Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
Em cinco dias de setembro, Pedro Nuno estreou-se em três frentes. A 9, subiu ao palco do Casino Lisboa em Rosaline, a Ex do Romeu, musical original de Renato Arroyo. A 10, chegou às salas Santo António, o Casamenteiro de Lisboa, de Ruben Alves, em que interpreta Fábio e que viria a tornar-se o filme português com maior sucesso de bilheteira do ano. A 13, Love of Your Life, produção da Amazon MGM Studios rodada em parte em Portugal, teve estreia mundial no Toronto International Film Festival (TIFF). Para trás ficavam quase quatro anos de A Morte do Corvo, um espetáculo sem texto instalado num antigo hospital militar de Lisboa.
Nasceu em Portugal, mas foi ainda bebé para Nova Iorque com a mãe, e foi lá que aprendeu, ao mesmo tempo, o inglês e o português. De regresso, cresceu em Sintra sem nunca perder o contacto com os Estados Unidos, onde passava muitos verões com a irmã e de onde voltava sempre com vontade de regressar. No secundário estudava Economia, frequentava workshops de representação e dançava hip-hop e dança comercial. Sabia que os pais não o deixariam ir para a faculdade só para estudar teatro, e foi com eles que negociou a ideia de uma licenciatura dupla em Gestão e Teatro em Nova Iorque, para onde voltou aos 17 anos, a tempo de fazer lá o 12.º ano.
Até então, sabia que cantava, dançava e representava, mas nunca tinha pensado em juntar as três coisas. Foi nesse ano que conheceu por dentro o teatro musical, e acabou por estudar Teatro Musical e Gestão, numa formação que lhe permitia desenvolver as três disciplinas "sem ter de abdicar de nenhuma delas", o que em Portugal, a par da gestão, teria sido muito mais difícil. Ficou cinco anos em Nova Iorque, entre o estudo e o trabalho, numa cidade que o obrigou a conhecer-se e a crescer com autenticidade, duas coisas que considera ferramentas essenciais de um ator. Do teatro musical trouxe o repertório americano, de The Drowsy Chaperone a Company e Footloose, e uma formação em jazz, ballet e contemporâneo que somou ao hip-hop e que lhe deu presença, noção do corpo e postura em palco.
"É surreal poder ser a pessoa que eu não tive em criança"
Pedro Nuno

© Rebekka Eliza
De todas as personagens que fez, Benny, de In The Heights, foi a que mais gozo lhe deu e a que mais lhe custou despir, por exigir tanto da representação como do canto e da dança. É também a única, até hoje, em que a identidade racial fazia parte do enredo. No musical de Lin-Manuel Miranda, Benny é um afro-americano que a comunidade latina de Washington Heights não aceita, e o papel foi escrito para um ator afrodescendente. Pedro Nuno recorda como foi interessante usar na sua construção o que conhece da comunidade afro-americana, próxima da sua cultura luso-angolana, mas com particularidades próprias, e o cuidado de situar cada personagem no seu contexto histórico e social acompanha-o desde então em qualquer papel.
Às vezes pergunta-se se fez a escolha certa ao estudar teatro musical e como seria a sua vida e a sua carreira se tivesse estudado cá, mas não se arrepende. A dança e o canto que consolidou em Nova Iorque acabaram por servir-lhe também fora do musical quando regressou a Portugal e passou a trabalhar em português. Diverte-se imenso a representar em inglês, mas é o português, com uma sonoridade muito própria, que o fascina. "É mais difícil representar em português, devido ao peso e aos vários significados que apenas uma palavra pode ter, mas acho que prefiro fazer cenas mais íntimas e emocionais em português", explica.
Foi a dança que o levou a A Morte do Corvo, o espetáculo de teatro imersivo que Nuno Moreira abriu em janeiro de 2023 no antigo Hospital Militar da Estrela, com encenação de Ana Padrão, e que imagina Edgar Allan Poe, ressuscitado e ciumento de Fernando Pessoa, a orquestrar a morte do poeta português em 1924. A história conta-se sem texto, pelo corpo, em salas e corredores que o público percorre livremente. Na peça, era Vasco, "o Barman", um jovem americano que Poe traz consigo para Lisboa, e é no facto de nunca sair de cena que vê a maior diferença em relação a uma peça convencional ou a um filme.
Durante as duas horas do espetáculo, Pedro Nuno mantinha-se em personagem, com uma tensão corporal que lhe permitisse atravessar corredores e salas cheias de espectadores sem lhes pedir licença, atento a cada pessoa, cenário e adereço à sua volta, sem bastidores para onde fugir ou onde respirar um pouco. Nada no papel indicava a identidade de Vasco, mas, fiel a esse hábito de situar cada personagem no seu tempo, quis perceber como o público leria um barman negro chegado dos Estados Unidos à Lisboa de 1924. A pesquisa deu forma à fisicalidade da personagem, à maneira como se relacionava com as outras e aos objetivos menos evidentes que a moviam.
Entre 2023 e 2026, contando com os ensaios, o projeto durou quase quatro anos. "Senti que a minha personagem envelheceu comigo, viveu comigo, aprendeu comigo", recorda o ator, para quem isso foi o mais bonito de todo o processo. O que ia acontecendo na vida pessoal e profissional de cada membro do elenco acabava por entrar nas atuações, e a melhor parte, para ele, era poder partilhar tudo isso com o elenco e com a equipa que estiveram lá desde o primeiro dia.
Na maior parte dos projetos em que entra, é o único ator negro em cena, seja no teatro musical, no teatro ou no cinema. Em projetos onde o público nem sempre está habituado a ver pessoas como ele, confessa um certo gosto em ser ele essa pessoa. Aquece-lhe o coração ver crianças e adolescentes negros a olhar para ele e saber que alguns se sentirão vistos ou representados. "É surreal poder ser a pessoa que eu não tive em criança." Não sabe se pode chamar conquista aos papéis que qualquer outro ator poderia fazer, como Vasco, mas sente neles uma validação do seu trabalho e, com ela, uma responsabilidade acrescida e a necessidade de se provar a si próprio e à sua comunidade.
"Quando as histórias são contadas com verdade, podem atravessar fronteiras. Felizmente, ainda temos muitas histórias por contar"
Pedro Nuno

© Rebekka Eliza
Com Fábio, em Santo António, a dança voltou ao centro da personagem. Fábio é coreógrafo da marcha da Bica e quer casar com Nuno nos casamentos de Santo António, numa das tentativas de modernizar uma tradição que arrisca passar para as mãos de uma multinacional estrangeira, com a esperança de deixar uma marca na comunidade jovem LGBTQIA+ e inspirar as gerações seguintes. Pedro Nuno encontrou nele características suas e de pessoas que o rodeiam, além de uma vulnerabilidade que o fascinou desde o início, e cumpriu com ele a vontade antiga de interpretar uma personagem queer num projeto português. Ruben Alves, cujo trabalho já acompanhava, deu aos atores liberdade para usarem as suas experiências pessoais no texto. Pedro Nuno lê o conflito do filme do lado de Fábio, para quem a globalização acaba por ser favorável. "Ele nunca se iria poder casar nos casamentos de Santo António de forma tradicional, nem poder chegar a tantas pessoas", confessa.
Nos últimos anos, a vinda de produtoras estrangeiras para Portugal tem-lhe permitido trabalhar em inglês sem sair do país e conciliar vários projetos ao mesmo tempo. Pedro Nuno reconhece a diferença de escala e de investimento em relação às produções nacionais e espera que mais coproduções ajudem a desenvolver o mercado português. A estreia mais recente desse lado do seu percurso foi Love of Your Life, protagonizado por Margaret Qualley e realizado por Rachel Morrison, a primeira mulher nomeada para o Óscar de melhor fotografia, disponível na Prime Video desde 14 de outubro.
Santo António foi o filme mais visto em Portugal no fim de semana de estreia e chega ao Disney+ a 10 de novembro, o primeiro filme português a integrar o catálogo da plataforma, depois de outras histórias muito enraizadas, como Rabo de Peixe, em cuja segunda temporada entrou, terem seguido para a Netflix. Pedro Nuno encontra a explicação na identidade própria destas histórias, que, por serem tão específicas, acabam por ser universais e falar de amor, família, comunidade e ambição de uma forma que qualquer público reconhece. "E quando as histórias são contadas com verdade, podem atravessar fronteiras. Felizmente, ainda temos muitas histórias por contar."
Rosaline, a Ex do Romeu é uma delas, construída a partir de uma personagem que Shakespeare apenas menciona, a primeira paixão de Romeu e prima de Julieta, cuja tentativa falhada de impedir o romance se transforma num percurso de afirmação pessoal. Com música de Miguel Amorim e Filipe de Albuquerque e letras de Inês Branco, o musical marca a estreia na encenação teatral de Renato Arroyo, que vinha do digital e do cinema. "Acho que tivemos muita sorte, porque, apesar de se estar a estrear como encenador, o Renato está há anos a preparar o projeto e isso notou-se desde o início. Além da preparação, ele sempre foi muito claro com aquilo que queria e visionava", diz Pedro Nuno, que sublinha também o grupo de pessoas competentes e talentosas que o encenador reuniu, da equipa criativa à técnica e ao elenco.
No repertório americano em que se formou, cada papel chega com uma tradição de interpretações anteriores, a seguir ou a contrariar. Em Rosaline, a personagem teve de ser construída praticamente do zero, o que tornou o trabalho um pouco mais desafiante, mas muito divertido, com liberdade para ir buscar referências a qualquer lado, num musical que mistura o presente com o passado. O método foi o habitual, que costuma partir do texto. Primeiro decora-o e decifra-o, depois experimenta várias abordagens, "sem a expectativa de encontrar algo no primeiro ou segundo dia", e só mais tarde procura referências capazes de trazer algo novo. Com o canto e a dança segue o mesmo caminho, experimentando até perceber como cada música e cada movimento funcionam no seu corpo.
Ter vários projetos ao mesmo tempo nem sempre é fácil de conciliar e, nessas alturas, Pedro Nuno procura manter uma rotina em casa e momentos só para si, ou, como disse recentemente ao The Glitter Dream, "um centro/base para poder voltar nos momentos mais caóticos". A corrida e o fitness, que pratica para além da dança, servem tanto a preparação física como a saúde mental, que considera uma das coisas mais importantes na sua área. Escolhe os projetos pela realização pessoal que lhe podem trazer, porque tem de sentir que o farão crescer como pessoa, como ator e como profissional, ou acreditar muito neles e nos seus criadores, e quando as propostas coincidem, decide perante as opções que tiver na altura. Entre o que ainda não fez, há dois desejos: "Adoraria ter a experiência de fazer uma novela como elenco fixo. Também amava poder gravar um filme ou série fora de Portugal."
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos