“A Maldição do Açúcar” revela como o açúcar moldou o mundo moderno através da escravatura

2 de Março de 2026

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A 4 de março, a RTP Play disponibiliza “A Maldição do Açúcar”, documentário realizado por Mathilde Damoisel que propõe revisitar a história de um dos produtos mais banalizados do quotidiano europeu. A sessão pública do primeiro episódio acontece no Museu do Aljube, em Lisboa, às 18h, com a presença da realizadora e do historiador Miguel Bandeira Jerónimo. A série, com dois episódios de 52 minutos, é uma coprodução entre Portugal, Espanha e França, pensada para canais como a ARTE, RTP e Movistar+.


O ponto de partida é claro: o açúcar não é apenas um problema de saúde pública. É uma estrutura histórica que durant cinco séculos, ajudou a financiar impérios, consolidar o capitalismo industrial e redefinir cadeias globais de produção. Mas essa ascensão teve um custo concreto, medido em territórios devastados, florestas destruídas e milhões de vidas negras escravizadas.


Dos 12,5 milhões de africanos traficados ao longo do comércio transatlântico, mais de metade foi forçada a trabalhar nas economias açucareiras. A monocultura da cana nas Caraíbas e no Brasil não foi um detalhe agrícola. Foi o motor financeiro que permitiu acumular capital suficiente para sustentar a Revolução Industrial europeia. O açúcar alimentava operários com calorias baratas, ao mesmo tempo que alimentava lucros que circulavam entre Londres, Paris, Lisboa e Amesterdão.




O documentário parte dessa base histórica e assume que o consumo europeu está diretamente ligado à violência colonial. A própria citação evocada na sinopse, retirada de “Cândido”, de Voltaire, é reveladora. Já no século XVIII se denunciava que o prazer doce na Europa tinha um preço amputado nas plantações.


Se até hoje, os factos históricos ocupavam o foco deste tema, agora, importa questionar quem controlou a narrativa. Quando uma produção europeia revisita a economia do açúcar, revisita inevitavelmente a escravatura negra. Isso obriga a perguntar: quem conta esta história e a partir de que lugar? A realizadora é francesa. A coprodução é maioritariamente europeia. O circuito de exibição é europeu e não é um detalhe irrelevante.


Trazer o tema para a televisão pública é importante. Durante décadas, a história económica da escravatura foi diluída em discursos genéricos sobre “descobrimentos”, “expansão marítima” ou “trocas comerciais”. Falar de açúcar é falar de violência organizada e de acumulação forçada de riqueza. É um avanço que isso seja assumido em horário nobre.


Mas é igualmente importante recentrar o sujeito histórico. As economias açucareiras não foram apenas sistemas de exploração. Foram também territórios de resistência. As revoltas nas Caraíbas, os quilombos no Brasil, a Revolução Haitiana, que nasceu precisamente num contexto de plantação açucareira, mostram que a história não se resume a vítimas passivas. Houve agência, organização e ruptura também.


É aqui que uma leitura crítica se torna necessária. Um documentário sobre o açúcar pode optar por enfatizar a dimensão estrutural do capitalismo ou pode também dar corpo às experiências negras que sustentaram e desafiaram esse sistema. A diferença não é estética. É política.


Outro ponto relevante é o presente. A sinopse fala de “ontem como hoje” e relembra que a monocultura não desapareceu nem se reformulou. As cadeias globais de produção continuam a depender de trabalho precário no Sul global e o consumo continua concentrado no Norte, ditando uma herança colonial que, além de memória, é também um padrão económico.


Em Portugal, esta discussão tem uma camada adicional. O país participou ativamente no tráfico transatlântico e nas economias de plantação. No entanto, o debate público sobre reparações, responsabilidade histórica ou redistribuição simbólica e material permanece limitado. Exibir um documentário sobre açúcar no Museu do Aljube, espaço associado à memória da repressão política do Estado Novo, cria um cruzamento simbólico interessante: memória, poder e violência estrutural.


A pergunta que fica é se esta obra abre caminho para uma discussão mais profunda ou se se ficará por uma denúncia histórica já relativamente consensual. Denunciar o passado é importante mas questionar as continuidades é mais exigente.


A história do açúcar não é periférica. É parte da formação do mundo moderno e da própria configuração racial e económica do Atlântico. Falar de açúcar é falar de corpos negros que sustentaram impérios europeus. É falar de riqueza acumulada que ainda hoje estrutura desigualdades.


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