Pocas Pascoal prepara longa sobre Sarah Maldoror e resgata episódio silenciado da história do cinema africano

21 de Agosto de 2026
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Sarah Maldoror, cineasta e realizadora franco-angolana, uma das principais figuras do cinema africano e caribenho | DR

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Novo filme da realizadora angolana revisita a trajetória da pioneira franco-angolana que colocou mulheres no centro da resistência na Guiné-Bissau


A realizadora angolana Pocas Pascoal está a desenvolver um novo longa-metragem dedicado a Sarah Maldoror, cineasta franco-angolana considerada uma das pioneiras do cinema africano. O projeto recupera um episódio pouco conhecido da sua trajetória e coloca no centro da narrativa uma pergunta que atravessa também a própria obra de Pocas: o que leva uma realizadora a utilizar o cinema para desafiar injustiças, combater silêncios e dar visibilidade a quem historicamente permaneceu fora das narrativas oficiais?


O filme parte da passagem de Sarah Maldoror pela Guiné-Bissau, durante a luta de libertação contra o colonialismo português. A realizadora viajou ao país com o objetivo de documentar a resistência armada, mas, ao chegar, percebeu que as mulheres tinham uma participação fundamental nesse movimento. Em vez de seguir a expectativa de construir uma narrativa centrada nos homens, decidiu colocar essas mulheres no centro do filme.

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Sarah Maldoror e uma pessoa não identificada durante as filmagens da curta-metragem Monangambeee (1968) | Imagens melhoradas com recursos de IA

Quando regressou à Argélia, onde vivia exilada com o marido, Sarah apresentou a obra aos produtores. O filme não foi bem recebido e acabou retirado da realizadora. A produção desapareceu e permanece perdida até hoje. Mais de cinquenta anos depois, Pocas Pascoal decidiu regressar a esse momento da história não para refazer o filme desaparecido, mas para compreender e recriar cinematograficamente o percurso que levou Sarah Maldoror a fazer aquela escolha.


"A minha pergunta é sempre a mesma: o que leva uma realizadora a sentir uma necessidade tão profunda de mostrar a injustiça e de contar a história de pessoas que lutam contra a repressão? O meu filme procura colocar em evidência a força, a coragem e o percurso da Sarah Maldoror nos primeiros anos da sua carreira, quando começou a fazer cinema e decidiu olhar para quem quase nunca era visto", explica Pocas Pascoal.


O novo projeto amplia uma linha artística que atravessa a filmografia da realizadora angolana: a recuperação de memórias silenciadas, a crítica ao colonialismo e o questionamento das estruturas de poder. Ao revisitar a história de Sarah Maldoror, Pocas também chama atenção para o papel das mulheres africanas na construção da resistência política e para a necessidade de preservar uma memória cinematográfica que durante décadas permaneceu à margem.


Locarno como espaço para novos encontros e para o futuro do projeto


O desenvolvimento de Sarah Maldoror ganhou um novo impulso durante a recente participação de Pocas Pascoal no Festival de Locarno, um dos mais importantes eventos de cinema do mundo. Nos dias 6 e 7 de agosto, a realizadora apresentou a curta-metragem Time to Change durante o Open Doors Short Films Screening, numa programação que reuniu cerca de 100 diplomatas de diferentes países.


Para Pocas, a passagem pelo festival ultrapassou a dimensão de uma simples exibição. Locarno transformou-se também num espaço de encontro com produtores, realizadores e profissionais da indústria audiovisual internacional, criando novas possibilidades para os projetos que desenvolve.


"Para mim, esta mostra teve uma importância enorme. Não foi apenas a oportunidade de apresentar o meu filme num festival considerado um dos maiores do mundo. Aqui está reunida toda a indústria audiovisual europeia, americana e asiática. Esta exibição valoriza o meu trabalho e cria novas possibilidades de diálogo", afirma.


Além da visibilidade internacional, a realizadora aproveitou o festival para ampliar contatos e trocar experiências sobre os próximos passos da sua carreira. "Já estou cheia de reuniões e conversas. É uma oportunidade extraordinária para trocar ideias com outros realizadores, aprender, encontrar parceiros e pensar nos próximos projetos. É precisamente este ambiente de criatividade e colaboração que faz de Locarno um festival tão importante", destaca.


Cinema para despertar memórias


Em Time to Change, Pocas Pascoal estabelece uma relação entre colonialismo, racismo, exploração humana e destruição ambiental. Por meio de uma linguagem visual marcada pela força simbólica, o filme questiona de que forma a exploração colonial afetou não apenas as populações, mas também os territórios e os ecossistemas.


A apresentação da curta para um público formado por diplomatas deu um significado particular à exibição. Para a realizadora, o cinema pode funcionar como instrumento capaz de provocar reflexão e recuperar memórias coletivas que muitas vezes foram apagadas ou silenciadas.


"Acredito que, através da arte, conseguimos mudar a consciência coletiva. O meu filme mostra que a colonização não destruiu apenas vidas humanas: destruiu também os ecossistemas, a fauna, a flora e explorou pessoas para afirmar uma suposta superioridade. Ser escolhido para esta sessão foi uma oportunidade maravilhosa para despertar uma memória coletiva que muitas vezes permanece adormecida e lembrar que o colonialismo deixou marcas profundas que continuam presentes", ressalta.


A ligação entre Time to Change e o futuro longa sobre Sarah Maldoror não é casual. Nos dois projetos, Pocas Pascoal parte da memória para olhar criticamente para o presente. Se na curta a cineasta questiona as marcas deixadas pela colonização nos seres humanos e na natureza, no novo filme recupera a trajetória de uma mulher que, há mais de meio século, decidiu contrariar expectativas para filmar outras mulheres que também resistiam.


Ao colocar Sarah Maldoror no centro da sua próxima obra, Pocas Pascoal dá continuidade a um cinema interessado não apenas em revisitar a história, mas em perguntar quem teve o direito de contá-la - e quem permaneceu invisível dentro dela.

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