Sarina Azevedo leva a língua e a memória de Cabo Verde ao Paraíso, em Braga

9 de Setembro de 2026
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©Sarina Azevedo via Instagram

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O Paraíso regressa a Braga nos dias 11 e 12 de setembro, na sua quarta edição, com uma programação que atravessa música, cinema, dança e pensamento crítico sob o tema "Passado e Futuro na Afrodescendência". No sábado, dia 12, às 15h00, no gnration, a criadora de conteúdos cabo-verdiana Sarina Azevedo junta-se ao moçambicano António Zaqueu e ao angolano Luege D'Olim numa conversa moderada pela investigadora brasileira Luiza Lins, sobre participação, memória e pertença de jovens migrantes no espaço público.


Sarina Azevedo cresceu no interior da ilha de Santiago, num contexto que descreve como muito marcado pela oralidade. Ouvia histórias, lendas e manifestações do folclore que faziam parte do quotidiano, rodeada também pelo sincretismo religioso e por diferentes formas de viver a cultura. "Acho que foi nesse contexto que começou a minha curiosidade por perceber melhor aquilo que me rodeava", diz. As perguntas que lhe surgiam ao ouvir determinadas histórias ou expressões, e para as quais queria encontrar respostas, tornaram-se o motor daquilo que viria a criar. Mais tarde, essa curiosidade cruzou-se com a formação académica em Línguas Aplicadas, que lhe deu outras ferramentas para olhar para a língua, a cultura e a comunicação com um rigor diferente.


Chegou a Portugal aos 18 anos, vinda de um contexto rural onde a vida era mais simples e calma. "Cheguei aqui como uma menina que nem sabia andar na capital do seu próprio país", conta. A mudança teve um impacto profundo na forma como passou a olhar para a própria cultura e identidade. Em Cabo Verde, não tinha propriamente consciência do que significava ser uma pessoa negra. Era a Sarina, inserida numa comunidade e numa história que lhe davam uma identidade próxima e familiar. Em Portugal, começou a ser lida de outra forma. "De repente, deixo de ser apenas a Sarina e passo a ser uma imigrante, uma mulher negra, uma pessoa racializada", explica. Foi esse confronto com rótulos atribuídos a partir do olhar dos outros que a levou a olhar para a própria cultura com mais consciência e sentido crítico, e a sentir necessidade de mergulhar na sua raiz para não ser engolida pelo novo contexto.

"Até que ponto estamos realmente a dar prestígio à nossa língua [crioulo] se não a vemos como uma língua que pode ocupar todos esses espaços?"

Sarina Azevedo

É a partir dessa procura que nasce grande parte do trabalho que hoje partilha nas redes. Sarina quer contar histórias pouco exploradas, de temas e pessoas com quem se identifica e que têm relação com a ancestralidade e a cultura cabo-verdianas, sobretudo para despertar nas gerações mais novas o interesse por uma história que muitas vezes não lhes chega. Vê nesse trabalho também uma forma de desconstruir a visão colonial que ainda persiste sobre Cabo Verde e sobre aquilo que os cabo-verdianos são.


A língua ocupa um lugar central nessa reflexão. Sarina aponta uma contradição na relação dos cabo-verdianos com o crioulo, um orgulho que considera ainda superficial, porque raramente se estende ao conhecimento da sua história ou da origem das palavras. Na prática, o crioulo continua associado a contextos informais ou humorísticos, enquanto o português fica reservado para os espaços de maior prestígio. "Isso faz-me questionar, até que ponto estamos realmente a dar prestígio à nossa língua se não a vemos como uma língua que pode ocupar todos esses espaços?", diz. Um dos vídeos que fez sobre palavras cabo-verdianas sem origem portuguesa tornou-se, por isso, um dos que mais visualizações teve, mas também um dos que gerou reações mais divididas, entre pessoas que se indignaram por não se reverem naquela variante e outras que se identificaram e partilharam memórias de infância. Para Sarina, essa divisão ilustra bem a complexidade da relação dos cabo-verdianos com a própria língua, entre identificação e orgulho de um lado, e uma certa inferiorização do outro, que faz com que palavras e expressões estejam a cair em desuso.


Falar publicamente sobre temas que tocam a história e a identidade de tantas pessoas implica, para Sarina, uma responsabilidade que passa sobretudo por trazer informação factual e consistente. Descreve um processo de investigação intenso por trás de vídeos de poucos minutos, com muitas horas de pesquisa e de reflexão sobre como adaptar essa informação a um formato curto sem perder o embasamento. Ao mesmo tempo, insiste em não apresentar aquilo que produz como verdade absoluta, mas como uma análise construída a partir da sua experiência e do seu próprio repertório, um espaço aberto à participação de quem a acompanha. "Não quero apresentar a minha experiência como se fosse uma representação universal de Cabo Verde ou da cultura cabo-verdiana", afirma. Sabe também que falar publicamente implica lidar com críticas, algumas construtivas e outras vindas de quem desconhece por completo aquilo sobre que fala, e reconhece estar em constante processo de aprendizagem e autoquestionamento.

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©Sarina Azevedo via Instagram

A ponte entre esse trabalho e o painel do Paraíso passa pelo projeto Braga 25 "O que fazemos com isto?", onde Sarina conheceu António Zaqueu e Luege D'Olim. Já antes lhe diziam que tinha potencial para criar conteúdos, mas só ali sentiu que existia um espaço que a representava. Conviveu com artistas mais experientes, como Joãozinho da Costa, Marinho e os Landa, e participou num processo de escrita orientado pelo escritor angolano Ondjaki, que a levou a reencontrar uma parte de si que sentia adormecida desde criança, quando escrevia contos, crónicas e poesia. Desse processo nasceu o seu conto na antologia "Tudo Isto É Futuro", sobre a seca e a fome em Cabo Verde, um tema que não viveu diretamente mas que a atravessa através da memória familiar. O bisavô materno de Sarina chegou a São Lourenço dos Órgãos fugido da fome e foi acolhido pela família que viria a ser a da sua avó paterna, um encontro que aproximou as duas famílias ao longo de gerações até hoje. As casas das duas avós ficam frente a frente. "Quando penso nisso, percebo como a nossa história pessoal é feita de acontecimentos que aconteceram muito antes de nós, de dores, encontros, deslocações e gestos de sobrevivência que continuam a ter consequências nas gerações seguintes", diz.


Sarina insiste em não tratar a experiência africana ou migrante em Portugal como um bloco homogéneo, já que cada pessoa carrega a memória linguística, política e social do seu próprio país, e é nessa especificidade que vê a forma de combater a simplificação e mostrar a diversidade real do continente africano e das suas diásporas. Trazer a língua, a história e as contradições de Cabo Verde para o centro do debate é, para si, uma forma de contestar a ideia de que o conhecimento válido vem apenas do ocidente, e de transformar a criação de conteúdos numa ferramenta de descolonização do olhar. Valoriza também o encontro presencial, que o digital não substitui, pela escuta sem filtro e pela possibilidade de construir raciocínio em tempo real com quem está na sala. É essa combinação, entre pesquisa, memória e presença, que descreve como o lugar que quer ocupar, o de ponte e de salvaguarda consciente da memória coletiva cabo-verdiana.


A conversa "Arte, participação e práticas de contestação da colonialidade", com Sarina Azevedo, António Zaqueu e Luege D'Olim, é gratuita e acontece às 15h00 de sábado, no gnration, dentro da programação do Paraíso 2026.

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