Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
Quando Portugal entrar em campo frente à República Democrática do Congo no Mundial de 2026, estará a disputar muito mais do que um jogo de futebol. Apesar de as duas seleções terem percorrido caminhos muito diferentes dentro das quatro linhas, a verdade é que os seus países partilham uma das relações históricas mais antigas entre a Europa e a África Subsaariana.
À primeira vista, trata-se apenas de um duelo futebolístico, mas, por trás dos 90 minutos, existe uma ligação que começou há mais de cinco séculos e que, direta e indiretamente, se estende aos dias de hoje.
A história entre Portugal e o antigo Reino do Congo começou em 1482, quando o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Congo, numa viagem que alteraria para sempre as relações entre os dois povos.
Ao contrário do que aconteceu noutras regiões de África, os contactos iniciais não foram apenas comerciais e rapidamente estabeleceram-se relações diplomáticas entre Lisboa e Mbanza Congo, capital do reino africano. Poucos anos depois, o rei Nzinga a Nkuwu converteu-se ao cristianismo e adotou o nome de João I. O seu sucessor, Afonso I, tornou-se um dos mais importantes aliados africanos da Coroa portuguesa.
Durante décadas, o Reino do Congo manteve correspondência regular com os reis portugueses, enviou embaixadores a Lisboa e recebeu missionários europeus. Num período em que muitos Estados europeus ainda não mantinham relações diplomáticas permanentes entre si, já existia uma ponte política entre Portugal e o Congo.
A ligação entre os dois povos não pode, contudo, ser contada apenas através da diplomacia e da religião.
O crescimento do comércio atlântico de escravos acabaria por transformar profundamente a região. Ao longo dos séculos seguintes, milhões de africanos foram retirados das áreas que hoje correspondem à República Democrática do Congo e aos países vizinhos, alimentando as rotas que ligavam África, Portugal e o Brasil.
A história comum entre Portugal e o Congo é, por isso, feita de encontros culturais e religiosos, mas também de desigualdades e de violência colonial. Apesar da longa história partilhada, os fluxos migratórios entre os dois países continuam relativamente reduzidos. Os dados mais recentes mostram que vivem em Portugal cerca de 450 cidadãos congoleses, um número que tem vindo a aumentar nos últimos anos.
Na direção inversa, estima-se que existam várias centenas de portugueses a residir na República Democrática do Congo, muitos ligados aos setores da construção, engenharia, mineração e cooperação internacional. O comércio bilateral continua modesto, mas empresas portuguesas como a Mota-Engil mantêm presença em projetos estratégicos no país africano, incluindo grandes obras de infraestrutura. De acordo com o Jornal Eco, e analisando o termo do ponto de vista futebolístico, a construtora portuguesa seria o “Ronaldo” da equação, com “obras de 1,1 mil milhões de euros relacionadas com um porto de águas profundas e uma linha ferroviária que ligará à vizinha Angola”.
Se para muitos adeptos portugueses a seleção congolesa continua a ser uma desconhecida, a verdade é que vários jogadores dos “Leopardos” construíram carreiras em Portugal.
O nome mais sonante é o de Chancel Mbemba, capitão da seleção congolesa e uma das figuras mais respeitadas do futebol africano. Conhecido como “Demi-Dieu” - “Semi-Deus”, em português -, vestiu a camisola do FC Porto entre 2018 e 2022. Ao serviço dos “Dragões” venceu dois campeonatos (2019/2020 e 2021/2022), a Taça de Portugal (2019/2020 e 2021/2022) e a Supertaça Cândido de Oliveira, em 2020.
Outro nome em destaque é Simon Banza, avançado formado em França que brilhou ao serviço do Famalicão e do Sporting de Braga. Nas últimas épocas afirmou-se como um dos goleadores africanos mais consistentes ligados ao futebol português. Na época 2021-2022, altura em que representou o Famalicão, foi o sétimo melhor marcador da Liga Bwin Portugal com 14 golos apontados em 29 jogos.
Também Yannick Bolasie, internacional congolês com longa carreira na Premier League, foi emprestado ao Sporting na época 2019-2020, enquanto jogadores como Dylan Batubinsika e André Bukia acumulam passagens pelo Famalicão e Arouca, respetivamente.
Embora não tenha o peso histórico de seleções como Senegal, Camarões, Nigéria ou Gana, a República Democrática do Congo é uma das equipas africanas em ascensão. A seleção já conquistou por duas vezes a Taça das Nações Africanas e possui uma tradição futebolística sólida. Além disso, beneficia de uma enorme diáspora espalhada pela França, pela Bélgica e pelo Reino Unido, que tem contribuído para elevar a qualidade do plantel. Atualmente, muitos dos seus jogadores compõem as principais ligas europeias.
Quando o árbitro apitar para o início do Portugal-RD Congo, estarão em campo duas seleções separadas por continentes, culturas e percursos futebolísticos distintos. Mas também estarão representados mais de cinco séculos de encontros, trocas, conflitos, migrações e influências mútuas.
O futebol tem a capacidade de transformar a história em algo visível. E poucas partidas deste Mundial carregam uma narrativa tão longa quanto aquela que une Portugal e o Congo desde o final do século XV.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos