem que isso a tenha paralisado, pelo contrário, torna-se a base necessária para que cada palavra tenha o peso que é suposto. Em palco, um casaco com as fotografias de Odair Moniz, Musso, Mc Snake, Bruno Candé, Alcindo Monteiro torna-se representação simbólica de quem morreu às mãos de um Estado cuja função principal era proteger.


Guevara pensa a relação entre as duas linguagens artísticas que habita com uma clareza que vai além do espetáculo: "O teatro e a música são duas armas diferentes. No teatro tens vivência, uma narrativa e um impacto direto com o público. Na música tens mais emoção, identidade e outro nível de alcance. No meu caso, posso usar o teatro para dar corpo às minhas músicas e usar a minha música para levar o teatro a mais gente. E isso é poder.” Quando confrontada com o que lhe é completamente estranho em Maria Isabel, a resposta vira-se para um contexto que a nível pessoal não lhe é estranho: votar no Chega, tendo em conta todo o historial familiar da personagem e a precariedade que a define. É uma contradição que o espetáculo não resolve nem explica e é precisamente aí que reside parte da sua força dramática.


A língua é outro campo de disputa em OLIME. João Branco recusa a ideia de uma identidade lusófona pacificada - ”a lusofonia é uma falácia", afirma, "um engodo que derrapa numa mentira oportunista" quando confrontado com as assimetrias reais entre os países que partilham o português. Em cena, o crioulo entra como afirmação de existência e “o português que aparece na peça não é uno, nem pacífico. Há fricção, há desvio, há memória. Trabalhar a língua foi também recusar uma hierarquia”, a que decide qual o português correto e, por extensão, quem pertence.


É por aqui que passa também a questão central do espetáculo: a de saber o que o Estado mede quando diz que mede risco, e se os instrumentos que usa conseguem distinguir perigo real de desigualdade estrutural. João Branco não tem grande medo do rótulo de panfleto - "às vezes é só uma forma de desvalorizar discursos incómodos" -, mas é igualmente claro sobre o que quis evitar: a palavra de ordem em vez da complexidade, a tese em vez da pergunta. "Cada um vê o espetáculo e leva para casa a sua própria interpretação do que acabou de ver”, assume numa lógica em que o espetáculo instala o desconforto e deixa-o lá.


É nesse desconforto que Eliana Rosa habita a personagem noite após noite. A frase que escolhe para levar consigo quando o espetáculo fechar é também a que melhor condensa o que OLIME coloca em causa: "Chamam-lhe proteção à criança, mas o que fazem muitas vezes é castigar as mães.”


OLIME conta com o apoio do Ministério da Cultura / Direção-Geral das Artes e foi desenvolvido em residência artística no Teatro Viriato.

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