Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa
Partilhar
X
Quando Diogo Gazella encontrou por acaso, no YouTube, uma jovem a cantar "Tristi Vida", quis aquela voz no final da peça que estava a montar. A canção tornou-se epílogo do espetáculo, e numa das noites estava na plateia Ana Moura. À saída, perguntou ao encenador quem era a cantora. A resposta - uma jovem cabo-verdiana radicada em Paris, ainda pouco conhecida - chegou pouco depois ao manager da fadista, e por fim ao escritório da Sony. Foi por essa cadeia de circunstâncias que Rislene Semedo se viu num caminho que ainda hoje descreve com algum espanto. "Comecei a cantar só para me divertir, em casa, com amigas. Só começou a ficar mais sério depois de a Sony ter reparado em mim. Foi uma surpresa", conta.
A 2 de junho, esse caminho ganha a sua primeira forma fechada com Poi Beat, álbum de estreia construído ao longo de três anos entre Portugal, Cabo Verde e França. A produção conta com produção de Migz e Ariel, do produtor Charlie Beats, e ainda de Easy Dadda em "Nha Dignidade". São 15 faixas onde Rislene junta o rap, o trap e o drill ao batuku, à gaita e às guitarras do universo cabo-verdiano, num exercício de mistura que ela própria reconhece ter sido aprendido em estúdio. "Achava que o meu caminho era exclusivamente o rap e o boombap. Via-me como rapper, e cantava um pouco nos refrões mais para complementar as músicas do que propriamente por acreditar na minha voz. Nunca achei que a minha voz fosse algo especial", diz. Foi essa convicção que os produtores se encarregaram de desmontar. Hoje, fala do disco como de "um amor que nunca esperei".
Antes da peça e do que chegou depois, Rislene cantava em casa, com amigas, sem grandes pretensões. Filha de cabo-verdianos da Assomada, cresceu com o crioulo na conversa familiar e com a música francesa nos ouvidos por defeito, mas a conexão visceral foi sempre com o universo musical cabo-verdiano. As irmãs já cantavam, e ela tentou aventurar-se - a voz, conta, era aguda, e custou-lhe a aceitar. Provou diferentes géneros e foi no rap que se reconheceu logo. "Foi o único género em que me senti à vontade para cantar e compor." As primeiras canções que lançou no YouTube -“Tristi Vida", "Tempo Dura", "Consedju di Mana", entre outras entretanto retiradas - foram gravadas "só para mostrar que tinha voz". A plataforma funcionou como primeiro palco. Em 2025, foi distinguida como Artista Revelação na 14.ª edição dos Cabo Verde Music Awards. Tinha 24 anos e três filhos.
De entre essas primeiras canções, "Tristi Vida" foi a que a deu a conhecer, e é também a música em que diz ter posto "tudo". O tema vem, segundo a artista, de um lugar de dor, tem partes que são suas e partes herdadas daquilo que foi vendo à sua volta, num equilíbrio entre o que é pessoal e o meio que a formou. Quando lhe perguntam se consegue separar a arte da artista, responde que consegue. O que muda é o registo emocional, e em experiências menos pessoais a entrega pode não sentir-se igual. Em "Tristi Vida", foi o oposto. A proximidade entre vida e canção é também o que rege o seu método de escrita.

©BANTUMEN/Nuno Silva
Compõe à noite, depois de deitar os filhos. "Até hoje não consigo escrever de dia. O meu horário é a partir das 21 até às 4 da manhã." Diz que é a única altura em que a casa lhe pertence, com os fones e os beats que recolhe da internet. O hábito de quarto silencioso é importante para entender Poi Beat, porque o álbum nasce desse intervalo. Quem a escuta diz-lhe por vezes que as suas músicas são tristes. Rislene responde que são, no fundo, um reflexo honesto de quem é. Já fez covers em francês, e ainda canta um pouco na língua, mas o à-vontade que tem em crioulo é de outra ordem. A língua, no caminho, encontrou-se com uma voz que também tardou a chegar.
Achava-a aguda demais, e custou-lhe a gostar dela. Com o tempo, foi explorando, e acabou por encontrar um registo próprio que classifica como "choro cantado", comum em alguns artistas cabo-verdianos e que reconhece como o seu diferencial. "É isso que acrescenta", diz. A voz mudou e foi "quebrando com o tempo". "Aprendi a gostar com o tempo, à medida que fui explorando." Mesmo quando se aventura por estilos mais leves, a tendência permanece: chama-lhe "voz magoada", e diz que é o seu registo, qualquer que seja a faixa ou o género em que canta.
A primeira vez que entrou em estúdio estava nervosa, com medo de não conseguir mostrar o que sabia. O espaço acabou por se tornar peça central do seu percurso. Foi ali, com Migz, Ariel e Charlie Beats, que começou a "confiar mais" e a aprender "a lidar com os meus medos, com a minha timidez". Reconhece que a imagem pública que vai chegando às redes é diferente daquilo que é fora delas: confiante nas fotografias e nos vídeos, mais reservada no plano pessoal. Sobre os produtores, fala em registo de cumplicidade. "Deram-me confiança. Fizeram um grande trabalho." O resultado é fruto de um processo conjunto, de uma relação que se estendeu para lá do estúdio e que produziu, entre outras coisas, o título do disco.
O nome chegou já adiantado o processo. Antes dele, propôs-se "Silêncio di Noti", que ficou pelo caminho. Como Rislene só falava crioulo ou francês, a comunicação em estúdio fazia-se com palavras soltas que toda a gente percebia. Poi beat -“põe o beat" - era a frase à qual recorria com mais frequência para pedir que avançassem com o instrumental. A expressão virou piada interna, nome do grupo de WhatsApp e, assim que foi proposta como título do disco, foi aceite de imediato. Poi Beat é, segundo a artista, "100% eu" e um álbum onde se dá a conhecer por inteiro.

©BANTUMEN/Nuno Silva
Quando assinou com a Sony, estava grávida de sete meses. O intervalo, que poderia ter trazido pressa, deu-lhe afinal o tempo de que o álbum precisava para amadurecer. "Cheguei, apresentei as letras, fomos trabalhando." A calma foi uma decisão. "Coisas feitas à pressa nunca saem bem", diz, e o ritmo respeitou esse princípio. Trabalhar a esse compasso permitiu-lhe ouvir as composições várias vezes, pôr e tirar faixas, e deixar repousar o que já estava feito. O resultado, descreve, é "o mais honesto possível. Tem dor, tem honestidade, mas também tem muita força".
O alinhamento atravessa o trap, o rap, o drill, o batuku e a gaita, com uma exigência clara de em todas as faixas, manter a ligação a Cabo Verde. "É um desafio porque Cabo Verde eu não conheço, mas a cultura eu queria trazer." Essa herança é algo que se vai tornando visível ao longo das faixas do alinhamento. Alguns temas já são conhecidos do público - "Desisti", "Ko Kai" com Richie Campbell, "Nha Kubiku", "Nha Dignidade" e "Sodade" têm circulado em antevisão; as restantes composições chegam agora aos ouvintes. Entre todas, "Nha Kubiku" ganha destaque particular pela ligação pessoal e pela mensagem que pretende transmitir.
É uma dedicatória à mãe, e adapta uma história que ouvia em criança: a parábola de um homem que pede pão e vinho a uma família rica e é mandado embora, e que volta a pedir a um casal idoso e pobre que lhe dá o pouco que tem. A panela do casal multiplica-se, a casa cresce, a família que recusou perde tudo. A artista percebeu, mais tarde, que a figura era uma versão familiar de Cristo. A canção transforma essa memória doméstica em algo quase cinematográfico, e é a única do disco em que Rislene se assume narradora explícita.
Se "Nha Kubiku" parte de dentro de casa, outras faixas saem cá para fora. "Stop Violencia", "Nha Dignidade" e várias outras trazem para a frente questões coletivas, da violência de género e da violência doméstica à pobreza e à exclusão social, e fazem-no de modo direto. "Sodade", lançada em fevereiro como antevisão do disco, segue por aí: começa em registo intimista, na linhagem das mornas familiares, mas a artista leu-a desde sempre como espelho social. É nesse equilíbrio entre o pessoal e o coletivo que vive a sua escrita, e é também esse cruzamento que se quis mostrar, sobretudo, a solo.
As colaborações, por isso, são poucas, e foram pensadas com critério. Richie Campbell entra em "Ko Kai", depois de uma ligação artística que começou no remix de "Before I Lose My Voice". Apollo G assina "Ja Era", canção que nasceu de uma proximidade construída com naturalidade. Rislene fala dessas duas presenças como pontos em que ambos se encontraram a meio. Concentrou a maioria das faixas na sua própria voz por uma razão de método - era importante mostrar quem é, e medir o que o álbum diz por si antes de cruzá-lo com outras vozes.
O que vem depois do disco fica em aberto. Rislene quer descansar, e mantém em vista novos projetos. Poi Beat, por ser o primeiro álbum, tem um significado especial para si e para o que pode mudar na vida dos filhos, e é nesse peso pessoal que pousa a importância simbólica da estreia. Sobre o resto, diz que deixa nas mãos de Deus, "só ele é que sabe".
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos