A política anti-imigração está a mudar o Reino Unido. Quem vai pagar o preço?

18 de Agosto de 2026
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Kostas Vourou / Unsplash

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Brexit. Cinco Primeiros-Ministros em sete anos. Enchente de pessoas reunidas em motins de extrema-direita enquanto ativistas são detidos por “terrorismo” por implorarem um cessar-fogo. A par disso, um crescimento alarmante do sentimento anti-imigração por todo o mundo. Em conjunto, estes acontecimentos marcaram uma mudança política no Reino Unido e levaram muitas pessoas a reconsiderar não só o seu futuro no país, mas também as frágeis contingências associadas às suas vidas enquanto migrantes económicos, refugiados ou estudantes internacionais.


Ao mesmo tempo, permanece a realidade dolorosa de que estas comunidades continuam a deparar-se com alternativas cada vez mais reduzidas e protecções cada vez mais frágeis. Para muitos agregados familiares, esse aviso já bateu à porta e, em alguns casos, a porta mal se mexeu. Após os resultados das mais recentes eleições locais, nas quais o Reform UK, um partido que se assemelha bastante ao “nosso” Chega, garantiu maiorias absolutas em 24 conselhos municipais na Grã-Bretanha, tornou-se impossível ignorar a crescente apatia política em torno de questões que, inevitavelmente, afetar-nos-ão a todos.


Embora eu tenha votado com enorme orgulho e gratidão, muitos escolheram não participar, enquanto outros apoiaram ativamente o Reform UK. Ao fazê-lo, alguns pareceram esquecer-se de que “não vale a pena chorar sobre o leite derramado” porque, independentemente da filiação política ou das crenças pessoais, as consequências destas decisões raramente permanecem isoladas a um único grupo.

“Estas eleições não são exercícios políticos abstratos; moldam as condições em que migrantes vivem, trabalham, estudam e tentam pertence”

Jamila Pereira

O que muitas pessoas também não reconhecem é que a participação política no Reino Unido já é profundamente desigual dependendo do estatuto migratório de cada um. Migrantes com estatuto permanente, como eu e quase todos os PALOP no Reino Unido, estão frequentemente limitados ao voto em eleições locais, isto quando sequer nos é permitido votar. No meu caso, apesar de viver, trabalhar e contribuir para esta sociedade - não que eu alguma vez reduzisse os direitos inalienáveis de alguém à sua posição dentro de uma sociedade imperialista, supremacista branca, capitalista e patriarcal -, a minha capacidade de participar plenamente naquilo que tantas vezes é descrito como um “dever cívico” continua restringida por lei. As atuais regras de elegibilidade eleitoral continuam a excluir grandes grupos de residentes da participação política nacional. Enquanto cidadãos da Commonwealth podem votar em todas as eleições e referendos no Reino Unido, cidadãos da União Europeia estão geralmente limitados às eleições locais e descentralizadas, e muitos outros residentes - incluindo pessoas de países como o Japão ou a Argélia - veem-se totalmente privados do direito de voto, apesar de construírem as suas vidas neste país.


Quando penso em tudo isto, não consigo deixar de questionar se as pessoas compreendem verdadeiramente o peso que as eleições locais carregam, particularmente para comunidades que já vivem com representação política limitada. Para muitos de nós abrangidos pelo Sistema de Regularização de Cidadãos da UE, conhecido por EUSS, a estabilidade nunca pareceu garantida, e a perspetiva de políticas migratórias cada vez mais hostis apenas aprofunda essa incerteza. Estas eleições não são exercícios políticos abstractos; moldam as condições em que migrantes vivem, trabalham, estudam e tentam pertencer. E enquanto alguns podem olhar para a política local como algo secundário, para outros ela pode determinar se continuam a sentir-se seguros, representados e bem-vindos no lugar que chamam de casa.


Desde o conselheiro do Reform que sugeriu que “a população nigeriana em Sunderland devia ser derretida para tapar buracos nas estradas” até outro membro do partido que celebrou a agressão sexual racialmente motivada de mulheres Sikh, todos nós tivemos demonstrações claras de que o fascismo, o ódio, o racismo e a misoginia se reforçam mutuamente e não oferecem nada além dos mais vulneráveis da sociedade numa bandeja enferrujada.


Segundo a BBC, 171 mil pessoas foram acrescentadas aos números da migração líquida no ano passado, aproximadamente metade do valor registado em 2024. “O valor encontra-se no nível mais baixo desde 2012, excluindo o período da pandemia de Covid (...)”. Ainda assim, apesar desta descida significativa, grande parte da classe política britânica continua obcecada em desmontar aquilo que descreve como “migração em massa” e em reduzir a dependência do país de trabalhadores estrangeiros qualificados, com o Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer a insistir que ainda há “mais trabalho a fazer”.


Ao continuar a usar migrantes como bode expiatório - uma realidade que também reconhecemos frequentemente em território português - parece existir uma crescente disposição dentro do tecido social britânico para permanecer indiferente à falta de habitação social, ao colapso do sistema nacional de saúde (NHS), ao aumento do custo dos alimentos e, acima de tudo, à desumanização de migrantes.


Em muitos casos, os migrantes são retratados como culturalmente incompatíveis e, por isso, de alguma forma menos merecedores de empatia, dignidade ou protecção. O silêncio e a inação em torno destas narrativas apenas legitimam ainda mais a ideia perigosa de que o direito de reconstruir uma vida em solo britânico deve ser reservado àqueles que possuem determinada tez, nacionalidade ou privilégio socioeconómico. Existe então um conforto silencioso nesta hierarquia, ainda que inconsciente, que permite que a própria igualdade pareça negociável, como se estender justiça a uns pudesse diminuir aquilo a que outros acreditam ter direito. E, ao confrontarmo-nos com esta realidade, somos obrigados a questionar o que significa verdadeiramente mobilidade para migrantes no seu todo.


Talvez a verdade mais difícil de enfrentar seja que a migração nunca é percecionada de forma igual. Um investidor estrangeiro rico que se muda para outro país é frequentemente descrito como ambicioso, cosmopolita e aventureiro. Um profissional branco que se muda para o estrangeiro em busca de “melhores oportunidades” é celebrado pela sua coragem e mentalidade global. No entanto, quando migrantes do Sul Global ou de contextos economicamente fragilizados, dentro da diáspora, se deslocam por necessidade, sobrevivência ou esperança de estabilidade, são demasiadas vezes recebidos com suspeita, hostilidade política e exigências intermináveis para justificarem a sua existência. O mesmo ato de mobilidade transforma-se subitamente em algo ameaçador em vez de aspiracional.

“Enquanto alguns podem olhar para a política local como algo secundário, para outros ela pode determinar se continuam a sentir-se seguros e representados”

Jamila Pereira

E assim somos forçados a reconhecer uma realidade desconfortável: a própria mobilidade é profundamente racializada. Quem pode atravessar fronteiras com dignidade, liberdade e admiração raramente está dissociado da raça, nacionalidade, classe ou da proximidade cultural percebida em relação ao Ocidente. Para muitas pessoas de pele mais escura e culturas profundamente enraizadas, a migração passa então a ser enquadrada como um problema a conter, vigiar e politizar.

Como escrevi anteriormente num artigo para a Black Ballad, “Participar na democracia é um direito humano básico. Embora isto possa levar indivíduos a procurar obter cidadania e plenos direitos de voto, dependendo do grupo migrante ao qual pertencem, aceder a esses direitos pode ser bastante complexo e dispendioso. O Reino Unido ocupa o terceiro lugar entre os países com as taxas de visto mais elevadas, a cidadania custa quase £1.700 [agora £1.839] por adulto, e existem ainda sobretaxas pesadas associadas a um NHS já sobrecarregado.”

“Para a maioria dos migrantes, estas questões estruturais vêm acompanhadas de um sentimento de toxicidade que nos obriga constantemente a justificar o nosso valor e a mergulhar em binários da migração, enquanto avaliamos quais migrantes são ‘mais merecedores’ de direitos de voto. Desde a forma como contribuímos para o progresso do país até à utilidade da imigração, mesmo quando somos ‘legais’, o discurso público em torno das nossas vidas reduz-nos a mercadoria, perpetuando narrativas de exclusão onde os migrantes só são necessários quando as sociedades podem colher os frutos do nosso trabalho.”

Enquanto alguém que concluiu recentemente o teste Life in the UK - o teste que eventualmente me garantirá cidadania britânica - dou por mim a questionar frequentemente que garantias existem realmente de que esta mesma oportunidade não me será retirada um dia. Torna-se difícil não sentir desilusão ao assistir ao tratamento alarmante de jovens vulneráveis aliciadas para o extremismo e privadas da sua cidadania, enquanto simultaneamente vemos homens poderosos acusados de perpetuar violência e cometer crimes de guerra continuarem a escapar à responsabilização sem qualquer consequência.

Até a própria possibilidade de obter um passaporte britânico e assegurar permanência aqui é, em si mesma, um privilégio ao qual inúmeras pessoas nunca terão acesso. Por isso, se eventualmente decidir pegar em um dos meus passaportes e partir para imaginar uma vida noutro lugar, não deixarei de pensar naqueles que não têm sequer a possibilidade de regressar a casa.


A empatia tem de começar em algum lugar, e a ação coletiva através dessa lente pode levar-nos muito mais longe do que frequentemente imaginamos. Enquanto alguns de nós ainda podem ter uma rota de fuga, muitos outros não têm. Aqueles que fugiram simplesmente para sobreviver - por causa da guerra, dificuldades financeiras, seca, colapso climático, abuso ou circunstâncias muito piores do que aquelas que muitos de nós alguma vez experienciarão. Como posso sentar-me e imaginar um futuro para mim enquanto outros ficam sem nada a que recorrer? Sem rede de segurança. Sem qualquer âncora a que se agarrar.

“Se decidir partir para imaginar uma vida noutro lugar, não deixarei de pensar naqueles que não têm sequer a possibilidade de regressar a casa”

Jamila Pereira

Por isso, imagina seres forçado a abandonar a tua casa, a tua comunidade, a tua carreira e a vida que construíste porque o clima político se tornou insuportável, sabendo ao mesmo tempo que não utilizaste o pouco poder político que tinhas quando isso mais importava. E embora isto possa ser difícil de digerir, este pode muito bem ser o caminho para o qual estamos a ser conduzidos.


Desviar o olhar porque o desconforto ainda parece suficientemente distante não faz com que a situação desapareça; apenas adia o momento em que somos obrigados a confrontar-nos connosco próprios. Como disse anteriormente, “Sinto profundamente que, para aqueles que podem votar mas se sentem sem esperança, não votar não deveria ser uma solução. Se abdicares do teu lugar de voto, podes ter a certeza de que outra pessoa o ocupará por ti.” Porque, apesar das nossas opiniões individuais sobre o voto, a realidade é que, para muitas pessoas em todo o mundo, este direito não é inalienável, mas sim um privilégio pelo qual inúmeras outras continuam a lutar para aceder, proteger ou simplesmente sobreviver tempo suficiente para o exercer.


No geral, as eleições locais no Reino Unido - e em qualquer outro lugar - continuam a ser uma das poucas ferramentas democráticas às quais muitos de nós ainda temos acesso, mas as pessoas continuam a tratar o afastamento político como se ele existisse sem consequências. Escolher ficar em casa ou assegurar um passaporte não cria distância em relação aos resultados destas decisões, nem protege ninguém das realidades que delas decorrem. Se alguma coisa, apenas deixa espaço para que outros decidam o futuro em nosso nome.

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