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No dia 4 de Fevereiro, data que já carrega peso histórico em Angola, Slow J e Prodígio decidiram acrescentar mais uma camada à memória coletiva. O single “4 de Fevereiro” junta dois percursos marcados por viagens, partidas e regressos, num diálogo íntimo sobre casa, pertença e identidade.
A colaboração entre os artistas nasceu de forma orgânica, longe de estratégias calculadas. Slow J estava em Luanda, Prodígio em digressão com Paulo Flores. Entre conversas sobre infância, caminhadas pela cidade e sessões de estúdio, a música foi tomando forma quase como um diário partilhado. Não vendo necessidade de juntar outra voz, a faixa nasceu a dois, de raiz, numa sessão que começou de manhã e terminou com a sensação de que algo maior tinha sido desbloqueado.
O resultado é descrito por Slow J como um diálogo entre ele, Prodígio e a terra que os moldou, dividido em três momentos distintos. É uma conversa entre artistas, mas também uma troca simbólica com Angola, essa entidade viva que recebe, transforma e devolve. O próprio título remete ao Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, porta de entrada e de saída de milhares de histórias em Luanda.
Na entrevista à BANTUMEN, Prodígio recorda o aeroporto como essa janela de casa, o lugar onde se parte triste e se regressa diferente. O 4 de fevereiro representa a volta aos mais velhos, à família, à raiz. Artisticamente, é também o símbolo de um país que sempre o recebeu de braços abertos.
A letra mergulha nessa tensão constante entre dois lugares. Slow J escreve “é mais que só uma dupla nacionalidade, não há embaixada em causa” , deixando claro que a identidade vai além de documentos. Há algo de espiritual na forma como fala de multidões a rezar por si e de se sentir em casa em todo o lado. Prodígio, por sua vez, equilibra Luanda e Lisboa no mesmo verso: “metade do coração tá em Sintra / A outra metade em Luanda”.
Musicalmente, “4 de Fevereiro” divide-se em três atos, com produção de Holly, GOIAS e Edimmy , refletindo essa viagem interna e externa. O beat switch é quase cinematográfico, como se cada mudança de instrumental representasse uma nova fase da travessia emocional. O videoclipe, lançado no mesmo dia, reforça essa dimensão simbólica com uma linguagem distópica que explora a linha ténue entre a realidade e a possibilidade. Entre luzes, sombras e cenários que parecem suspensos no tempo, a narrativa visual amplia a sensação transmitida no single.
Para Slow J, o tema representa a aterragem e o início de uma nova viagem pessoal, um reencontro consciente com as raízes e com o que significa crescer entre margens. “4 de Fevereiro” fala diretamente a uma geração que vive entre aeroportos, grupos de WhatsApp familiares espalhados por continentes e identidades múltiplas. Jovens de Luanda, Maputo, Lisboa ou da diáspora reconhecem-se nesta ideia de estar sempre a chegar e a partir ao mesmo tempo. A música transforma essa condição em força.
No fundo, o que Slow J e Prodígio fazem aqui é simples. Pegam numa data, num lugar físico e numa experiência comum a muitos, e transformam-nos numa declaração artística sobre quem somos quando atravessamos fronteiras sem deixar de carregar o nosso sangue. E nessa travessia, o 4 de Fevereiro deixa de ser apenas um aeroporto e passa a ser estado de espírito.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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