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Quando Paula Nascimento e Ângela Benoliel Coutinho começaram a preparar uma programação para o centenário de Amílcar Cabral, encontraram artistas que há muito liam os seus textos e trabalhavam a partir deles. Alguns interessavam-se pela tese de agronomia e pelos estudos sobre a erosão dos solos; outros investigavam os arquivos da luta de libertação ou as relações entre cultura e emancipação. A arquiteta e curadora angolana vinha também a acompanhar várias dessas pesquisas, através de filmes, exposições e residências em que participara.
O convite da Fundação Amílcar Cabral chegou em 2023, um ano antes do centenário, e permitiu reunir essas experiências num projeto desenvolvido com Coutinho, então consultora da instituição. “Não queríamos fazer uma exposição sobre a figura de Cabral”, explica Nascimento em entrevista à BANTUMEN. Interessava-lhes perceber como o seu legado teórico continuava a ser interpretado por artistas do continente africano e das diásporas, criando oportunidades de discussão com investigadores de História e Ciências Sociais.
Desenharam assim (Why) Cabral Matters, de que resulta a exposição Amílcar Cabral: por um humanismo radical, apresentada de 16 de outubro a 13 de dezembro de 2026 na MansA —Maison des Mondes Africains (Casa dos Mundos Africanos), em Paris. A coletiva tem curadoria de Armelle Dakouo e Ângela Benoliel Coutinho, a partir da ideia original de Paula Nascimento, e reúne nove artistas. A sua conceção foi acompanhada por pesquisa em Cabo Verde e por conversas com criadores cujas obras já se relacionavam com as questões que a equipa pretendia abordar.

Exposição "Amílcar Cabral: por um humanismo radical", obra de Nú Barreto I©BANTUMEN/Nuno Silva
A leitura do trabalho de Cabral como agrónomo desenvolveu-se nesses encontros. Vários interlocutores estudavam a sua tese e encontravam nela relações com preocupações que atravessavam as próprias obras, da sustentabilidade à vida em comunidade e à não linearidade do tempo. “Não foi como se nós, curadoria, tivéssemos descoberto algo”, esclarece a entrevistada. A investigação acompanhava um trabalho de leitura e criação que já estava em curso.
Nascimento destaca a forma como Cabral articula a erosão dos solos em Cabo Verde e no Alentejo, a terra e as temporalidades. Na Guiné, acrescenta, o conhecimento do ecossistema por Cabral e pelos seus companheiros teve também uma aplicação na resistência aos ataques do exército português. Essa compreensão do território serviu de “arma” durante a luta de libertação, aproximando o estudo das condições locais das decisões tomadas no combate colonial.
Para quem se formou em arquitetura e trabalhou sobre território e cidade, a atenção a essas relações prolonga interesses antigos. “Estes interesses não se esgotaram na minha prática arquitetónica; continuo, enquanto curadora, a debruçar-me sobre estes temas”, afirma. Ao estudar as morfologias urbanas de Luanda, por exemplo, Nascimento encontra pontos de contacto com a forma como Cabral compreende e nomeia os territórios a partir de um conhecimento situado.
A possibilidade de utilizar esse pensamento em diferentes campos acompanha o seu trabalho para além da arquitetura. Refere-se a “ferramentas atemporais de descolonização, que nos permitem fazer pontes entre passado e futuro”, assim como a abordagens ao desenvolvimento que consideram em conjunto várias dimensões da vida das comunidades. A investigação para a exposição estendeu-se igualmente à articulação entre cultura e luta de libertação e à participação das mulheres. “Não quero com isto dizer que não devemos, ainda assim, trazer um pendor crítico”, ressalva.
Nas colaborações com Filipa César, a leitura de Cabral cruza-se com a pesquisa sobre os arquivos guineenses. Nascimento encomendou e coproduziu Uma Cabana, dos cineastas Suleimane Biai e Filipa César, integrado nos projetos que ambos desenvolveram na Guiné-Bissau. Embora o filme não abordasse diretamente a relação entre agronomia e território, a curadora situa-o nesse percurso de investigação, que partilha referências com outros trabalhos que acompanhou.
Foi também cocuradora de Meteorizações, em Serralves, com obras em torno dos arquivos da Guiné e do pensamento cabraliano, e esteve envolvida na residência Affective Ecologies, onde os participantes foram convidados a desenvolver propostas a partir dos seus escritos. Um deles, Yuran Henrique, integra agora a coletiva na MansA, tal como Filipa César. Entre estes projetos, as leituras de Cabral acompanham relações de trabalho que se prolongam e dão origem a novas obras e apresentações.

©BANTUMEN/Nuno Silva

©BANTUMEN/Nuno Silva
É por conhecer essa continuidade que Nascimento recebe com reservas a expressão “Renascença Cabral”, utilizada pelo professor norte-americano Reiland Rabaka. Reconhece um reforço do interesse internacional pelo seu legado intelectual, sobretudo nos Estados Unidos, mas a formulação recorda-lhe outras ocasiões em que se anunciou uma renascença de África ou da arte africana. “Dá a sensação que se está sempre a (re)começar, o que não é o caso.”
Na sua experiência, o pensamento de Cabral tem uma presença particularmente forte em alguns espaços de produção artística das diásporas, nomeadamente nos Estados Unidos, por vezes superior à que encontra na Guiné-Bissau e em Cabo Verde. Distingue essa observação do panorama académico, onde identifica estudiosos em todos os continentes, incluindo no Japão.
Ao conceberem (Why) Cabral Matters, Nascimento e Coutinho já pretendiam dialogar com essas comunidades e fazer circular uma exposição que começaria no continente africano.
O trabalho iniciou-se em Cabo Verde, com viagens de pesquisa e uma programação que a Fundação Amílcar Cabral acabou por não conseguir financiar na totalidade. A equipa previu continuar a investigação na Guiné-Bissau, mas a deslocação não se concretizou, e avançou com as atividades para as quais conseguiu reunir condições. Em 2023, Nascimento, Coutinho e Ângelo Lopes conceberam e fizeram a curadoria do Cine-Debate Cabral, no Centro Cultural do Mindelo e noutros espaços.
As sessões recuperaram filmes do período da luta de libertação que, segundo a entrevistada, nunca tinham sido exibidos em Cabo Verde, acompanhados por conversas entre artistas, estudantes e antigos militantes. A equipa desenhou também um dispositivo móvel de projeção para permitir que a programação chegasse a outros bairros e comunidades. O encontro entre a pesquisa artística, o estudo da História e a experiência de quem participara na luta começou a concretizar-se através dessas sessões.
No ano seguinte, a 12 de setembro de 2024, inaugurou Des-Obra, de Nú Barreto, no Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD), no Mindelo, com curadoria de Nascimento e consultoria científica de Coutinho. A exposição deveria ter sido apresentada também em Bissau, mas dificuldades logísticas impediram a realização nas duas cidades. À data da entrevista, o artista e a investigadora estavam a finalizar o livro que acompanha o projeto.
Também a coletiva estava prevista para o CNAD. Quando se tornou inviável realizá-la ali, a procura de financiamento levou Nascimento e Barreto a apresentar a proposta a Elisabeth Gomis, diretora da MansA, que ambos conheciam. A instituição comprometeu-se a cofinanciar esta etapa, que inclui a exposição e publicações, e acabou por convidar a equipa a apresentá-la em Paris. O projeto recebeu ainda uma carta de apoio da UNESCO.
A passagem para França ampliou o público previsto para o projeto e deu-lhe condições para avançar, depois das apresentações que tinham ficado pelo caminho. Nascimento insiste, porém, na origem desse percurso. “Nem sempre é fácil e possível realizar tudo tal como pensamos inicialmente, mas o debate começou em Cabo Verde.”
Quando foi possível produzir a coletiva, a curadora já estava comprometida com outros trabalhos e não conseguiria acompanhar a execução naquele ano. Com Coutinho e a MansA, procurou alguém que conhecesse a instituição, o espaço e o meio artístico francês, e que pudesse adaptar a pesquisa ao contexto local. Armelle Dakouo juntou-se à equipa, enquanto Nascimento passou a assumir uma função de consultoria.
A pesquisa inicial tinha contado com a assistência de produção de Maria João Teixeira, e os contactos com os artistas e a seleção das obras já estavam feitos. Na adaptação a Paris, houve alterações pontuais nos participantes e o programa foi complementado com filmes de Sarah Maldoror, cuja inclusão era desejada desde o início. “De certa forma, o que aconteceu foi que aumentámos a equipa”, explica Nascimento. “A ideia base da exposição é a mesma.”
A MansA reúne trabalhos de Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Mónica de Miranda, Bento Oliveira, Hamedine Kane, Yuran Henrique, Sónia Vaz Borges e Sarah Maldoror. A fotografia, o desenho, o têxtil, a instalação e o cinema aproximam pesquisas contemporâneas e arquivos. Os filmes Fogo, Île de Feu, Carnaval dans le Sahel e À Bissau, le carnaval, de Maldoror, integram a apresentação, acompanhada por uma banda sonora concebida pelo rapper e produtor Rocé.
No prefácio do catálogo, Nascimento descreve os anos de preparação como um processo de aprendizagem e experimentação, feito de encontros, viagens e trocas, em que a celebração do legado de Cabral convive com uma abordagem crítica. A apresentação parisiense reúne parte desse trabalho e dá seguimento ao debate iniciado no Mindelo, com artistas, investigadores e antigos militantes.
A curadora gostaria que os visitantes saíssem com vontade de conhecer melhor os processos de emancipação dos africanos. Ao afirmar que a luta “continua em diversas frentes”, relaciona essa história com questões que os artistas e investigadores continuam a estudar, da terra à cultura e às condições de vida das comunidades. Encontra aí um legado de alcance universal, que pode ser “inspirador para muitos outros povos”.
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