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“Até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.”
O provérbio africano que acompanha a nova série da RTP Play, Novas Narrativas de Caça, não podia ser mais certeiro. Durante décadas, a comunidade afrodescendente em Portugal foi constantemente resumida a narrativas limitadas, criadas por olhares externos. Quando se pensa em pessoas negras em Portugal, o imaginário coletivo continua frequentemente preso aos mesmos lugares-comuns: videoclipes, Linha de Sintra, pobreza, criminalidade ou determinados estereótipos culturais. Mas a realidade é muito maior, mais diversa e mais complexa do que isso.
Existe talento. Existe profundidade, existem pessoas com histórias e personalidades únicas, histórias que raramente (ou nunca) tiveram espaço para existir no audiovisual português.
E é precisamente aí que Novas Narrativas de Caças se torna esta powerhouse. O projeto funciona quase como um manifesto cultural, que vai muito além da série porque abre debates, mexe com a cultura pop portuguesa e ajuda-nos a interpretar melhor e a contar aquilo que acontece à nossa volta. Porque representação não é apenas aparecer no ecrã, é, sobretudo, controlar a narrativa sobre quem somos.
A série reúne diferentes realizadores negros, cada um com linguagens, vivências e preocupações completamente distintas. Os realizadores que assinam a série procuraram desde o horror, ao humor, às episódios mais centradas na vida pessoal ou, simplesmente, contaram o que acreditam figurado em sociedades distópicas. E isso, por si só, já quebra uma ideia muito presente na sociedade portuguesa: a de que existe apenas uma experiência negra.
Na verdade, a diversidade de perspetivas apresentadas ao longo da série mostra precisamente o contrário. Existem várias formas de ser afrodescendente, várias relações com identidade, pertencimento, memória e comunidade. Porque afinal não somos apenas o nosso background étnico, mas muito mais do que isto.
E talvez um dos aspetos mais importantes do projeto seja exatamente esse: a criação de uma comunidade de realizadores negros. Durante muito tempo, muitos destes criadores cresceram artisticamente isolados, como se fossem sempre “os únicos” nas salas, nos sets ou nos espaços de decisão. A ausência de representação cria solidão. E a solidão perpetua ciclos de exclusão.
Por isso, ver uma série desta dimensão existir na RTP representa também a possibilidade de quebrar esse ciclo. Não apenas para quem cria agora, mas para as próximas gerações. Para os filhos que crescerão a ver pessoas parecidas consigo em lugares de destaque. Para todos aqueles que nunca se viram representados nos “grandes espaços” do audiovisual português.
O próprio percurso do projeto reflete isso. A série esteve três anos em concurso até finalmente acontecer. E o fato de só agora estarmos a assistir a uma série realizada por criadores negros levanta inevitavelmente uma questão desconfortável: porque demorou tanto tempo? Portugal é um pais com uma presença africana enorme, não sendo nós o pais que criou o luso-tropicalismo não é? Mas só em 2026 temos uma série criada por afrodescendentes. No cocktail após a exibição, conversei com a artista e deputada Eva Cruzeiro e a mesma comentou que é triste o fato de a RTP praticar um género de apartheid ao criar um canal dedicado exclusivamente a conteúdos africanos, segregando a programação em vez de a integrar na oferta geral.
Conversei também com o realizador do primeiro episódio, Luis Almeida, que até agora tem um percurso riquíssimo: assinou o filme Filhos do meio, a série "Barman" da RTPLab e colaborou com a revista digital Rimas e Batidas. Como ele, existem muitos outros realizadores - nomeadamente os restantes seis desta nova série - que permanecem invisíveis devido à segregação e aos preconceitos que ainda marcam Portugal relativamente a artistas negros.
Essa reflexão torna-se ainda mais necessária quando olhamos para situações recorrentes na indústria cultural portuguesa. Ainda recentemente, um grupo de mulheres realizou uma curta-metragem sobre determinadas experiências femininas sem incluir qualquer mulher negra no processo criativo. E a pergunta mantém-se: como é possível continuar a falar sobre diversidade ignorando sistematicamente determinadas vozes?
A necessidade de ocupar estes espaços torna-se ainda mais urgente num contexto em que muitas feridas históricas continuam pouco debatidas. A título de exemplo, em 2026 assinalam-se apenas 138 anos da Lei Áurea que aboliu oficialmente a escravatura no Brasil. No entanto, os impactos sociais, culturais e políticos desse passado continuam extremamente presentes nas sociedades lusófonas.
É precisamente essa consciência histórica e política que atravessa vários episódios da série.
O realizador Dércio Ferreira, por exemplo, coloca questões sociopolíticas no centro da sua obra, enfatizando a importância da literacia cívica como ferramenta de proteção contra manipulação política. Já Cláudia Semedo aborda temas profundamente íntimos, como a solidão, o conflito de identidade e a sensação de existir numa espécie de “terra de ninguém”. A realizadora fala ainda sobre a importância de regressar às origens e conhecer a terra dos pais - no seu caso, a Guiné - transformando uma experiência pessoal numa narrativa coletiva com a qual muitos descendentes da diáspora se identificam.
O primeiro episódio da série, “Moamba”, sintetiza de forma particularmente eficaz muitas das questões centrais do projeto.
O título remete imediatamente para comida, tradição e herança cultural. Mas existe uma ironia importante - apesar de a personagem principal ter raízes africanas, a sua terra é Portugal. Ainda assim, nunca é verdadeiramente visto como português. Porque basta existir um tom de pele diferente para a identidade nacional ser constantemente colocada em causa.
Ao longo do episódio, surgem situações extremamente familiares para muitos afrodescendentes: a típica pessoa que viveu em Angola e aprendeu pratos africanos “com as empregadas” como se fosse um episódio carinhoso, mas as empregadas eram normalmente subjugadas a uma realidade crua e dura. Para não falar que a moamba foi oferecida ao personagem Leandro, descendente de cabo-verdianos, alegando que angolanos e cabo-verdianos são todos a mesma coisa; os discursos nostálgicos sobre como “tratavam muito bem os empregados”; comentários como “és bonito para preto” ou “nem tens feições de preto”. Pequenas frases aparentemente banais que revelam preconceitos profundamente normalizados mas que são violentos e cansativos.
E talvez o mais interessante em “Moamba” seja a forma como o racismo nunca aparece como algo explicitamente violento. Pelo contrário: surge mascarado de simpatia, humor ou curiosidade. Porque muitas vezes o problema está precisamente aí. As pessoas raramente reconhecem o próprio racismo quando ele não assume formas extremas.
O humor acaba, aliás, por desempenhar um papel central no episódio. Sempre que existe desconforto ou inconveniência, a piada surge como mecanismo de escape. E a personagem principal, embora seja quem leva constantemente com comentários racistas, utiliza o humor e o clássico “deixa para lá” para lidar com situações absurdas, refletindo algo muito presente na experiência negra: transformar desconforto em sobrevivência emocional.
Outros episódios exploram ainda temas como a soberania das chefias brancas, microagressões do quotidiano, a tendência para reduzir pessoas racializadas apenas à sua etnia e até o desinteresse de algumas pessoas pelas lutas antirracistas.
Novas Narrativas de Caça irá obrigar o público português a olhar para determinadas realidades sem filtros romantizados e a educarem-nos para evitar a perpetuação disto.
A série não procura criar vítimas nem heróis. Procura apenas devolver humanidade a pessoas que, durante demasiado tempo, foram observadas apenas através do olhar dos “caçadores”.
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