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O lançamento de um disco pode, por vezes, parecer apenas mais uma etapa num percurso produtivo mas há aqueles que, apesar de chegarem no meio de uma cadência quase vertiginosa, são na verdade ponto de viragem. É o que acontece com Fela, o novo EP de Real GUNS.
Editado quinta-feira, 15 de maio, o trabalho chega depois de um ciclo particularmente intenso. Real GUNS, nome artístico de Ovilton Fernandes Santiago, nasceu em São Tomé em 1988 e mudou-se para Portugal ainda criança. Cresceu entre a Linha de Sintra e o Cacém, numa biografia que cruza deslocação, bairro, diáspora e sobrevivência. Aos 24 anos, emigrou para Inglaterra, onde trabalhou como cozinheiro, e regressou a Portugal em 2019. Foi já nesse regresso que a sua obra começou a ganhar outra nitidez: menos a ideia de pose e mais a de testemunho. Essa tensão acompanha-lhe a escrita até hoje.
Nos últimos anos, Real GUNS construiu uma das vozes mais particulares do rap feito em Portugal. A etiqueta do drill, tantas vezes usada para o arrumar depressa, sempre lhe coube mal. O que o distingue nunca foi apenas a escolha dos instrumentais, mas a maneira como usa o crioulo, o detalhe autobiográfico e a observação do meio à sua volta para fazer canções com peso documental. Em entrevistas recentes, o rapper tem insistido nessa dimensão de reportagem: falar de si, dos seus, da rua, mas sem transformar a vida num folclore de violência importada.
Esse traço ajuda a perceber porque é que Fela importa. Em 2025, o artista fechou o ano com Son of Gun, depois de uma sequência prolífica de EPs. Já em 2026, voltou a somar lançamentos com SOG II e com a dupla London e Lisboa, dois projetos que funcionaram como mapa afetivo entre circulação migrante, memória urbana e afirmação de identidade. No meio dessa produção cerrada, Fela destaca-se por abrir uma janela diferente: menos centrada na urgência do fluxo e mais concentrada na origem do impulso.
Segundo o comunicado de impresa do lançamento, o ponto de partida do EP foi um documentário sobre Fela Kuti visto numa fase particularmente baixa da vida de Ovilton Santiago. A partir daí, o nome do músico nigeriano deixa de funcionar apenas como homenagem e passa a servir de bússola. Não estamos perante um exercício de citação fácil nem perante uma tentativa de vestir afrobeat por cima de uma fórmula já pronta. O que interessa aqui é outra coisa: a possibilidade de regressar a uma matriz africana, política e familiar sem perder a crueza que sempre definiu Real GUNS.
Esse gesto ouve-se também na construção sonora do disco. Fela reúne sete faixas e convoca uma base instrumental mais aberta, apoiada na produção executiva de MYQUE e no contributo de músicos como TURU, Nohighdia, LEOZINHO, Jeeezas e Marianne. O resultado cruza rap com jazz, soul e outras inflexões afro, dando mais espaço a guitarras, trompete, saxofone e piano. Mais do que mudar de pele, Real GUNS alarga o seu campo de respiração. Continua a haver confronto e frontalidade, mas agora atravessados por uma textura mais orgânica, menos dependente da rigidez de uma grelha estética.
Talvez por isso este EP soe menos a ruptura do que a reencontro. É um regresso ao lugar onde tudo começou, esse espaço físico e espiritual em que a música do pai se cruzava com a presença tutelar de Fela Kuti. A imagem ajuda a perceber o alcance simbólico do projeto. Em vez de usar a referência africana como ornamento, Real GUNS trata-a como arquivo íntimo. O disco procura uma ligação entre herança familiar, memória diaspórica e construção artística contemporânea.
Há também aqui uma leitura interessante do próprio momento do rap nacional. Numa altura em que a velocidade das plataformas empurra tantos artistas para a repetição ou para o efeito imediato, Fela insiste em outra temporalidade. Não recusa o presente, mas também não aceita que o presente seja tudo. Em vez de correr atrás do próximo estímulo, o disco pára para perguntar de onde vem a voz que está a rimar. E essa pergunta, no caso de Real GUNS, abre um território maior do que a simples narrativa de superação individual.
É esse território que faz de Fela um objeto relevante dentro do percurso do rapper luso-são-tomense. Não porque tente monumentalizar a figura de Fela Kuti, nem porque abandone a linguagem que o trouxe até aqui, mas porque recentra a sua música numa linha de continuidade mais funda. Entre São Tomé, Cacém, Reino Unido, Amadora e o espaço simbólico de uma herança africana vivida por dentro, Real GUNS parece ter encontrado neste EP uma forma mais nítida de ligar biografia, som e consciência.
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