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No segundo álbum do artista cabo-verdiano, a vulnerabilidade funciona menos como tema isolado e mais como princípio de construção. Entre Afropop, R&B, rap, Kriolu e uma experiência marcada pela diáspora, SONY BOY procura aproximar a música da pessoa e encontra os seus momentos mais fortes quando deixa de representar uma imagem e começa a expor contradições.
Sony Berdiano chega a SONY BOY depois de vários anos a construir uma identidade artística que nunca se limitou à música. Cantor, compositor e produtor, trabalha também vídeo, edição, direção criativa e produção de conteúdos, e apresenta-se antes de tudo como criativo. Essa multiplicidade ajuda a perceber um percurso que se foi formando entre Cabo Verde, Portugal, Países Baixos, Suécia e Noruega, e que encontrou no movimento geográfico uma espécie de extensão natural da sua linguagem. No seu caso, viajar não aparece apenas como biografia decorativa: traduz-se na convivência de idiomas, referências culturais e formas diferentes de pensar o amor, a pertença e a identidade. O Kriolu permanece no centro, mas convive com português, inglês, espanhol, holandês e outras línguas absorvidas ao longo desse percurso. O próprio Berdiano resume essa posição de forma clara no dossier do álbum: não pretende adaptar a identidade para chegar ao mundo, mas levá-la consigo.
Essa ideia ganha particular importância quando se olha para a passagem de The Last Gentleman Alive, de 2023, para este novo projeto. O disco anterior organizava-se em torno de uma figura mais delimitada: o "gentleman", o romântico, o sedutor, o homem que representava uma determinada ideia de elegância e relação amorosa. SONY BOY tenta desmontar parte dessa construção sem a negar por completo. Não há rutura teatral nem necessidade de fingir que o passado deixou de existir; há antes uma aproximação à pessoa que estava por detrás daquela personagem. O próprio artista descreve o novo álbum como consequência, e não substituição, do anterior. É uma distinção importante porque impede que a narrativa de evolução seja demasiado simples. Sony continua interessado em romance, desejo, sedução e presença física. O que muda é a quantidade de dimensões pessoais que permite entrar agora na música: família, insegurança, casa, deslocação, ambição, ruído mental, identidade cultural e a possibilidade de admitir fragilidade sem sentir que isso destrói a imagem masculina que construiu.

Sony Berdiano | DR
É nesse ponto que a vulnerabilidade deve ser entendida. SONY BOY foi apresentado como um álbum sobre vulnerabilidade, mas ouvi-lo apenas através dessa chave seria reduzir aquilo que efetivamente está a acontecer. O disco fala sobretudo de proximidade: da distância que se encurta entre duas pessoas, da confiança necessária para permitir intimidade, do corpo como linguagem, da presença da família, da ligação a Cabo Verde e da tentativa de diminuir a separação entre Sony Berdiano enquanto artista e Sony Berdiano enquanto pessoa. "Vulnerável" é a formulação mais explícita desse movimento porque coloca a confiança no centro da relação. Sony promete um espaço seguro; Bbeba introduz a pergunta essencial sobre aquilo que acontece quando alguém entrega corpo, mente e coração a outra pessoa. A colaboração ganha força precisamente porque não serve apenas para acrescentar outra voz ao refrão: traz outra perspetiva para a mesma situação emocional. A vulnerabilidade deixa assim de ser uma qualidade abstrata e passa a depender da relação entre duas pessoas.
O resto do álbum, porém, revela que Berdiano está tão interessado em desejo quanto em fragilidade. E essa tensão é uma das características mais reveladoras de SONY BOY. "God Damn", "Dodu na Bo", "Body Language", "Linguagem de Amor" e partes de "Free My Soul" regressam constantemente ao corpo, à atração, ao movimento, à química e à intimidade. A escrita privilegia frases curtas, repetição, refrões imediatamente reconhecíveis e alternância linguística. Não estamos perante um projeto interessado em virtuosismo verbal, estruturas complexas de rima ou storytelling extensivo. A lógica aproxima-se mais de uma gramática Afropop e R&B contemporânea, em que a voz trabalha simultaneamente como veículo de significado e instrumento rítmico. É uma escolha coerente com a sonoridade e com o alcance pretendido, mas também expõe uma limitação: quando a repetição não encontra uma ideia suficientemente forte por detrás dela, algumas canções ficam demasiado dependentes do ambiente e da performance. "Come Over" é talvez o exemplo mais evidente dessa economia extrema, construindo quase toda a sua identidade a partir da sensação de conforto e presença.
A escrita ganha densidade quando Berdiano substitui declarações genéricas por gestos concretos. É aí que "Linguagem de Amor" assume particular importância dentro do disco. O amor deixa de ser apenas desejo ou proclamação e passa a manifestar-se em atos: flores, café, vinho, viagem, atenção, cuidado, presença. Ao mesmo tempo, a letra não idealiza completamente a relação. Ciúme, obsessão, sexualidade e o conflito entre razão e sentimento entram na mesma equação. Essa imperfeição aproxima a canção do conceito geral de SONY BOY: mostrar uma pessoa em construção, não uma versão polida de si próprio. É também por isso que "Dodu na Bo" se torna mais interessante quando a paixão invade convicções que pareciam estáveis. A ideia de alguém conseguir alterar uma posição sobre casamento, por exemplo, diz mais sobre vulnerabilidade do que várias declarações explícitas de fragilidade. Ao mesmo tempo, a faixa conserva códigos de estatuto, consumo e performance masculina que pertencem a uma tradição bastante reconhecível do rap e da música urbana. Essa contradição não prejudica necessariamente o álbum; pelo contrário, talvez seja uma das suas partes mais honestas. O homem que tenta abandonar certas máscaras ainda transporta elementos delas.
É precisamente nessa zona de contradição que o projeto encontra alguma profundidade crítica. SONY BOY quer apresentar um Sony mais livre e vulnerável, mas a maior parte das letras continua a organizar-se em redor de relações, corpo e sedução. O dossier fala de perdas, dúvidas, erros, conquistas, crescimento, viagens e transformação pessoal; no entanto, essas dimensões aparecem mais claramente no discurso que contextualiza o álbum do que no desenvolvimento lírico das nove faixas. "Free My Soul" abre uma porta particularmente interessante quando introduz o ruído mental e a vontade de libertar cabeça e alma através da dança, mas a canção regressa rapidamente ao território sexual. É um dos momentos em que se percebe que Berdiano tem matéria autobiográfica para aprofundar muito mais. O mesmo artista que consegue falar de desejo com facilidade ainda está a descobrir como transformar solidão, medo, perda ou ansiedade em narrativa musical com o mesmo grau de detalhe.
É por isso que "Só Bensons" ocupa um lugar tão importante no alinhamento. Quando o amor deixa de ser romântico e passa a significar mãe, irmãos, raízes, Cabo Verde e memória, o disco abre imediatamente outra dimensão. A canção introduz a família não apenas como referência sentimental, mas como estrutura da identidade e da ambição. Berdiano é o mais novo de onze irmãos e associa o seu percurso à ideia de construir algo que ultrapasse o sucesso individual. No dossier, fala do desejo de criar oportunidades para os seus, de abrir portas à comunidade africana, de colaborar com artistas e criativos dos PALOP e de fazer com que aquilo que constrói tenha consequências para além da própria carreira. As referências a Cesária Évora e Dino d'Santiago funcionam dentro dessa lógica. Não aparecem simplesmente como nomes canónicos colocados para legitimar pertença; funcionam como exemplos de artistas que conseguiram tornar Cabo Verde legível internacionalmente sem apagar a origem. Nesse momento, o álbum deixa de falar apenas de relações e começa verdadeiramente a falar de herança.
Essa dimensão cabo-verdiana é talvez o elemento mais consistente de todo o projeto. O Kriolu não é tratado como decoração nem como instrumento de autenticidade performativa. É língua de afeto, intimidade, família e memória. Berdiano não parece interessado em tornar cada frase imediatamente transparente para um público exterior; prefere preservar a textura emocional da língua e confiar que ritmo, melodia e interpretação façam parte do trabalho de tradução. O multilinguismo de SONY BOY funciona assim como consequência biográfica, não como truque cosmopolita. Há uma diferença importante entre utilizar várias línguas para parecer internacional e fazê-lo porque a própria vida se construiu entre várias geografias. O álbum posiciona-se claramente no segundo campo. Essa escolha inscreve Berdiano numa tradição mais ampla de artistas cabo-verdianos que trabalham a relação entre ilha, diáspora e circulação global, mas sem necessidade de repetir exatamente os caminhos de Cesária Évora, Mayra Andrade, Dino d'Santiago, Djodje ou June Freedom. O interesse está precisamente em perceber como uma geração mais recente traduz essa herança através de Afropop, R&B, rap e linguagens digitais contemporâneas.
Também o processo de produção revela uma tentativa de simplificação. Berdiano descreve SONY BOY como resultado de uma filosofia de "less is more": menos plugins, menos software, menos drum kits, menos possibilidades infinitas. A limitação foi usada como forma de obrigar a tomar decisões e escutar melhor. Essa opção encaixa na própria estrutura do álbum, curto, direto e sem excesso de faixas. Nove músicas em 24 minutos obrigam cada ideia a entrar rapidamente e raramente deixam espaço para grandes desvios. Ao mesmo tempo, a independência não se transforma numa narrativa de autossuficiência. O projeto envolve Bbeba, Don Pablo, Bama, 2weeks e vários colaboradores de produção e engenharia, entre eles Rossini Andrade e Pedro Slick. Essa abertura é coerente com a identidade que o disco pretende afirmar: Sony Berdiano apresenta-se como autor de uma visão, mas não como alguém que precisa de controlar todos os elementos sozinho.
No fim, SONY BOY funciona melhor quando é lido não como grande manifesto de vulnerabilidade, mas como retrato de um artista a tentar reduzir a distância entre imagem e experiência. A escrita ainda se apoia demasiado em repetição e, em alguns momentos, o discurso conceptual que acompanha o álbum é mais profundo do que aquilo que as letras conseguem desenvolver. Há promessas de interioridade que ficam por explorar, sobretudo quando o álbum toca em solidão, ruído mental, crescimento ou perda. Mas há também uma evolução clara na forma como Berdiano enquadra a própria identidade. The Last Gentleman Alive oferecia uma personagem relativamente fechada; SONY BOY prefere uma identidade móvel, capaz de conter o amante, o filho, o irmão, o emigrante, o cabo-verdiano, o produtor, o homem vulnerável e o homem ainda preso a algumas formas de performance masculina.
A faixa-título termina essa ideia mais como assinatura do que como conclusão. "Sony Boy" é repetido até se tornar nome, mantra e marca pessoal. Há aqui um paradoxo interessante: o artista diz querer afastar-se da personagem, mas termina o álbum a construir outra fórmula identitária. A diferença é que esta parece menos rígida. "The Last Gentleman" dizia quem ele devia ser; "Sony Boy" parece querer aceitar quem ele pode vir a tornar-se. E talvez seja esse o verdadeiro centro do álbum. Não a chegada a uma versão definitiva de Sony Berdiano, mas a recusa dessa ideia. SONY BOY é mais forte quando assume que crescer não é encontrar uma identidade final, mas aprender a conviver com versões diferentes de nós próprios.
É nesse espaço, entre desejo e família, Cabo Verde e diáspora, pose e vulnerabilidade, controlo e descoberta, que Sony Berdiano encontra a matéria mais interessante do novo álbum. O passo seguinte será perceber até onde está disposto a aprofundá-la.
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