Paula Figueiredo criou uma academia que usa o jiu-jitsu para ajudar crianças a regular emoções

23 de Abril de 2026
Paula Figueiredo entrevista
Paula Figueiredo | DR

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Num momento em que cresce a atenção dada à saúde mental e ao desenvolvimento infantil, a Academia de Jiu-Jitsu Ocupacional, fundada por Paula Figueiredo no Cacém (Linha de Sintra), afirma-se como uma resposta pensada para crianças que nem sempre encontram lugar nas abordagens mais convencionais. O projeto alia movimento, regulação emocional e desenvolvimento infantil, com especial atenção a crianças com necessidades educativas especiais e às suas famílias.


Com um percurso marcado pelo jiu-jitsu, pela experiência direta com crianças e por uma leitura atenta das necessidades da comunidade atípica, Paula Figueiredo transformou uma inquietação pessoal e profissional num método próprio, centrado na autorregulação emocional, no vínculo e na construção de segurança através do movimento.


A academia nasceu oficialmente em junho de 2024, mas a origem do método vem de trás. Nesta entrevista à BANTUMEN, Paula conta que começou por reconhecer, no próprio corpo, o impacto regulador do jiu-jitsu. Mais tarde, ao acompanhar o sobrinho e outras crianças, percebeu que muitas das respostas existentes continuavam centradas na correção do comportamento e não na compreensão do que esse comportamento estava a comunicar. “Durante anos, vi crianças a serem rotuladas como ‘difíceis’, quando na verdade precisavam de estratégias diferentes”, diz. “Faltava corpo, faltava toque consciente, faltava escuta real.”

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Paula Figueiredo entrevista

DR

Foi dessa constatação que nasceu a Academia de Jiu-Jitsu Ocupacional. Além de ensinar a modalidade de forma tradicional, o projeto usa o jiu-jitsu como ferramenta para trabalhar autorregulação emocional, foco, consciência corporal, gestão de limites, confiança e autonomia. A lógica, explica a fundadora, não é encaixar todas as crianças no mesmo modelo, mas construir o método em função das suas necessidades, ritmos e formas de estar. “Nós não encaixamos a criança no método. Construímos o método à volta da criança”, afirma. “Nós não ensinamos só jiu-jitsu, ensinamos vínculo, segurança e pertença.” E é precisamente dessa base que parte a sua abordagem. “Quando uma criança se sente segura, ela aprende. Quando se sente aceite, ela cresce.


Atualmente, a academia acompanha cerca de 95 crianças e já impactou diretamente mais de 50 com necessidades educativas especiais. Segundo a fundadora, as mudanças mais significativas surgem na forma como as crianças ganham confiança no próprio corpo, lidam com a frustração, entram em relação com os outros e começam a ocupar o seu lugar com mais segurança. Esse impacto, sublinha, não se esgota no tatami e acaba por se refletir na escola, em casa e nas relações familiares. Para Paula Figueiredo, a questão nunca esteve apenas no comportamento visível, mas na forma como ele é lido pelos adultos e pelos contextos à volta da criança. “Não existem crianças difíceis. Existem contextos que não estão preparados para as compreender”, resume.


A família, aliás, tornou-se uma parte central do projeto. Ao longo do trabalho no terreno, Paula percebeu que os progressos das crianças não podem ser vistos isoladamente do contexto em que vivem. Foi essa leitura que levou a academia a integrar também dinâmicas de apoio parental e acompanhamento, entendendo que o desenvolvimento infantil depende igualmente da estabilidade e da capacidade de resposta do sistema familiar. “Não estamos a trabalhar só com uma criança. Estamos a trabalhar com um sistema”, explica. “Quando conseguimos trazer mais clareza, mais estratégias e mais confiança para o adulto, isso reflete diretamente na criança.”


Outro dos eixos do projeto é a inclusão entre crianças típicas e atípicas. Na prática, esse trabalho passa por um ambiente estruturado, por adaptações feitas caso a caso e pela criação dos chamados “monitores ocupacionais kids”, crianças das turmas regulares que apoiam colegas com necessidades específicas em fases do processo. A proposta, diz, não é forçar uma integração artificial, mas criar condições reais para que a pertença aconteça com segurança, respeito e preparação.


O projeto tem vindo também a ganhar reconhecimento fora do espaço da academia. Paula Figueiredo foi finalista de uma das edições do programa Bora Mulheres, e a academia tem recebido encaminhamentos por parte de escolas do concelho de Sintra, sinal de que a abordagem começa a ser reconhecida como uma resposta credível para contextos educativos e familiares que procuram alternativas mais inclusivas.


Esta nova fase é vista pela fundadora como uma etapa de expansão, mas também de responsabilidade. O objetivo passa por aumentar o número de crianças acompanhadas, reforçar as condições de acompanhamento e levar o método a outros contextos, incluindo escolas, ginásios e comunidades, sem perder o cuidado individual que está na base do projeto.


No centro de tudo, a ambição de Paula Figueiredo passa também por ajudar a mudar a forma como se olha para a infância, sobretudo quando ela foge ao que o sistema considera normal, ajustado ou esperado. O que a Academia de Jiu-Jitsu Ocupacional propõe é parar de olhar para o comportamento como falha e começar a lê-lo como linguagem. “Criança é simplesmente criança”, resume. E é precisamente aí que está a força do projeto: na recusa em reduzir qualquer criança ao rótulo que lhe colam, quando o que ela precisa, antes de mais, é de espaço para ser compreendida.

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