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Não vou parar de batalhar esse troféu eu vou levar
E se tentarem me barrar só com a rima
a vossa boca eu vou calar
Nessa estrada vou caminhar e não posso fracassar porque o que é meu
eu vou levar
Em cima do palco está Vanessa Faray, uma mulher são-tomense, de 28 anos. Mas está, sobretudo, a miúda de 15 a quem tinham designado outro destino: “Uma mulher rapper em São Tomé é uma coisa de loucos, ninguém dá credibilidade, é zero. Eu comecei a escrever canções de rap na oitava ou na nona classe e escrevia sobre a minha vida, sobre o que me angustiava, sobre não desistir dos sonhos. Para mim aquilo era auto-ajuda, aquilo fortalecia-me”, conta.
Vanessa começou a inscrever-se para cantar nas festas de freguesia na sua zona em São Tomé e Príncipe, o distrito de Lobata, primeiro para cantar canções do grupo Força Suprema e da artista Eva Rap Diva, depois para testar o seu próprio material. Foi nesses pequenos palcos que recebeu os primeiros apupos. Gritavam-lhe “uhhh, sai daí”, e os discursos sociais mais elaborados não demoraram a chegar: “Eu com 16, 17 anos já ouvia: ‘Você é mulher, isso é música para homens. Você vai ter é que arranjar namorado, fazer filhos e cuidar da casa’”, recorda. Ela continuou a subir aos palcos nas localidades de São Tomé, formou o trio Divas do Rap STP - entretanto descontinuado, pois as outras duas cantoras desistiram - gravou algumas músicas no estúdio de amigos, trabalhou em bares, continuou a cantar em festas populares e em escolas. Escreveu a música “Na estrada” (letra em cima), que a levou para palcos maiores no país, e depois surgiu o passo que preconiza na canção: no país realizou-se um casting para atrizes são-tomenses, para participarem no espetáculo “Esse Caminho Longe”, promovida na cidade portuguesa Viseu. Vanessa aventurou-se e acabou por ser escolhida: aí começou a sua viagem para Portugal, para protagonizar a peça em vários municípios. E, dali, começou a viagem da sua vida que a trouxe agora à Guiné-Bissau.
“A cultura é um setor muito importante, faz parte da identidade dos povos. É fundamental desenvolver a criatividade"
Vanessa Faray

DR
Vanessa veste padrões africanos que trouxe de São Tomé, está descalça, vai marcando o ritmo da canção nos pés, que pisa com vigor no chão do Ur.GENTE, o Centro Transdisciplinar de Artes Cénicas de Bissau. A acompanhá-la nos instrumentos estão Marinho de Pina e Remna Schwarz - não se conheciam, são uma banda improvisada em 3 dias. O que os juntou foi o “Redes Reais, Encontro Internacional Imersivo PALOP-TL”, que reuniu na Guiné-Bissau 15 artistas e gestores culturais de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
O evento é promovido pelo PROCULTURA, organizado pela ONGD VIDA, e financiado pela União Europeia. É também co-financiado pelo Camões - o Instituto da Cooperação e da Língua - e este último facto é uma surpresa para muitos, já que a aposta nesta área rompe com algumas pré-conceções: “É engraçado que, muitas vezes, quando eu digo que estou a trabalhar num projeto de cultura nos PALOP e Timor-Leste, as pessoas dizem: “Ah, mas não devia ser saúde ou educação? Porque há essa ideia de que a “ajuda” e a cooperação internacional são só focadas na saúde ou na educação”, admite Mercedes Pinto, gestora do projeto, que justifica: “A cultura é um setor muito importante, faz parte da identidade dos povos. É fundamental desenvolver a criatividade, apoiar os artistas, gerar emprego e rendimento no setor cultural, porque eles podem mudar a sociedade”, defende.
O debate sobre a importância da cultura alimenta discussões internacionais e divergências familiares: “Isto é uma grande discussão com a minha irmã: eu defendo que é tão útil para o mundo haver uma pessoa que estuda matemática ou medicina, como haver uma pessoa que estuda dança”, defende Lucienny Kabral. A hoje bailarina quis durante muitos anos ser médica, mas no final do ensino secundário mudou de ideias - a decisão não foi compreendida por muitos, mas ela está munida de respostas para quem a questiona: “A minha mãe era professora, eu conheci muitas crianças que tinham grandes dificuldades com matemática e eram consideradas retardadas por causa disso, mas sabiam desenhar de uma forma incrível, eram muito criativas, tinham outras formas de expressão. Mas o sistema está construído assim, então elas são postas de parte e nem se aproveita o talento que elas têm”, refere Lucienny.
Mas qual é, então, esse potencial que é desconhecido de tantos? “A arte abre muitas portas para conhecer lugares, pessoas, culturas. Uma bailarina, que trabalha o corpo, está a trabalhar na auto descoberta, que é um processo muito importante para a nossa vida.
Depois de entenderes o teu corpo, as possibilidades que tens são enormes. Imagine um arquiteto ou um construtor - constrói uma casa para o exterior. Eu construo algo para o público mas que fica para mim própria também, fica no meu corpo, na minha mente, fica tudo comigo. E isso desperta uma inteligência que é muito importante na vida - enquanto bailarina, eu sinto que a forma como vejo o corpo, as pessoas e as emoções mudou”, revela a cabo-verdiana que, através de uma bolsa do PROCULTURA, se licenciou em Dança na Escola Superior de Dança de Lisboa.
A ideia da dança como uma forma de “ver o mundo” pode ser estranha a parte da população mas é muito próxima a quem é do grupo. Para Bibiana Figueiredo, a dança foi uma “salvação” . Aos 14 anos, juntou-se à escola Balleteatro que a puxou de um período “muito difícil” de adolescência: “Eles ensinam a arte de uma forma muito autêntica, que vai realmente buscar quem é que tu és, as tuas raízes, a tua pessoa, e isso fez-me redescobrir quem eu sou. Eu era mais fechada e abriu-se aqui uma borboleta”, ilustra. A borboleta foi também estimulada pelos exercícios propostos pelo corpo docente: “Estávamos na segunda semana de aulas e uma professora disse-nos: ‘Vou dar-vos um trabalho de casa que vai durar os três anos do curso: vocês têm que andar na rua e observar. Observar as pessoas, o comportamento, o que vos suscita o atenção, o que vos faz pensar. Para vocês criarem, têm de estar atentos aos outros, e isso é um trabalho que tem de permanecer sempre’”, recorda Bibiana. Ainda hoje, a bailarina tenta ao máximo não falhar ao que a professora pediu - até porque vê o impacto real, já que vê a arte é, na sua opinião, uma forma de transmitir uma “visão sobre os problemas da sociedade” e, para isso, nada melhor que observar os seres humanos.
"Eu defendo que é tão útil para o mundo haver uma pessoa que estuda matemática como haver uma pessoa que estuda dança”
Lucienny Kabral

DR
O encontro “Redes Reais, Encontro Internacional Imersivo PALOP-TL” estendeu-se durante uma semana intensa. No espaço do Ur-GENTE, em Bissau, houve uma residência artística, várias demonstrações da arte de cada profissional, uma criação artística feita em conjunto, e várias horas de formação artística especializada. Do leque de formadores fez parte a gestora cultural Valentina Zanelli, que se encarregou de dar aos participantes ferramentas concretas para fazerem florescer os seus projetos: “Um artista também é um empreendedor criativo. Ou seja, é alguém que cria arte, mas que também tem de saber definir objetivos, construir um cronograma, elaborar um orçamento, fazer a comunicação, saber apresentar-se em festivais internacionais. Tudo isto precisa de uma ordem. O que eu fiz foi ajudar os artistas a organizar melhor o seu trabalho e a evitar frustração ou burnout, algo muito comum quando se tenta fazer tudo ao mesmo tempo e sem estrutura”, relata a presidente da Creativi Connections, uma associação cultural com sede em Turim, Itália, que tem trabalhado com vários países africanos como Costa do Marfim, Etiópia, Nigéria ou Senegal.
Na Guiné-Bissau, Valentina encontrou quase tudo por fazer em termos de infraestruturas, de apoios e até de leis. Os estudos atestam-no: segundo o mapeamento cultural, feito em 2019 pela Associação de Ajuda para o Desenvolvimento Povo para Povo da Guiné-Bissau (ADPP-GB), a “institucionalidade cultural é inexistente no país”. No que diz respeito ao património, “vale a pena mencionar apenas o Museu Nacional de Etnografia em Bissau e o Museu Amílcar Cabral em Bafatá”, referem, e o panorama completa-se só “com pequenos museus promovidos basicamente por instituições não-governamentais”, diz a equipa técnica da associação. Na Guiné-Bissau não existem leis sobre direitos de autor, sobre a comercialização e exportação de bens culturais, regulamentos de espetáculos ou leis para a proteção do património arqueológico, nota a ADPP-GB.
Este vazio faz com que a arte não saia do artista, e foi essa lacuna que o Ur-GENTE veio tentar colmatar. “O Ur-GENTE nasce precisamente da urgência de um país que não tem escolas de formação artística, que não fomenta a circulação de artistas, que não investe na cultura. Na génese do nome também está o poema de Eugénio de Andrade ‘Urgentemente’ mas, aqui, além de ser urgente o amor, é urgente criar condições dignas para a prática artística, criar espetáculos, dar formação, é urgente permitir que os artistas aqui possam sonhar e testar”, explica Carolina Rodrigues, coordenadora do espaço. Na agenda habitual estão sessões de Slam Poetry (encontro entre rap, poesia e palavra performativa), Hip Hop Connection, espetáculos de teatro, aulas de dança contemporânea e de yoga, entre outros. A natureza do projeto e do financiamento certifica a realidade identificada no estudo da ADPP-GB: a ideia foi concebida por Carolina, que faz parte da ONGD portuguesa VIDA, e que viu o projeto ser selecionado para receber uma subvenção do PROCULTURA.
Mesmo garantindo independência na programação, sendo um projeto implementado na Guiné-Bissau, não escapa às sensibilidades políticas e sociais do país: “Já tivemos casos de artistas perseguidos, como um escritor que apresentou aqui um livro e depois foi perseguido por ser ativista. É complicado, porque a liberdade de expressão na Guiné-Bissau está muito condicionada, então muitos artistas são ativistas precisamente através da arte - para poderem dizer o que sentem de outras formas. A nossa responsabilidade é apoiar estes jovens e protegê-los, e o nosso objetivo é garantir sempre que aqui há liberdade”, sublinha a especialista portuguesa da área da cultura.
A viver há quase 16 anos no país, já viu os altos e baixos da política e já viveu as tensões sociais e os golpes de estado, mas algo que se manteve sempre uniforme foi o “desaproveitamento” da “riqueza cultural brutal” do país, refere. “Há tanta cultura aqui: as danças, a música, os pratos tradicionais. O turismo tem um potencial brutal para ser trabalhado como turismo cultural”, defende.
A opinião é partilhada pelos vários especialistas reunidos em Bissau, e tem uma das raízes na forma como se entende a cultura: “Nos países ocidentais, muitas vezes vemos a cultura como algo separado da vida quotidiana: algo que está num museu ou num evento específico. Mas nos contextos africanos é diferente: a música e a dança são uma forma normal de expressão, as práticas tradicionais como o vestuário e os rituais fazem parte do dia a dia, estão nos mercados, em casa, na escola, em todos os momentos”, analisa a Valentina Zanelli. E acrescenta: “A vida nos países africanos é muito mais comunitária do que em muitos contextos europeus ou ocidentais. A cultura também é esse conhecimento”, defende Valentina.
Esta perspetiva é também trazida por Lucienny Kabral. A hoje bailarina e coreógrafa pertence à Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, uma das companhias de dança mais prestigiadas do mundo. É na Alemanha que, desde 2023, vive e trabalha a técnica, mas foi na naturalidade da vida em Cabo-Verde que a dança surgiu: “O ritmo está no nosso sangue. A minha mãe punha-me nas costas dela com o pano enquanto fazia tudo em casa, e aquilo já era dançar, já era ritmo. Porque em tudo o que ela fazia, no que ela se mexia, eu já estava nessa dinâmica”, nota a artista.
A semana naquele pequeno país da África Ocidental terminou com uma criação conjunta que envolveu teatro, comédia, música e dança. O responsável por cozinhar as valências e as culturas dos 15 artistas dos países africanos de língua oficial portuguesa e de Timor-Leste foi o congolês Ulrich N’Toyo. O diretor artístico explica o processo: “Começámos por nos olhar, por nos observar, por ler as diferenças entre nós. Aceitar aquilo que o outro traz. E a partir disso criar algo comum”, explica. O racismo, a formação da identidade e o olhar da sociedade sobre os artistas africanos foram alguns dos temas expostos em cima do palco, que se transformou num espaço de denúncia. “Quando o artista sobe ao palco, ele mostra o que a sociedade muitas vezes não quer ver. Mostra as feridas, mostra as injustiças. A arte não é apenas para divertir - é também para fazer pensar” defende. Ali, as dores, as frustrações mas também os sonhos e as vontades encontraram-se também num grito de urgência de visibilidade, remata Ulrich: “Muitas vezes, quando se fala de países africanos, fala-se apenas de corrupção, de conflitos, de problemas. Mas os artistas africanos mostram que há muito mais que isso, e que o mundo tem de ver: há arte, há cultura, há criatividade e há força.”
O simples exercício de afirmação de identidade é um ato de resistência - é o que revela a história da bailarina Lucienny Kabral: “Ainda hoje, às vezes, quando vou assinar um formulário e na profissão coloco ‘Bailarina’, as pessoas olham para mim de forma estranha. De desdém sobre a profissão. Mas para mim é um orgulho. Nós somos criadores por natureza. Precisamos de criar para nos cumprirmos - e eu estou a fazê-lo”.
Artigo realizado no âmbito do evento REDES REAIS - ENCONTRO INTERNACIONAL IMERSIVO PALOP-TL apoiado pelo PROCULTURA - Promoção do Emprego nas Atividades Geradoras de Rendimento no Setor Cultural nos PALOP e Timor-Leste, financiado pela União Europeia, gerido e cofinanciado pelo Camões, I.P.
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