Ricardo Alves continua entre a cabine e os bastidores

19 de Junho de 2026
ricardo alves producao eventos etic
DR

Partilhar

Quando a BANTUMEN falou com Ricardo Alves em 2018, a palavra que organizava a conversa era desafio. O DJ e produtor angolano tinha-se mudado para Lisboa com um percurso longo ligado à música electrónica, à rádio e à pista, e procurava novas possibilidades para trabalhar a partir de uma geografia mais ampla. Oito anos depois, a palavra mantém-se, mas ganhou outro peso.


Ricardo está em Lisboa a fazer formação em Produção de Eventos na ETIC, num percurso que inclui estágio em festivais portugueses, e decidiu sentar-se na carteira durante um ano para fazer eventos de forma mais profissional. "Hoje vejo os eventos de uma forma mais científica e menos empírica. Chega um ponto em que não é suficiente. Eu cheguei nesse ponto e decidi avançar." A frase fixa o que está em jogo nesta fase: a experiência de décadas deixou de bastar a quem a acumulou.


E a experiência é muita. Ricardo toca desde 1995, produziu a primeira festa na Marginal de Luanda em 1998 e, desde então, nunca separou totalmente o DJing da produção. Com o irmão, Paulo Alves, esteve ligado aos eventos da Mix FM; mais tarde, trabalhou durante dez anos como gerente nacional de eventos da Coca-Cola; desde 2013, quando saiu da empresa, trabalha por conta própria como DJ e produtor. A circulação não foi apenas lusófona, tocou e produziu em Tóquio, Miami, Amesterdão e Cape Town. É este percurso que torna a decisão de voltar a estudar menos óbvia do que parece: não é um principiante a aprender o ofício, é alguém que o domina há 30 anos a concluir que o domínio empírico chegou ao seu limite.

ricardo alves producao eventos etic
DR

As cadeiras de Pensamento Estratégico, Planeamento e Gestão foram decisivas para reorganizar essa visão, e Ricardo defende que os eventos bem pensados e planificados trazem melhores resultados. Os anos de pista tinham-lhe ensinado a ler públicos, artistas e equipas; a formação trouxe-lhe outro vocabulário para a mesma realidade, feito de planeamento, orçamento, logística, gestão, técnica e decisão.


O efeito desse vocabulário novo é um olhar mais atento e mais crítico, sobre os outros e sobre si próprio. Hoje, toma notas sobre acertos e erros tanto nos eventos em que trabalha como naqueles em que é convidado para tocar. A pista, que durante décadas foi o seu posto de observação, deixou de ser o único: o backstage passou a ter o mesmo peso. "A importância dos invisíveis é fundamental para a logística e realização dos eventos. O backstage é o coração dos eventos."


O estágio no Rock in Rio Lisboa tem sido o terreno onde essa mudança de olhar se concretiza. Ricardo trabalha diretamente no Palco Mundo, sobretudo nas áreas artística e técnica, e descreve os dois meses como uma aprendizagem contínua. A escala do festival mostra-lhe dimensões que nem o palco nem a bilheteira revelam: comprando bilhete ou tocando, diz, quase nada se aprende, fica-se pela experiência vivida. Quem passou anos em cabines conhece a experiência do público e a do artista; o que lhe interessa agora é a terceira, a de quem monta as condições para que tudo aconteça.


A bagagem internacional entrou com ele na sala de aula. Ricardo levou para as aulas exemplos próprios, bem-sucedidos e mal-sucedidos, e com esses aprendeu que a formação não apagou o percurso, mas organizou-o. Foi também aí que reconheceu uma razão mais dura para estar ali: desde 2018, a música electrónica africana e afro-diaspórica ganhou visibilidade global, mas essa visibilidade nem sempre se traduz em poder de programação, produção ou curadoria. Para produzir eventos de destaque em Portugal, defende, é precisa formação, e só assim se entra nessa competição. A carteira da escola é, também, uma porta para salas de decisão que o seu percurso, sozinho, não abria.


A formação trouxe ainda uma prudência que antes não tinha. Questionado sobre ideias que tenham caído por terra, Ricardo não aponta uma desilusão; diz apenas que ficou um pouco mais prudente. "Não gosto de frear os meus sonhos, mas...", acrescenta, e deixa a frase suspensa. Continua a imaginar, mas com mais método; continua a arriscar, mas com maior consciência do que está em jogo.


O curso é uma escolha, mas também uma operação que teve de ser custeada. A empresa de produção que mantém em Angola pagou a formação em Portugal, sobretudo por se tratar de um curso diurno, incompatível com trabalho a tempo inteiro. Em paralelo, continua a usar a rádio como plataforma de circulação cultural: o programa "Rádio Mix", na RTP, é para ele uma ferramenta de divulgação de artistas e DJs africanos em Portugal, e um modo de acrescentar leitura, contexto e rede ao que já existe, em vez de apenas entrar em equipas formadas.


Depois da credencial, prevista para setembro, Ricardo pretende continuar a estagiar até dezembro. Quer ainda tirar da gaveta alguns projectos de entretenimento e, se tudo correr como previsto, materializar pelo menos um deles em Portugal até ao Verão de 2027.


A cabine continua a ser a sua primeira paixão, e é a partir dela que tudo isto se explica: não trocou o disco pela secretária, foi buscar à secretária as ferramentas que a cabine, ao fim de trinta anos, já não lhe dava. Se em 2018 se falava dos novos desafios de Ricardo Alves, o título desta fase vem nas suas próprias palavras: "Pronto para novos desafios fora da zona de conforto."

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile