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"Família… eu coreografei para a adidas." Foi com estas palavras que Rubina Suzeth anunciou nas redes sociais uma das conquistas mais concretas do seu percurso até hoje: a direção de movimento da nova campanha publicitária da adidas Y-3, filmada inteiramente em Luanda, com bailarinos angolanos, em espaços das periferias da cidade, construída a partir da linguagem do kuduro.
A Y-3 é a linha de moda desportiva de alta gama nascida em 2002 da parceria entre a adidas e o designer japonês Yohji Yamamoto, uma colaboração que fundou a categoria do sportswear de moda, combinando a silhueta monocromática e os volumes irregulares de Yamamoto com o ADN desportivo da marca alemã. Que uma campanha desta linha tenha sido filmada em Luanda, com o kuduro como linguagem central, diz tanto sobre a direção criativa do projeto como sobre o momento que Angola atravessa enquanto referência cultural.
O convite chegou no final de janeiro, por intermédio de Nayela, que integrou a produção ao lado de Toty Sa’Med. Seguiu-se uma reunião online com Nazar (nome artístico de Alcides Simões), angolano radicado em Amsterdão, colaborador frequente da Y-3, e, nas palavras de Rubina, "o cérebro por trás de tudo isso". Foi Nazar quem concebeu a campanha de raiz: a música, a "roda" como formato coreográfico e a proposta de filmar em Angola. "Todo o conceito e inclusive a música foi trabalho dele, a quem sou eternamente grata pela confiança e oportunidade", disse a coreógrafa. A partir dessa reunião, o trabalho de Rubina foi orientar os corpos em cena de modo a traduzir a ideia de partida: o kuduro como se praticava em meados dos anos 2000, filmado sem maquilhar o contexto, com a intenção de manter a linguagem o mais genuína possível.

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Para os dois lugares em cena a seu lado, Rubina escolheu Raul Alberto e Ronaldo Sambala, ambos aprovados pela produção, e integrou-os formalmente na sua companhia, a ILU. Tiveram cerca de duas semanas para preparar a coreografia e o condicionamento físico necessário para os momentos mais exigentes. As filmagens aconteceram num único dia, em Luanda, depois da chegada da equipa da adidas com o figurino.
O kuduro que Rubina foi chamada a dirigir tem uma história que começa nos musseques de Luanda, nos anos 1990. Foi essa energia crua, popular e identitária que a adidas Y-3 decidiu colocar no centro do projeto, com o título: Kuduro to the World.
Para Rubina, o kuduro vai além de uma referência estética importada, é uma linguagem que atravessa o seu corpo desde a adolescência. "Acho que nós africanos já nascemos com a pulunguza de dançar, entretanto, algumas pessoas desenvolvem esta habilidade melhor que outras", contou. Cresceu em Angola, encontrou no movimento uma forma de expressão quase natural e aos 13 anos já transformava essa aptidão num rendimento. Aos 14, ao juntar-se a um grupo de jovens da igreja, descobriu que também tinha capacidade para criar coreografias. Foi com o YouTube, o hip-hop, a dança contemporânea e o kuduro que foi construindo uma base mais ampla, até chegar à Companhia de Dança da ZAP, uma das plataformas que a projetou como profissional.
O percurso foi também feito de consciência sobre o que faltava. Rubina falou abertamente da ausência de uma indústria de dança em Angola e das poucas estruturas que permitem aos profissionais viver da sua arte. Quando foi estudar coreografia para a Rússia, percebeu como a dança podia ser encarada com maior valorização social e profissional, e percebeu também como o seu corpo era lido fora do país: por ser negra e africana, esperavam dela sobretudo danças africanas, mesmo quando dominava outras linguagens. Essa experiência levou-a a mergulhar nas danças africanas com mais consciência, reconhecendo nelas uma parte essencial da sua identidade artística. Em abril de 2023 venceu o prémio de Melhor Dançarina do Ano na segunda edição dos Prémios Nova Geração, em Angola; em novembro do mesmo ano ganhou o concurso solo Afroboom 2023, na Turquia.
Quando a BANTUMEN falou com a artista em 2024, ainda estava na Rússia a consolidar a formação em coreografia. "Sinto que já não consigo ver-me tanto como bailarina porque é pouco para mim. Quero criar, quero dirigir movimento." A sua formação, diz, permite-lhe explorar várias formas de criação e é a partir dessa amplitude que quer construir a ILU como espaço de excelência, aberto a diferentes linguagens, com uma identidade marcada por Angola.
"Ter uma companhia internacional nesse nível e com poucos meses de existência, é loucura", reconheceu. A campanha é também um argumento sobre o que é possível construir a partir de Angola e sobre o lugar do kuduro enquanto linguagem com alcance global: "O kuduro não só me colocou a trabalhar com a adidas, como foi o único movimento capaz de convencer uma das maiores marcas desportivas do mundo a vir para Angola e tê-lo na sua campanha."
Nas redes sociais, ao partilhar a notícia, Rubina escreveu que talvez fosse ali o momento de dizer que o seu "preço acabou de subir" e que a ILU era "oficialmente uma companhia internacional". Fez ainda questão de mencionar os outros profissionais que contribuíram para o resultado visual, incluindo Kim Praise e Ilídio Costa, e elogiou a entrega de Raúl e Ronaldo. Depois, em jeito de nota (e conclusão), deixou claro que acima de tudo está a aproveitar o momento: "Essa ainda é a minha criança interna a reagir, depois reajo de forma profissional, não sufoquem a artista."
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