Jejum, oração e rotina, o Ramadão explicado por quem o vive

27 de Fevereiro de 2026
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Todos os anos, durante cerca de 29 ou 30 dias, milhões de muçulmanos em todo o mundo vivem o Ramadão, o mês mais sagrado do Islão. Determinado por um calendário estritamente lunar, o Ramadão desloca-se cerca de dez a onze dias por ano no calendário gregoriano, regressando à mesma estação a cada 33 anos. Esta mobilidade faz com que, em determinados períodos, coincida ou se aproxime de outras tradições religiosas também marcadas pela Lua, como a Quaresma cristã ou o Ano Novo Lunar celebrado em vários países asiáticos.


Durante este mês, os muçulmanos adultos abstêm-se de comer, beber, fumar e de manter relações sexuais do nascer ao pôr do sol. No entanto, reduzir o Ramadão a uma prática de privação física é ignorar a sua essência. Para quem o vive, o jejum é apenas uma das dimensões de um processo mais amplo de disciplina espiritual, autocontrolo, empatia e reconexão com Deus.


O Ramadão é um dos cinco pilares do Islão e está ligado à revelação do Alcorão, que, segundo a tradição islâmica, começou a ser revelado ao profeta Maomé precisamente neste mês. Por essa razão, é entendido como um tempo privilegiado de misericórdia, de perdão e de crescimento interior. As orações intensificam-se, a leitura do Alcorão torna-se central e as boas ações ganham um valor simbólico acrescido.


O quotidiano organiza-se em torno da espiritualidade e o dia começa antes do amanhecer com a oração (fajr) e termina à noite, muitas vezes na mesquita, com as orações (taraweeh). O iftar, momento de quebrar o jejum ao pôr do sol, é vivido como um ritual coletivo de partilha, reunindo famílias, amigos e comunidades. Além de um tempo de recolhimento individual, o Ramadão é também um período de reforço dos laços sociais e de responsabilidade coletiva.


A fim de compreender como este mês é vivido na prática, ouvimos quatro muçulmanos de origens, percursos e sensibilidades diferentes, unidos pela fé e pela vivência ativa do Ramadão.

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“Durante o Ramadão existe um maior foco e menos distrações”

Saliu Baldé

A disciplina do quotidiano e a purificação da intenção


Para Saliu Embalo Baldé, guineense, professor, que cresceu em Portugal e vive atualmente no Reino Unido, o Ramadão não representa uma rutura com a vida moderna, mas uma reorganização das prioridades. Os dias, afirma, mantêm uma estrutura semelhante ao resto do ano, mas ganham um significado diferente. “O dia típico do Ramadão é como um dia normal, no sentido em que começa com a primeira reza (fajr) e acaba também com reza”, explica. O que muda é o foco: “Durante o Ramadão existe um maior foco e menos distrações.”


Sempre que possível, inicia a manhã na mesquita antes de seguir para o trabalho. Ao final do dia, regressa para o iftar, que é vivido em família ou em comunidade, e permanece depois para as orações noturnas. “Depois da última reza obrigatória, ficamos na mesquita a rezar o taraweeh. São 10 ou 20 rezas seguidas, com o objetivo de completar a recitação do Qur’an durante o mês de Ramadão.”


O jejum, sublinha, é um dos pilares fundamentais do Islão. Ainda assim, recusa a ideia de sacrifício imposto. “O Ramadão é apenas um dos doze meses do ano, mas é o mais sagrado porque purifica a alma e o corpo.” Para o professor, este mês é vivido como um tempo de felicidade e paz partilhada, transversal a muçulmanos de todas as culturas e geografias.


Contrariando narrativas que associam o Islão ao radicalismo, Saliu vê no Ramadão precisamente o oposto. “O Ramadão relembra-nos das pessoas que passam fome de forma involuntária, e isso cria maior empatia.” Essa consciência traduz-se num aumento dos atos de caridade e numa disciplina mais abrangente, que vai além da comida. “Não comer nem beber pode ser a parte menos difícil. O verdadeiro desafio é purificar as intenções e melhorar o caráter.”

"É um tempo de regresso ao essencial”

Noureen Patel

Um regresso ao essencial vivido com consciência e ternura


Noureen Patel, muçulmana xiita ismaelita, vê o Ramadão como um espaço íntimo de reencontro consigo mesma, com a fé e com o essencial. Durante anos, problemas de saúde impediram-na de cumprir o jejum completo. A limitação levou-a a viver o mês de forma diferente, mantendo a intenção espiritual mesmo sem a prática total. Recentemente, após atravessar um período particularmente difícil, sentiu que estava preparada para reassumir esse compromisso. “Decidi que era altura. Fiz uma promessa para mim mesma: todos os anos tentar fazer o mês de Ramadão completo.”


Mais do que uma prática ritual, o Ramadão representa para Noureen uma pausa consciente num mundo acelerado. “É muito mais do que jejum. É um tempo de regresso ao essencial.” Vive este mês como um processo de reorganização interior, em que procura recentrar Allah no centro da vida e investir no desenvolvimento espiritual, emocional e pessoal.


O jejum, na sua experiência, ultrapassa o plano físico e “não é só deixar de comer ou beber, é vigiar as palavras, as intenções, a forma como trato os outros e como me trato a mim.” Descreve o período como um tempo de purificação: “Sinto que é um mês que me limpa por dentro.”


Enquanto mulher, reconhece que este período envolve cuidados adicionais, sobretudo na gestão da casa e na preparação do iftar. No entanto, não encara essas responsabilidades como um peso. “Aprendi que o meu Ramadão não pode ser só dar aos outros, preciso de reservar tempo para a minha oração, para o silêncio.” As pausas impostas pelos ciclos do corpo feminino, que antes lhe causavam frustração, são hoje vistas como parte da espiritualidade: “Até na pausa há sabedoria divina.”


Noureen rejeita a ideia de que o Islão seja uma estrutura opressiva para as mulheres. “Para mim, o Islão não é uma prisão, é uma estrutura.” As escolhas que faz são conscientes e alinhadas com a sua fé, mesmo quando são interpretadas externamente como imposições.

“O jejum ensina domínio sobre os desejos e impulsos"

Manjuco Vie

Autocontrolo, empatia e responsabilidade coletiva


Manjuco Vie, senegalês e guineense, vê o Ramadão como um dos períodos mais importantes do Islão, precisamente pela sua profundidade espiritual. Recorda que este é o mês em que o Alcorão foi revelado, o que lhe confere um significado central na fé muçulmana. “O Ramadão é alusivo ao mês em que o Alcorão foi revelado”, explica, sublinhando a importância da leitura e da reflexão sobre o texto sagrado.


Durante cerca de 29 ou 30 dias, o jejum diário é vivido como um exercício de disciplina que vai além da alimentação. “Eu explicaria o Ramadão como um mês sagrado dedicado ao jejum, à oração, à disciplina espiritual e à solidariedade.” Para o empreendedor, reduzir o Ramadão a “não comer nem beber” é ignorar a sua essência.


O controlo dos impulsos é um dos aspetos centrais desta vivência. “O jejum ensina domínio sobre os desejos e impulsos. Não é só não comer, é controlar a língua, a raiva e as más ações.” A experiência da fome tem também um papel pedagógico importante, aproximando-o da realidade de quem vive em carência permanente. “Sentir fome ajuda a compreender melhor quem vive em necessidade”, afirma, ao reforçar a importância da caridade.


Questionado sobre possíveis experiências de discriminação enquanto homem negro e muçulmano na Europa, Manjuco afirma não sentir preconceito no seu quotidiano. Cresceu em Portugal e sente-se integrado: “Cresci na tuga e aqui somos todos estrangeiros.” Reconhece que noutros contextos a realidade pode ser diferente, mas, na sua experiência, o Ramadão tem sido um espaço de crescimento pessoal e não de exclusão.

“[O Islão] é uma religião muito linda quando bem praticada”

Djena Rahim

O Ramadão como escolha consciente e fortalecimento interior


Djena Rahim, mulher guineense, vive o Ramadão como um exercício consciente de domínio interior e devoção. “Com a abstinência de comida, reforço o controlo que tenho sobre mim, ao limitar-me a comer por devoção e não por obrigação”, afirma numa lógica em que o jejum surge como uma escolha espiritual, e não como imposição externa.


Este mês é, para Djena, um tempo de purificação e recolhimento. Procura afastar-se do ruído quotidiano e focar-se no essencial. “Abstraio-me das práticas do dia a dia para fazer um detox social, de modo a focar-me no espiritual.” A suspensão permite-lhe refletir, reorganizar as prioridades e reforçar a ligação com Deus. E faz questão de distinguir a essência da fé das interpretações humanas. “Eu foco-me na palavra de Deus e não na palavra transcrita pelo homem.” Vive o Islão de forma equilibrada, sem radicalismos, cumprindo os seus deveres religiosos e permitindo-se ser feliz dentro do que considera razoável.


Perante associações negativas feitas ao Islão, responde com conhecimento e convite ao diálogo. Descreve a religião como “muito linda quando bem praticada” e defende que o preconceito nasce, muitas vezes, da falta de contacto e compreensão. Na sua ótica, cumprir os cinco pilares do Islão fortalece a fé e o sentido de pertença. “É um privilégio para mim poder fazer o Ramadão.”


No conjunto destes testemunhos, o Ramadão emerge como um mês exigente, mas transformador associado a tempo de disciplina e misericórdia, de renúncia e crescimento, vivido não como obrigação, mas como reencontro. Para quem o pratica, ultrapassa o período de jejum e representa uma oportunidade de aproximação a Deus, aos outros e a si próprio.


O mês termina igualmente com a observação da lua nova, que assinala o fim do jejum e dá lugar a uma das celebrações mais importantes do Islão: o Eid al-Fitr, a “Festa do Fim do Jejum”. O dia começa com uma oração coletiva especial, seguida de momentos de convívio, refeições festivas, troca de presentes e atos de caridade, reforçando os laços familiares e comunitários. É também tradição que, antes da oração do Eid, os muçulmanos façam uma doação obrigatória (zakat al-fitr), garantindo que mesmo os mais necessitados possam celebrar.


Depois de um mês de disciplina, introspeção e misericórdia, o Eid marca o regresso gradual ao quotidiano, levando consigo os ensinamentos do jejum, da consciência, da empatia e de uma fé renovada.

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