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Ao longo da última década, Prodígio construiu uma carreira a solo marcada por uma coerência conceptual rara no hip hop lusófono. Mais do que lançar músicas, o rapper foi desenhando universos narrativos onde a cultura de rua, a ambição, a identidade negra e a leitura do sistema social surgem frequentemente filtradas por uma linguagem aparentemente lúdica: a dos videojogos. O EP GTA, lançado a 1 de janeiro de 2026, surge como mais um capítulo dessa trajetória, agora num momento de viragem simbólica e estrutural da sua carreira.
Este novo projecto assinala também o primeiro lançamento de Prodígio com a Universal Music, mudança que o próprio associa a um “novo começo”, não apenas artístico, mas pessoal. Na entrevista concedida à BANTUMEN, o rapper fala de ciclos, numerologia e da necessidade de se reposicionar depois de um período de fecho. “2026 é um ano um, é o início de um novo ciclo”, afirma, explicando que este passo faz sentido dentro da sua leitura espiritual e estratégica do percurso.
Para compreender GTA, é inevitável regressar à trilogia Pro Evolution, que marcou de forma definitiva a carreira a solo de Prodígio. Inspirada no videojogo Pro Evolution Soccer, essa série funcionou como um diário de crescimento artístico e social, onde o rapper se via como um jogador em constante evolução, acumulando “estatísticas” como influência, estatuto e maturidade. Tal como documentado numa análise aprofundada da sua carreira a solo , Pro Evolution não era apenas metáfora: era método. Estratégia, leitura do adversário, domínio do terreno e progressão faseada eram elementos centrais tanto no jogo como na música.
“Estavam a vir coisas muito fortes e senti que o GTA era o jogo perfeito para isso”
Prodigio

DR
Se o futebol virtual simbolizava cálculo e planeamento, GTA representa o seu oposto conceptual. O próprio Prodígio estabelece essa diferença na entrevista: enquanto Pro Evolution era “muito mais estratégico, muito mais calculado”, GTA nasce do caos, do aleatório e da força bruta. “Estavam a vir coisas muito fortes, muito confusas, e senti que o GTA era o jogo perfeito para isso”, explica.
O título, acrónimo de “Gu3rra Total Agora”, não é apenas uma referência cultural óbvia ao videojogo Grand Theft Auto. É, sobretudo, uma declaração de estado. O EP nasce num contexto de pressão constante, onde não há espaço para contemplação nem para moralismos fáceis. “É confusão. É aleatório. Não existe um propósito específico. É o jogo”, resume o rapper.
Essa lógica estende-se à estética visual do projecto. Todos os videoclipes do EP, disponíveis no YouTube, foram concebidos com recurso a animação digital, evitando qualquer tentativa de realismo. A opção, explica Prodígio, é consciente e ética: transportar a violência simbólica do jogo para a vida real seria de mau gosto e logisticamente impossível sem uma produção cinematográfica de grande escala. A visão foi executada por Yofa, jovem criativo responsável por dar forma visual ao universo imaginado pelo artista.
Musicalmente, GTA é um EP curto, direto e agressivo, assente em produções feitas à medida por Ghetto Ace, parceiro de longa data e figura central na identidade sonora de Prodígio. A relação entre ambos ultrapassa o campo profissional: “Ghetto é família”, afirma o rapper, que sublinha uma ligação que se traduz numa química artística difícil de replicar.
“É confusão. É aleatório. Não existe um propósito específico. É o jogo”
Prodigio

DR
Uma das imagens mais recorrentes no discurso de Prodígio é a do “Rikinho”, personagem que atravessa a sua discografia desde cedo. Em GTA, essa figura surge “com esteróides”, em modo guerra. Para lá da ostentação, trata-se da história de um miúdo do bairro que quer mudar a vida da família e quebrar ciclos de precariedade. “Música para batalhadores e vencedores”, define o artista ao assumir que o jogo é duro, mas que desistir nunca foi opção.
Antes de GTA, Prodígio lançou “A Salvação”, single em colaboração com Valete, que ultrapassou recentemente a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube. A canção funciona como uma espécie de ponte entre a fase reflexiva pós-Pro Evolution e a urgência combativa de GTA. Ao lado de Valete, uma das vozes mais politizadas do rap lusófono, Prodígio abandona qualquer ilusão de redenção individual e questiona frontalmente as estruturas que perpetuam desigualdade e exclusão.
O impacto do tema confirma que existe público para um rap que não se limita ao entretenimento, mas que exige escuta atenta e posicionamento crítico. O sucesso de “A Salvação” não é apenas numérico: é simbólico e mostra que a consciência social continua a ser um território fértil dentro da cultura hip hop.
GTA não surge como rutura, mas como evolução natural dentro de um percurso coerente. Se Pro Evolution representava o crescimento dentro de um sistema com regras claras, GTA expõe um mundo onde essas regras são difusas e muitas vezes injustas. Prodígio não romantiza essa realidade, limita-se a jogá-la, consciente de que nem sempre é possível vencer, mas certo de que ficar parado nunca foi opção.
Num momento em que inicia uma nova fase com a Universal e encerra simbolicamente um ciclo pessoal, o rapper reafirma-se como uma das vozes mais consistentes do rap lusófono contemporâneo.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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